Só uma mentira

Parte 6...

Camila

Quando pedi para ligar para minha mãe naquela tarde, minhas mãos estavam frias.

No internato, ligações eram permitidas, mas sempre curtas, sempre supervisionadas, sempre dentro de um horário que parecia escolhido para cansar mais do que aproximar. Mesmo assim, quando me entregaram o telefone, senti como se estivesse lutando por minha vida. Seria a primeira vez que eu iria mentir para minha mãe.

— Camila?

A voz veio baixa, insegura. Como se ela tivesse medo de ouvir outra coisa.

— Oi, mãe. Sou eu sim.

— Minha filha… - ela disse, e o som do meu nome na boca dela fez meus olhos arderem. — Eu estava esperando você ligar. Estava com saudades.

Fechei os olhos.

— Desculpa… Eu… As regras aqui…

— Eu sei. Eu sei. O importante é que você ligou. - respirou fundo. — Como você está, meu amor?

A resposta pronta morreu antes de sair.

— Estou… - engoli em seco — Tentando fazer o que esperam de mim.

Houve um silêncio curto, pesado.

— Eles te tratam bem? Aconteceu algo?

— Sim. – aí a mentira saiu automática. — É tudo muito bem organizado aqui, a senhora sabe.

— Sim, eu sei... É uma pena que eles não permitam visitas. Gostaria tanto de poder ver você, filha.

Encostei a testa na parede.

— Não é fácil. Eu também queria isso, mãe.

Do outro lado, ouvi um ruído baixo. Talvez ela tivesse mudado o telefone de mão. Talvez estivesse limpando o rosto.

— Nada disso é fácil, Camila. Mas está perto de terminar.

— Eu sei. – fechei os olhos.

Perto de terminar, ela quer dizer que eu vou sair daqui para cair nas mãos de um estranho.

— Mãe… - comecei, devagar. — O internato me deu uma oportunidade incrível.

— Mesmo? a voz dela ficou mais atenta. — Por quê?

— Eles… Receberam contato de uma instituição. Uma escola externa. - apertei os dedos contra o aparelho. — Um programa de formação feminina. Preparação social. Eles trabalham com jovens que vão passar por… Mudanças grandes.

Ela entendeu sem eu dizer.

— Entendo. Casamento?

— Sim.

Silêncio.

— Eles disseram que isso pode influenciar meu futuro. Onde vou ficar depois, que tipo de formação vou ter... Organizar uma casa... - respirei fundo. — É uma chance excelente para o fim de meu tempo aqui.

— É mesmo, querida? Que bom.

— Sim, muito... Mas... Pediram uma avaliação e uma taxa inicial.

— Taxa?

— É, para a matrícula. Reserva de vaga. Custos de viagem. Essas coisas.

— Seu pai… - ela começou.

— Não. - cortei, antes que ela completasse. — Eles disseram que, agora que sou maior, precisa ser feito em meu nome. Pela aluna.

O silêncio que veio depois foi mais longo.

— Eles querem que você pague?

— Não tudo. Só uma parte. O suficiente para começar.

Ouvi o som dela inspirando devagar.

— Eu… - a voz falhou — Eu não sei se posso…

Meu peito apertou.

— Eu entendo, mãe. – tinha que insistir — Mas é que eu já aceitei meu futuro. Vou ser esposa de Rafael Bova e pra isso, preciso de mais instrução do que já recebi aqui no colégio.

— Isso seria importante, filha. Seu pai gostaria.

Minha garganta fechou.

— Então, mãe... Será que poderia me enviar o valor inicial?

— Mas de quanto você precisa?

Eu não combinei essa parte com Guerd, então soltei um valor aleatório, pensando que teria que ficar muito tempo fora, mas sem exagerar pra não levantar suspeita.

— Eu posso transferir uma parte. Não tudo. - a pressa na voz dela denunciava medo. — Mas o suficiente para essa escola. Para o que você precisar. Depois pode pedir o resto ao seu pai.

— Obrigada, mãe.

Minhas mãos tremiam.

— Então farei a transferência inicial para a conta da instituição e o que precisar depois, você pode acessar por sua conta digital. Vou enviar a senha para você.

— Seria ótimo, mamãe - senti um nó se formar no peito. — Eu não pediria se não fosse necessário.

— Eu entendo, filha. Seu pai é que...

— Mãe, você não precisa contar a ele... Não agora, por favor. Me deixe começar o curso e eu conto – molhei os lábios ressecados — Ele vai gostar de saber que eu aceitei o que ele fez.

— Você sabe que foi para os eu bem – a voz dela endureceu um pouco. — É o mínimo que pode fazer, filha. Aceitar e entender seu pai.

Fechei os olhos com força.

— Sim, tem razão – haja mentira — Por isso que não quero contar agora a ele. Espere até que eu esteja na escola e aí eu ligo para contar.

— E onde será essa escola? Por que não é aí mesmo no internato?

— É que eles não misturam, mãe. O internato tem uma responsabilidade e as escola para noivas tem outra, entende?

— Sim, acho que sim. Mas me deixou tão feliz com isso. Esses anos todos eu tenho me preocupado com o dia em que você teria que voltar para se casar.

Minhas lágrimas começaram a cair.

— Eu sei, mãe. E quero fazer o certo – minha língua até queima de tanta mentira — Vai ser ótimo esse curso.

— Sim, vai mesmo, querida. Eu vou transferir - ela repetiu. — Hoje mesmo. Você me manda os dados.

— Obrigada, mãe.

— E você já recebeu seu presente de aniversário?

— Presente? Ainda não.

— Eu mandei semana passada. A diretora deve estar guardando. Fale com ela.

Todos os anos minha mãe envia presentes. Esse ano não seria diferente, mas estou tão ansiosa e preocupada com meu futuro, que acabei esquecendo.

— Eu tenho que desligar agora, mãe – queria chorar e se fizesse isso, ela iria desconfiar — Ligo depois, está bem? Eu vou falar com a diretora que vai enviar o dinheiro.

— Está bem, querida. Fiquei feliz que você ligou. Estou ansiosa para que mais esse ano passe e você possa voltar para perto de nós.

— Eu sei, mãe. – me despedi.

Quando desliguei, fiquei alguns segundos olhando para o telefone. O plano estava andando. O dinheiro viria.

Mas nada disso pesava tanto quanto a certeza de que, para ser livre, eu estava aprendendo a partir o coração da única pessoa que me ama realmente.

Quando entrei no quarto, os dois me esperavam. Guerd veio logo para meu lado.

— E aí? Como saiu?

— Tudo bem – funguei e sequei os olhos — Ela vai enviar o dinheiro ainda hoje.

— Perfeito – ele bateu as mãos forte — Agora a outra parte, com a diretora. Aí tem que ser mais elaborado.

— Eu sei – funguei de novo — Mas não sei se posso fazer isso agora.

— Tem que fazer, amiga, não pode deixar passar o tempo, senão algo pode dar errado – Jocelyn levantou de minha cama — Guerd vai enviar o e-mail para a diretoria. Assim que eles lerem, com certeza vão querer se informar sobre a tal escola.

— E como vamos evitar que descubra? – uni as mãos — Eu não posso dizer que não ligue.

— Não vai dizer, eu vou dar um jeito.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App