Vamos fazer algo

Parte 3...

Camila

— Amiga, eu nunca pensei que fosse por isso que os professores eram tão rígidos com você – Jocelyn estava surpresa com a história que contei — Meu Deus, por que você não disse isso antes pra gente?

— Verdade, Mila, deveria ter contado tudo – Guerd apertou meus dedos — A gente é amigo desde o primeiro dia. Teríamos ajudado você.

— Ajudado como, Guerd? – olhei para ele sorrindo, mas ainda desanimada — Todos os professores sabem de minha situação e ninguém fez nada.

— Mas a gente faria, não é Jocy?

— Sim, verdade. – ela me abraçou — Então é por isso que está desanimada assim?

— É – suspirei fundo.

— Mas o casamento será quando fizer vinte anos. Ainda tem um ano pela frente.

— E daí? Um ano passa rápido – encolhi os ombros — Que diferença me faz, se vou fazer dezenove ou vinte? De toda forma, é sempre um dia a menos para minha sentença.

— Não exagere. Sentença? Parece que está falando de morte. – Guerd riu — É só um casamento.

— Não é só um casamento, seu tapado – Jocelyn deu um tapa na testa dele — O pai dela a forçou a se casar com um homem que ela nem conhece.

— Mas você nunca nem o viu?

— Não... Quer dizer, eu acho que esbarrei com ele quando estava voltando para o quarto, mas não me lembro bem.

— Como não lembra? – Guerd fez uma careta.

— Eu estava nervosa, tinha acabado de ouvir que meu pai estava me dando para um homem estranho – fiz uma careta também — Eu lá ia olhar direito para a cara de um homem que estava parado no corredor?

— Mas não deu nem pra ver se era feio ou bonito?

— E o que isso tem a ver, tapado? – Jocelyn lhe deu outro tapa e ele gritou — Não é questão de beleza. O cara é um mafioso.

— E daí? O pai dela também é – abriu as mãos como se fosse óbvio.

— Bom, isso é verdade, Camila. – Jocelyn fez um bico e torceu a boca — Acho que não dá pra falar. De repente o cara é como seu pai.

— É? Então se for, eu estou ferrada – cruzei os braços — Meu pai é intransigente, mandão e não aceita a opinião dos outros. Se esse tal de Rafael for igual, eu vou ter uma vida péssima.

— Não acho que seja assim. Você pode ter esperança. Quem sabe?

— Agora você que foi uma tapada, Jocelyn. Se o cara for um mafioso no estilo dos filmes, nossa amiga vai morrer em uma semana.

Olhei pra ele franzindo a testa e abrindo a boca.

— Ah, desculpa, Camila... Mas é a verdade. Você não é flor que se cheire também.

— Muito obrigada, eu achava que você fosse meu amigo – soltei o ar de vez pela boca — Ai, o que eu faço?

— Casa com ele – Guerd disse, pulando do banco.

— Guerd! Você faltou na aula de bom senso? – Jocelyn deu uma risada alta — Que conselho é esse?

— Mas é sério. Vocês não estão vendo o lado bom.

— E tem? – falei quase igual a Jocelyn.

— Não sei... – ergueu as mãos — Mas não quer dizer que seja só ruim, né? Você nem conhece o cara.

— Exato! Ficou tonto?

— Pense comigo – ele começou a andar em nossa frente — O cara é conhecido de seus pais, certo? – eu assenti — Bem, um ponto positivo. Ele já não é de todo estranho. Depois, ele é um mafioso e seu pai também é, então quer dizer que ele é rico – virei os olhos — Ele é velho? – eu dei de ombro — Você não o viu de relance?

— Mas eu não me recordo bem, estava nervosa. Mas sei que não é velho, velho mesmo – franzi o nariz.

— Outro ponto positivo, você não tem que viver com uma múmia – eu dei risada — É sério, a maioria desses caras são uns velhos tão velhos que nem sei como ainda ficam de pé.

— Idiota – Jocelyn riu — O que mais? Só isso?

— Não... – começou a contar com os dedos — Veja só comigo: conhecido, rico, mafioso, não é velho... Já são quatro coisas positivas.

— Na sua concepção, né? – comentei.

— Você nunca falou com ele?

— Não, eu não quis.

— Mas ele te procurou?

— Sim, mas todas as vezes eu não atendia a chamada e ele acabou parando de ligar.

— Hum... – Guerd andava de um lado para outro como se fosse um detetive raciocinando — Ok... Sua moral com ele não está boa.

— Oi? Como é?

— Você fugiu do jantar, fugiu das chamadas dele... Ele com certeza sabe que você é uma pessoa difícil.

— Eu não sou difícil, seu tapado – bati as mãos na frente dele — Só não quero me casar, não sou moeda de troca para negócios de máfia.

— Mas o que pretende fazer, amiga? – Jocelyn alisou minha perna — Amanhã é seu aniversário de dezenove anos. Daqui a mais um ano, você sai do colégio.

— Eu sei, por isso me sinto assim, sem vontade de nada – esfreguei a testa — Cada dia que passa, sei que fico mais perto de me tornar uma esposa por contrato.

— Deve ter algo que a gente possa fazer – Guerd coçou a cabeça.

— O que? De jeito algum que o pai dela vai aceitar que volte e se voltar, vai ser forçada a se casar.

— Eu não me caso – repeti — Prefiro sumir no mundo do que me casar. – Guerd parou e se virou, com um olhar diferente — O que foi?

— Tem certeza do que disse?

— O que? Não vou me casar?

— Não... Prefere sumir no mundo? É sério?

— É! – abri os braços — Qualquer coisa é melhor do que ser esposa de um homem que eu não quero.

— Amiga, desculpa... Isso não está sendo um pouco de teimosia de sua parte? – Jocelyn mordeu o lábio — É que você nem deu uma chance ao cara. Vai que de repente ele pode ser legal? Hum?

— Ai, que bobagem, Jo... Claro que não. Que homem aceita isso? Um casamento por contrato, por interesse?

— Por isso, não. Ainda tem muitas culturas hoje em dia, que casam os filhos assim.

— Isso é verdade – Guerd concordou com ela — A Índia, alguns lugares da África...

— Ai.. – fechei os olhos um instante — Não me interessa. Eu não sou indiana e nem africana... Não me caso por contrato. Isso é ridículo!

Os dois se olharam e quase ao mesmo tempo, encolheram os ombros.

— Minha vida está arruinada – abaixei a cabeça.

— Não pense assim, a gente vai dar um jeito.

— Voltando ao assunto... Você pode sumir no mundo – ergui a cabeça rápido — É sério... A gente só tem que fazer isso direito, dá trabalho, mas se tiver grana no meio...

— O que você está aprontando, maluco? – Jocelyn fez um bico — Onde ela vai arrumar grana, se quem tem o dinheiro é o pai dela.

— Bom... Eu tenho dinheiro... E não tenho.

— Hã? – ela franziu os olhos — Explica.

— Depois de uns dias, minha mãe conseguiu manter contato comigo... Meu pai deixou porque ela ficou muito triste com minha partida.

— Sei, e daí?

— Daí que eu tenho uma poupança, ela abriu pra mim quando eu era pequena e até hoje continua entrando depósitos – eles não entendiam — Eu posso pedir a ela que me dê.

— Ah, mas ela não vai te dar – Guerd balançou a cabeça — Ela não vai fazer algo que depois o seu pai brigue com ela.

— Também acho.

— Isso depende – levantei do banco, um pouco mais animada — Eu vou fazer dezenove anos... Posso pedir a ela que me dê uma parte do dinheiro.

— E o que vai dizer pra ela?

— Não sei... – torci a boca de um lado para outro e mordi o lábio — Mas depois desses anos todos, com certeza tem um valor bom guardado.

— Então nós vamos pegar – Guerd disse rindo com um olhar misterioso.

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