Anos depois

Parte 2...

Camila

— Ei, que cara é essa? – Guerd sentou ao meu lado no banco — Nem parece que vai poder curtir o aniversário fora dessas paredes.

— Pois é, que cara murcha – Jocelyn sentou do outro lado — Se anima, amiga. Vai ser muito bom.

Eu dei um sorriso meio sem graça. Eu sei que eles acham que é motivo para alegria e até poderia ser, mas isso só me lembra que em breve eu vou ter que voltar pra casa e cumprir um acordo que não quero.

— Bem que eu queria mesmo – suspirei.

— Gente, o que você tem hoje? – Jocelyn apertou minha perna — Aconteceu alguma coisa que a gente não ficou sabendo?

Eu não queria chorar, mas as lembranças vinham com força. Mesmo depois desses anos aqui no internato, eu ainda me recordo daquele jantar.

Carne assando, vinho aberto, flores demais espalhadas pela casa. Tudo preparado para um jantar que não era sobre comida. Era sobre posse. Eu estava no quarto quando Rosa bateu de leve na porta.

— Menina Camila… - ela entrou sem sorrir. — Sua mãe pediu para avisar que o jantar vai começar em meia hora.

Eu estava sentada na beira da cama, olhando para o nada, desanimada.

— Eu não vou descer.

Ela parou no meio do quarto.

— Como assim?

— Eu não vou sentar à mesa com estranhos para fingir que isso é normal.

Rosa fechou a porta atrás de si.

— Seu pai está esperando.

— Ele que espere.

— Menina, não faça isso, por favor...

Levantei e comecei a andar de um lado para o outro. Meu estômago doía. Minhas mãos estavam frias. Rosa gosta muito de mim e sei que fica nervosa que meu pai brigue comigo.

— Eles estão lá embaixo. A família dele. Gente que eu nunca vi, que já decidiu o meu futuro. Eu não vou sorrir para eles.

Rosa hesitou.

— Seu pai vai ficar furioso.

— Ele já está. – dei de ombro.

Fiquei parada diante da janela. O jardim lateral dava para o muro de pedra que separava a mansão da rua secundária. Mais abaixo, depois de algumas casas, havia uma pequena praça.

— Rosa… - falei baixo. — Você consegue destrancar a porta do depósito?

Ela me olhou por longos segundos.

— O que a mocinha está pensando em fazer?

— Não aparecer. – dei um sorriso ousado.

O silêncio se estendeu entre nós.

— Eles só vão embora depois de firmarem o acordo. Se eu não estiver lá, não tem jantar. Não tem brinde. Não tem noiva sentada à mesa.

Rosa respirou fundo.

— Se o seu pai descobrir que fui eu…

— Ele já me odeia o suficiente por todos nós.

— Que bobagem. Seu pai não odeia você.

— E tão pouco me ama de verdade, senão ele não teria me vendido em um acordo.

Ela passou a mão no rosto.

— Dez minutos. Depois disso, vão começar a perguntar por você.

Fui até o armário, vesti a primeira roupa que encontrei, calcei um tênis.

Rosa destrancou a porta que dava para a área lateral da casa. De lá, um corredor estreito levava até uma janela baixa, quase escondida por trepadeiras.

— Rápido - ela murmurou.

Subi na bancada, empurrei a janela e senti o ar frio da noite no rosto. Passei primeiro uma perna, depois a outra. Caí do lado de fora com um baque leve.

— Fique na praça, em um local iluminado - Rosa disse em voz baixa. — Quando os carros forem embora, eu aviso o segurança. Você volta pelo portão dos fundos.

Assenti.

— Obrigada.

Ela não respondeu. Apenas fechou a janela.

Atravessei o jardim correndo, pulei o pequeno desnível do muro e segui pela rua lateral até a praça. Sentei no banco.

Ali, longe da casa, o mundo parecia outro. Um cachorro latia ao longe. Um casal atravessou a rua sem me notar. Era só esperar.

Uma hora. Talvez duas. Ou talvez até antes disso, se ficassem com muita raiva de eu não descer. Depois, tudo estaria acabado.

***** *****

Meia hora depois...

Eu não estava olhando para a rua quando ouvi o som do motor. Levantei a cabeça. Um carro preto havia parado perto da praça. Depois outro. Aí entendi.

Portas se abriram e homens desceram. Meu coração disparou. Não tive tempo de levantar. A porta de trás se abriu e meu pai saiu.

Ele me viu imediatamente. Eu fiquei travada com seu olhar feio. Atravessou a rua sem pressa. Cada passo parecia pesado demais. Os homens ficaram para trás. Quando chegou perto, segurou meu braço com força.

— O que você pensa que está fazendo?

— Me solta, pai - puxei, em vão.

— Você tem ideia do que fez esta noite? Da vergonha que me fez passar?

— Eu não fiz nada.

Ele riu, sem humor.

— Você me fez passar não só vergonha, mas quase atrapalhou meus negócios.

Começou a me arrastar.

— Para! - tentei me soltar. — As pessoas estão olhando!

— Ótimo. Que vejam. Sou um pai irritado com sua filha adolescente que acha que sabe das coisas.

Me puxou pelo braço até o carro. Abriu a porta e praticamente me jogou para dentro. O trajeto de volta foi em silêncio pesado.

Na sala, as luzes ainda estavam acesas. O cheiro da comida ainda estava no ar. Taças sobre a mesa. Pratos intactos. Ele me empurrou para o centro do cômodo.

— Você acha que isso é brincadeira, Camila?

— Eu não sou um acordo - falei, a voz tremendo.

O tapa veio sem aviso. Foi forte e doeu. Caí de lado, batendo o ombro na quina do sofá.

— Você é minha filha - apontou — E você me obedece. Não pode me fazer uma desfeita dessa.

Tentei me levantar, mas logo veio outro tapa. E outro. Não sei quantos. Só lembro do gosto de sangue. Do rosto queimando. Do chão frio quando caí de novo.

— Você humilhou a mim e aos meus aliados - ele continuou. — Fez homens poderosos esperarem por nada. Sua mãe ficou com a cara no chão.

Chorei baixinho, olhando para o chão.

— Isso não vai se repetir, entendeu?

Ele se abaixou perto de mim.

— Você vai embora ainda esta semana.

Levantei os olhos.

— O quê?

— Três dias. – pegou meu cabelo e puxou minha cabeça de lado — Três dias e você estará fora desta casa.

Respirei com dificuldade.

— Pai, eu não...

— Cale-se, não quero conversa sua.

— Para onde eu vou? Ainda estou estudando.

— Para longe, para aprender o seu lugar.

Ficou de pé.

— Para aprender a ser uma esposa perfeita para o homem com quem você vai se casar. – me olhou de cara fechada — E nem pense que vou facilitar as coisas para você... Vai seguir regras e quando voltar, será a esposa que Rafael espera.

Virou as costas. Fiquei no chão por muito tempo. Três dias depois, fui colocada dentro de um carro antes do sol nascer. Minha mala já estava pronta. Eu não tinha feito nada. Minha mãe não apareceu.

— Onde ela está? – perguntei com a voz rouca.

— Não vem - meu pai respondeu. — Eu proibi. Você não merece ver sua mãe depois da vergonha que fez.

Me empurrou para dentro do carro e deu as instruções. O portão se abriu e o carro saiu. Eu olhei para a casa diminuindo pelo vidro traseiro.

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