O plano continua

Parte 7...

Camila

Percebi o quanto estava cansada quando minhas pernas tremeram ao me sentar na cama.

Guerd já estava com o notebook aberto, a luz azulada refletindo nos óculos e deixando seu rosto ainda mais sério do que o normal. Jocelyn andava de um lado para o outro, mordendo a unha do polegar, inquieta.

— Eu já montei tudo - ele disse, sem tirar os olhos da tela. — Site, domínio, páginas internas, regulamento, fotos falsas, depoimentos. Tem até telefone com secretária eletrônica. Se a diretora pesquisar, vai encontrar um universo inteiro.

— E os e-mails?

Ele girou o notebook na minha direção. Na tela, vi o cabeçalho: Instituto Sainte Claire — Formação Feminina e Preparação Social. Parecia real. Assustadoramente real.

— Esse é o primeiro. Vai para a diretoria. Explica que você foi selecionada para um módulo intensivo de noivas, duração de uma semana, como extensão do internato. Diz que sua mãe já foi informada e concordou.

— E o outro? - minha voz saiu mais baixa.

— Vem “da sua mãe”. Confirmando tudo, pedindo sua liberação imediata, dizendo que seus pais estarão em viagem por três dias e que não poderão atender ligações. E informando que ela enviará um valor para ser entregue a você, para custear deslocamento e material.

Jocelyn parou atrás de mim e pousou as mãos nos meus ombros.

— Eles confiam na palavra dos pais. E confiam em dinheiro. Isso fecha o circuito. Não vão achar nada de errado, porque nunca houve algo assim antes.

Engoli em seco e até estremeci de leve.

— Quando você vai mandar?

— Agora.

O som do clique pareceu alto demais naquele quarto. Quando a mensagem foi enviada, meu estômago se contraiu, como se eu tivesse acabado de assinar um documento irreversível.

— Agora você espera ser chamada - Guerd disse. — E quando for, não inventa demais. Deixa que a história se sustente sozinha. Finge naturalidade.

Não demorou nem duas horas. Uma monitora apareceu à porta no início da noite.

— Camila, a diretora pediu que você vá até a sala dela para conversar.

Meu coração começou a bater tão forte que tive medo de que fosse audível. Caminhei pelos corredores como quem anda sobre vidro.

A sala da diretora sempre cheirava a lavanda e papel antigo. Ela estava sentada atrás da mesa, postura impecável, mãos cruzadas. Um envelope pardo repousava ao lado de um pequeno pacote verde-escuro e de uma caixinha branca.

— Entre, Camila.

Obedeci.

— Recebemos hoje dois e-mails bastante… Interessantes - ela disse, ajeitando os óculos. — Um de uma instituição externa. Outro, de sua mãe.

Meu corpo inteiro ficou atento.

— Sim, senhora.

— Esse Instituto Sainte Claire afirma que você foi indicada para um módulo de preparação social voltado a jovens que se aproximam do casamento.

Assenti.

— Eles trabalham em parceria com alguns internatos - continuei, com cuidado. — Minha mãe comentou sobre essa possibilidade semanas atrás.

Era mentira. Mas soou plausível. Ela me observou por alguns segundos longos demais.

— Sua mãe confirma tudo. Diz que você deve ser liberada por uma semana. Que isso faz parte da sua formação final.

Meu peito subiu e desceu.

— Sim, senhora.

— Ela também informa que enviou um valor para ser entregue a você. - a diretora pousou a mão sobre o envelope. — Chegou hoje há pouco tempo.

Era o dinheiro prometido por minha mãe. Minha passagem de saída.

— Esse valor ficará sob sua responsabilidade durante o período fora. Será usado para despesas relacionadas ao curso.

— Entendo.

— Sua mãe pediu também que não entremos em contato por três dias. Ela e seu pai estarão em deslocamento.

Um segundo de hesitação.

— Sim. Eles viajam muito.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Eu verifiquei o site da instituição. Confesso que é bastante completo.

Quase prendi a respiração.

— Minha mãe falou que são muito organizados.

— Isso é essencial para jovens como você, Camila. O mundo que a espera exige postura, disciplina, preparo.

Sim. O mundo que me espera exige fuga. Ela abriu uma gaveta, tirou um recibo, empurrou-o na minha direção junto com uma caneta.

— Assine aqui. Confirma que recebeu o valor.

Minhas mãos tremiam enquanto eu escrevia meu nome. Quando terminei, ela empurrou o envelope até mim. O papel era grosso. Dentro, eu sabia, estava o peso da minha culpa.

— Agora… - disse, pegando o pacote verde. — Isso chegou para você ontem. Da sua mãe.

Desamarrou o laço com cuidado e me entregou. Abri. Era uma echarpe. Verde profundo, quase esmeralda. Macia, elegante, com uma leve fragrância que reconheci imediatamente. Passei os dedos pelo tecido.

— Ela tem um gosto refinado - a diretora comentou. — É uma peça caríssima.

Engoli o choro.

— Sim… Ela sempre gostou de coisas assim.

Ela então empurrou a caixinha branca.

— E isto chegou hoje pela manhã. De seu noivo.

Meu pulso disparou. Abri com os dedos trêmulos.

Dentro, um conjunto de colar e brincos. Pedras claras, lapidadas de forma delicada, presas a um metal. Era absurdamente bonito. E pesado. Prendi a respiração.

— Ele demonstrou bastante apreço ao enviar. Pediu que lhe fosse entregue junto com um envelope.

Fechei a caixa devagar. Não abri o envelope. Algo em mim se contraiu. Aquilo não era um presente. Era uma coleira disfarçada.

— Ele está muito envolvido com esse casamento - ela continuou. — Isso é apropriado.

Assenti com um sorriso curto.

— Você partirá amanhã. Uma semana. Faremos o registro como atividade externa autorizada. – ergueu o rosto — Espero que você aproveite bem essa oportunidade.

— Obrigada, senhora. – ela nem imagina o quanto eu iria aproveitar.

— Camila… - a voz saiu mais baixa. — Há coisas que não escolhemos, mas podemos aprender a desempenhá-las com dignidade.

Senti vontade de rir e gritar.

— Sim, senhora.

— Você sempre se portou bem, apesar de ser contra essa ideia. Acho que a idade está lhe ajudando a ver que seu pai agiu da forma correta.

Isso é o que ela pensa, não eu. É fácil falar quando não está no meu lugar. Sou eu quem vai ser entregue para o abate.

— Eu vou aproveitar sim, diretora – respondi com muito cinismo — Com certeza é a oportunidade que eu esperava.

— Que bom, filha. É assim mesmo – sorriu.

Quando saí da sala, minhas pernas quase cederam. Só quando dobrei o corredor e vi a porta do quarto é que respirei de verdade. Assim que entrei, Guerd se levantou de um salto.

— E então? Como foi?

Ergui o envelope. Depois, a echarpe. Por fim, a caixinha.

— Deu certo. Mas eu estava tremendo por dentro.

Jocelyn levou a mão à boca.

— Meu Deus… Que maravilha! – deu um pulinho.

Guerd se aproximou, sério.

— Ela acreditou mesmo? Está segura?

— Sim. Ela investigou o site, leu os e-mails... Liberou uma semana. – me joguei na cama — Só fiquei com medo que ela ligasse para confirmar.

Ele soltou o ar lentamente.

— Perfeito. Eu também pensei nisso, mas confiei que o e-mail “da sua mãe” iria resolver.

— Ela me deu o dinheiro - acrescentei, a voz falhando. — E os presentes.

Jocelyn veio até mim e me abraçou sem dizer nada. Fiquei ali, parada, segurando tudo.

— Agora começa a parte real - Guerd disse. — Essa semana é a sua janela.

— Eu sei.

— O que são esses presentes?

— Advinha – torci a boca e joguei tudo na cama.

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