Mundo de ficçãoIniciar sessãoParte 4...
Camila
— E como vamos fazer isso?
Ele só ficou me encarando com aquele meio sorriso torto, como se estivesse vendo um filme inteiro passar na cabeça dele enquanto nós ainda estávamos presos na primeira cena.
— Então nós vamos pegar - ele repetiu, cruzando os braços.
— Você tá falando como se fosse assaltar um banco - retruquei.
— Não. Pior. A gente vai mexer com os sentimentos.
Jocelyn soltou um riso curto.
— Isso nunca termina bem.
Guerd ignorou.
— Seu pai controla o dinheiro. Sua mãe controla a culpa. É aí que a gente vai mexer.
Eu ainda não peguei a ideia dele, mas fiquei curiosa. Ele se aproximou um pouco, baixando a voz como se alguém pudesse nos ouvir.
— Ele não deixou ela se despedir. Não deixa ela te visitar... Não deixa ela te ajudar. Você acha mesmo que essa mulher dorme em paz?
Minha garganta apertou, porque a resposta veio antes de eu conseguir organizar o pensamento.
— Não. Eu acho que não.
— Então, a gente não pede dinheiro - ele continuou — A gente cria um motivo pra ela precisar te dar.
— Guerd… - alertei.
— Calma. Não é nada ilegal. Só… Estratégico.
Ele se sentou no encosto do banco e começou a enumerar nos dedos.
— Um: você vai dizer que o internato te deu a chance de entrar num programa fora da Suíça. Algo limitado. Que seja curto e discreto.
— Discreto não é exatamente a palavra que define a minha vida - murmurei.
— Dois: você vai dizer que é um curso que melhora seu “perfil”. Línguas, etiqueta internacional, gestão social… Esse tipo de coisa que seu pai adora fingir que se importa.
Jocelyn arregalou um pouco os olhos.
— Você tá montando um currículo de esposa.
— Exato. - ele estalou os dedos. — A armadilha perfeita pra sua mãe.
Meu estômago deu uma volta lenta.
— Continua.
— Três: você não pede dinheiro pra fugir. Você pede dinheiro pra se tornar exatamente o que ele quer que você seja. – fez um gesto exagerado com a mão ao ar.
Fiquei em silêncio. Ele se inclinou um pouco para frente.
— Porque, se você disser que é pra estudar, ela pode até hesitar. Mas se você disser que é pra agradar seu pai, pra não decepcionar, pra ser “digna” desse casamento… - ele deu de ombros. — Aí não vira desobediência. Vira sobrevivência.
Eu soltei um riso sem humor.
— Isso é quase doentio.
— Isso é família rica - ele corrigiu.
Jocelyn balançou a cabeça devagar.
— E onde entra a parte suspeita?
— Na execução - Guerd respondeu. — A gente vai criar algo que pareça real o suficiente pra ela não só acreditar, mas querer bancar.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Tipo o quê?
— Tipo uma pré-matrícula. Um contato. Um cronograma, com uma taxa inicial. Algo que tenha prazo, pressão e nome bonito.
— Você vai inventar uma escola?
— Não. - ele sorriu. — Eu vou encontrar uma que exista.
Fiquei olhando pra ele.
— Você consegue fazer isso?
— Camila, eu cresci falsificando autorização de excursão pra sair da cidade. Isso aqui é só uma versão adulta do mesmo esporte.
Jocelyn suspirou.
— Ele vai acabar fazendo, você sabe. É o aluno mais maluco de todo o colégio.
— Obrigado! – ele abaixou a cabeça.
Eu sabia que seria algo bem doido mesmo. Passei a mão no rosto, sentindo uma mistura estranha de medo e esperança.
— E quando ela aceitar?
O sorriso dele diminuiu, ficou mais sério.
— Aí você não pede tudo. Você pede uma parte. O suficiente pra garantir sua “entrada”.
— E depois?
— Depois você agradece. Chora um pouco... Faz aquele drama todo... Diz que ela é a única pessoa do mundo que ainda olha pra você.
Aquilo doeu mais do que eu esperava. Mas acho que era minha saída.
— E ela transfere. – apertei os lábios — Mas como eu vou retirar o dinheiro?
— Hum... Acho que o jeito é que a diretoria te repasse – Jocelyn entrou no plano — Não tem como você tirar um valor alto assim, de repente?
— Exato. E no segundo que esse dinheiro sair da conta dela… - ele fez um gesto vago com a mão — Você deixa de ser a filha obediente que está se preparando pra casar.
O ar pareceu mais frio de repente.
— Você vira alguém com escolha.
Ninguém falou por alguns segundos. Eu encarei minhas próprias mãos, tentando imaginar o peso real daquela palavra.
Escolha.
— Isso é insano - murmurei.
— Um pouco - ele concordou. — Mas é por isso que é bom.
— É arriscado.
— Muito.
— Pode dar uma merda geral, você sabe, né? – Jocelyn me olhou de lado.
— E se ela contar pro meu pai?
— Por isso tem que ser algo que ele aprovaria. Algo que o faça se sentir no controle, mesmo sem estar. Sua mãe não pode nem pensar em contar pra ele.
Levantei devagar.
— Você tá me pedindo pra mentir pra única pessoa que ainda se importa comigo.
Ele também se levantou.
— Não. Eu tô te oferecendo uma forma de sobreviver sem desaparecer.
— Isso é mesmo, Mila. E você disse que queria sumir – Jocelyn ergueu as mãos abertas — É uma opção. A outra... Você já sabe.
Olhei para ele. Depois para Jocelyn. Depois para o nada.
— Qual é exatamente o seu plano, Guerd?
O sorriso voltou. Pequeno. Calculado.
— Primeiro, a gente vai transformar você na candidata perfeita.
Meu estômago apertou.
— E depois, a gente vai usar isso pra te tirar do tabuleiro.
— Será que isso é possível? – mordi o polegar.
— Minha querida, é só você colocar seu talento de atriz pra fora – estalou os dedos — E tudo pode dar certo.
— Que outra alternativa você tem? – Jocelyn rodou a língua pela boca — Eu, se fosse você... Entrava nessa de cabeça, corpo e alma – ergueu o dedo — E ninguém pode te julgar. É a sua vida.
Fiquei olhando para a grama verde sintética, feita apenas para decorar o espaço. Se eu me casasse forçada por um contrato, eu seria como essa grama.
Meramente decorativa.
— Eu topo!
— Isso! – Jo bateu palmas — Temos que organizar direito, senão vai dar uma merda pesada pra cima de você... E da gente também. Deus me livre de mandarem chamar meus pais aqui – ela negou com o dedo em riste — Minha mãe come meu fígado cru.
Guerd gargalhou.
— E eu? Meu pai manda cortar minha cabeça fora. Por que vocês acham que eu estou em um colégio interno? Já aprontei tantas que meu pai disse que iria me deserdar. A única saída foi aceitar vir pra cá.
— Nossa, e eu achando que era a única ferrada do grupo – dei risada.
— É nada... Família rica é assim – Jocelyn abanou a mão — Todos os podres são varridos para debaixo do tapete.
— É, no caso os podres somos nós e o castigo é o internato – ele abriu os braços — E aí? Vamos?
— Vamos!
Apertei a mão dele como se estivesse fazendo um contrato próprio. Um que iria me dar liberdade de fazer o que quero e não o que me mandam.







