Não volta atrás

Parte 8...

Camila

Abri tudo. Jocelyn amou a echarpe que minha mãe enviou e ficou de boca aberta com o conjunto de pedras.

— Gente, isso é caríssimo – passou os dedos por cima das pedras — Que coisa linda.

— Eu sei, mas não quero.

— Como não quer? Você ficou doida? – ela arregalou os olhos.

— Não quero – dei de ombro — É dele.

— E daí?

— Daí que eu não quero nada que venha dele.

— Está sendo burra, Camila.

Eu olhei para Guerd fazendo um bico.

— Como é?

— Está sendo burra – repetiu — Esse presente veio bem na hora certa. Vale muito.

— Eu sei que vale. Todos os anos ele me envia algo e eu mando devolver.

— Não! – Jocelyn bateu na cama — Eu não acredito que você fez isso. Ah, se eu soubesse... Ficaria pra mim.

— Jocelyn, não seja tonta. O que tem nesse envelope?

— Não sei, não li. Algo dele, com certeza.

— Então leia – ele abanou as mãos — Vamos saber o que tem aí.

Torci a boca. Nunca li nenhum dos envelopes que ele enviava junto com os presentes. Só mandava devolver e pronto. Abri e puxei o papel creme de dentro.

— Leia alto pra gente ouvir também – Jo pediu.

“Camila,

Hoje é seu aniversário. Ainda não nos falamos, não por falta de interesse de minha parte, mas sei que precisa de seu tempo. Eu entendo.

Dentro de um ano essa espera termina. Até lá, siga o seu caminho. Este conjunto é apenas um detalhe, um reflexo discreto do lugar que ocupará quando estiver ao meu lado.

Não escrevo esperando resposta. Esses anos me mostraram que você não vai devolver o gesto, tudo bem. Mas quando tocar essas peças, saiba que alguém pensa em você, não como uma promessa vaga, mas como um futuro concreto.

Quando nos encontrarmos, não será só um começo, mas um reconhecimento.

Rafael Bova”

— Gente do céu, o que foi isso? – Jocelyn estava de olhos bem abertos e com um sorriso grande — Que é isso? Que é issooo? Meu Deus!

— O que foi? – encolhi os ombros — Que animação é essa? Ficou doida?

— Eu não, mas acho que você está?

— Não entendi.

— Amiga, esse homem te manda presentes todos os anos e você devolve? – fiz que sim — E nunca leu nada do que ele te enviou? – repeti o gesto — Aí não dá... Vamos combinar que de repente você está perdendo um partidão?

— Que partidão, sua louca – fiz uma careta — Já esqueceu que foi meu pai quem inventou esse casamento? Não tem nada demais aqui – balancei o papel — Isso é só uma formalidade dele.

— Eu não acho. Esse bilhete aí está muito romântico.

— Que nada, você não sabe o que diz – abanei a mão — Eu nunca nem falei com ele, não vai ser agora que vou começar.

— Camila, você tem certeza de que vai mesmo escapar desse casamento? – Guerd inclinou a cabeça.

— É claro que sim. Eu não vou me casar com um estranho, gente.

— Mas sendo honesta, admita que você meio que fez pirraça... Poderia ter conversado com ele esses anos. Talvez acabassem até gostando um do outro.

— Nada a ver Guerd. Eu virei moeda de troca para os negócios de meu pai – fechei a cara — Não me caso.

— Ok, tudo bem – ele ergueu as mãos — Então, acho que você tem outra vantagem aqui.

— Qual? – apertei os olhos.

— Esse conjunto é muito caro. – ele pegou um dos brincos — Você pode conseguir uma grana rápida com eles.

— Sério? E como?

— Vendendo na loja de penhor.

***** *****

Rafael

Entrei no escritório e Pietro estava encostado na mesa, revendo números.

— Bari fechou – foi falando — Dois caminhões. Um contato novo. Sem ruído, aceitou tudo.

— E Nápoles?

— Vai ceder. Ele está sem opção.

— Ótimo.

Joguei a pasta sobre a mesa e puxei a cadeira. Ele me serviu uísque. Não perguntou se eu queria.

— O galpão antigo chamou atenção de novo - continuou. — Melhor tirar tudo de lá.

— Já providenciei isso.

— Ok.

Bebemos em silêncio um instante, até que ele me olhou por cima do copo.

— Sua noiva fez aniversário, não foi?

— Fez – tomei outro gole.

— E mandou presente?

— Mandei. – assenti, olhando para a bebida no copo. — Todo ano eu mando.

— E ela vai devolver.

— Como todo ano. – sorri de canto.

— Você insiste mesmo assim.

— É, insisto.

— Por quê, Rafael?

— Porque faz parte.

Ele deu um meio sorriso.

— Faz parte do quê?

— Do acordo, da adaptação, do tempo.

— Você fala como se estivesse domando um bicho.

— Estou estruturando uma casa. É diferente.

Ele virou o uísque.

— Já pensou que talvez você vai se casar com uma onça?

— Já pensei que vou cumprir um contrato.

— Onça, cobra, bruxa… - deu de ombros. — Garota criada em internato, que devolve presente de noivo… Nunca se falaram... Isso não costuma vir simples.

— Não preciso de simples.

— Então do que você precisa, primo?

— De alguém que honre meu nome. Que entenda onde pisa. Que me dê filhos... O de sempre.

Pietro me encarou.

— E se ela não aceitar você?

— Vai aceitar a posição. É o que importa.

— Não é a mesma coisa, Rafael.

— É suficiente pra mim.

— Será que é mesmo?

— Já foi tudo acertado, Pietro.

— Você não quer nem conhecê-la? Deveria ter ido até o colégio.

— Vou conhecê-la quando ela estiver sob meu teto. E além disso, lá não é permitido visitas. Em raras ocasiões se recebe alguém de fora.

— E se ela te odiar?

— Ódio não impede o dever.

— Você fala como se fosse fácil.

— Falo como quem resolve. Isso é negócio.

Pietro apoiou a mão na mesa.

— Me responde sem “negócio” no meio. Você quer esse casamento?

Pensei um instante.

— Eu vou cumprir.

— De novo isso. Perguntei se quer.

— O acordo existe, então eu quero. Porque é o que sustenta tudo.

— E depois?

— Depois eu organizo as coisas. Acasa, a rotina, os limites. Filhos vêm e o nome continua.

— E se ela for problema?

— Todo problema se trata.

Ele ficou em silêncio alguns segundos. Depois suspirou.

— Você soa como se mulher fosse um território.

— Território se perde. Uma esposa se mantém.

Ele soltou um ar curto.

— Espero que saiba no que está entrando.

— Eu sei exatamente. E já é tarde para desfazer.

Peguei a jaqueta.

— E ela? O que será que vai achar quando o dia finalmente chegar?

— Vai descobrir o que é necessário. – dei de ombro e fui até a porta. — O que importa - completei — É que o acordo seja cumprido.

Saí.

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