Entendendo melhor

Parte 5...

Camila

Eu ainda estava tentando engolir a parte da mentira quando percebi que tinha algo faltando. Esperei o professor se voltar para o quadro e cutuquei Guerd.

— Mesmo que ela aceite… - falei devagar — Como eu vou pegar esse dinheiro? Não entendo ainda.

Guerd apoiou o cotovelo no encosto da cadeira.

— Você não pega. Ela transfere.

— Aí que está. Meu pai controla tudo.

— Controla a casa. Não a sua idade.

Ergui o rosto e franzi a testa.

— Você é maior de idade. Pode abrir uma conta só sua. Sua mãe é cotitular da poupança. Ela não precisa do seu pai pra mover uma parte.

Meu coração acelerou.

— E ele não ficaria sabendo?

— Não. Transferência não manda convite pra briga de família - ele respondeu. — Só deixa rastro. E quando ele perceber, você já não vai estar aqui.

Fiquei em silêncio.

— Isso precisa ser feito antes de qualquer fuga. O dinheiro tem que estar no seu nome. Uma parte vai ser em espécie, então, quem vai te dar é a diretoria.

— Oi? Como? E depois?

Ele me encarou.

— Depois a gente escolhe o dia.

— O aniversário…

Jocelyn levantou o olhar.

— É o melhor dia possível.

— Mas como? – o professor chamou meu nome e eu pedi desculpas.

— Ninguém vai te deixar sair assim, do nada. Então vai ter que enganar a diretora geral também.

— Ai, Jesus... Tá ficando complicado isso.

— Que nada... Se for para um passeio não vão deixar, mas se você jogar com doença, família, Deus, seu casamento – piscou o olho — Certeza que vai ganhar um passe. Vão te deixar ir consertar a alma.

— Minha alma está ótima.

— Justamente por isso vai funcionar.

— Você tem que usar com a emoção dos envolvidos, senão vai tudo pro ralo.

Respirei fundo e fechei os olhos.

— Deus, me ajuda!

— Não envolve Deus na sua sujeira – Jocelyn falou baixinho e depois começou a rir.

— Obrigada pelo apoio – olhei com ironia.

— De nada. Sempre que quiser – continuou rindo.

— Pessoal, menos fofoca e mais atenção aqui, por favor – o professor bateu no quadro com a régua.

***** *****

Depois...

Guerd criou uma fundação em quarenta e oito horas. Ele era um diabo na internet. Conseguiu tudo que serviria para enganar minha mãe e a diretora também.

Nome respeitável. Visual limpo. Palavras bonitas.

“Instituto de Orientação Feminina e Preparação Social.”

Soava como algo que uma mulher rica pagaria para a filha sem fazer perguntas. Até mesmo os e-mails que seriam enviados para a diretora já estavam prontos.

— A diretora vai receber um pedido formal - ele explicou. — Avaliação emocional. Adaptação psicológica. Preparação para mudança de vida.

Engoli em seco.

— Casamento.

— Exatamente.

Jocelyn fez uma careta.

— Odeio o quanto isso soa real.

E era, não da forma como deveria ser.

— Vou enviar e você não pode dar tempo para que a diretora descubra.

— E como vou fazer isso?

— Primeiro você vai envolver sua mãe – começou a falar como se fosse um filme, cheio de drama. Andava pela sala gesticulando — Ligue para ela hoje e já comece com chantagem emocional – ergueu a mão — E sem pena, porque senão vai dar errado.

— Ai, gente...

— Não é hora de se acovardar, Mila. Tem que fazer ou então para de reclamar sobre o casamento e aceita logo – Jocelyn falou séria — Se for, vai de vez.

— É que eu não gosto de mentira.

— E daí? Não é caso pra gostar ou não. É sobrevivência, meu amor – balançou o corpo — Seu pai não te prendeu aqui contra sua vontade? Pois agora você dá o troco e foge.

Confesso que mesmo com medo, fiquei animada.

— Tá bom, e como faço depois?

Guerd voltou a explicar essa parte do plano. Se eu conseguisse enganar minha mãe para me enviar o dinheiro, teria que fazer o mesmo com a diretora.

Paramos de falar quando dois professores passaram ao nosso lado.

— Olha, isso é importante – Guerd falou baixo — Se der certo e você sair daqui, não confie em ninguém. Todo mundo é um inimigo em potencial.

— Inimigo? – fiz uma careta descontente.

— Claro. Acha que seu pai não vai mandar alguém atrás de você?

— Ou até o seu noivo – Jo completou.

— Caramba... – suspirei — Vai, continua.

— Depois que a história colar para as partes, nós vamos mentir que queremos comemorar seu aniversário.

— Oi?

— É, vamos falar que depois desses anos todos, você merece um pouco de liberdade e queremos um dia de amigos... Que vamos fazer um acampamento na montanha.

— Oohh... Genial – estalei os dedos — Mas como vamos nos livrar da vigília?

— Ah, isso é mais fácil – Jocelyn jogou o cabelo.

— Ela é boa nisso, deixa com a Jo – Guerd fez uma cara engraçada — O pai dela disse que ela precisa mudar o comportamento, senão vai ficar aqui até os trinta.

— Meu Deus! – gargalhei.

— É, não é só você que apronta. – girou os olhos e torceu a boca — Meu pai quer que eu assuma a empresa quando me formar, mas tem que ser no padrão dele ou nada feito.

— E por que trinta?

— Porque aí ele não pode impedir que eu receba minha parte. Meu avô deixou isso no testamento.

— Ah, tá! – franzi o nariz — Gente, nossos pais não são um grande exemplo – balancei a cabeça.

— Agora que você percebeu? – rimos juntos — E aí? Continua ou para?

— Continuo, claro.

— Isso aí, amiga!

Batemos as mãos. Estou nervosa, mas a vontade de não me casar é muito maior do que meu medo.

— Tudo bem. Vamos começar o plano. Pode ligar para sua mãe hoje de tarde? – fiz que sim — Ótimo. Se puder convencê-la ainda hoje, fica mais fácil. Eu já envio os e-mails para a diretora.

— E se ela verificar?

— Não tem problema, já tenho isso adiantado também. – inclinou o corpo pra frente — Tem um número falso de telefone. Quando ela ligar, vai cair na mão de um primo – eu arregalei os olhos — Já falei com ele, vai ajudar. Ele vai se passar por diretor da falsa escola.

— Misericórdia, eu quero morrer sua amiga – Jocelyn colocou a mão no peito — Você é um diabo.

— Não viu nada ainda, querida. Se eu tivesse tido mais tempo, você já estaria fora desses muros há muito tempo – me deu um beliscão de leve.

— Ai... E eu lá sabia que você era um vilão de romance? – esfreguei o braço.

— Não interessa agora, vamos colocar em prática, mas fique alerta, não vai ser flores.

— Verdade. Você vai ter que se esconder por um tempo.

— Eu não conheço ninguém lá fora.

— Mas eu conheço, não se preocupe – Guerd me abraçou — Você fica com eles uns dias e depois segue pra onde quiser.

Nesse instante eu fiquei tão nervosa que até senti uma dorzinha de cabeça.

— Não vai amolecer agora.

— Não. Quero escapar desse acordo.

— Então prepare a atuação. Mais tarde você liga pra sua mãe.

Eu só fiz que sim com a cabeça.

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