Mundo ficciónIniciar sesiónPara não enlouquecer com a dor de ser invisível no próprio casamento, Lana compreendeu que precisava de um novo centro de gravidade. Precisava preencher o vazio que crescia dentro de si antes que ele a consumisse por inteiro.
Foi então que o voluntariado no orfanato deixou de ser apenas uma ocupação para se tornar sua salvação. Naquele lugar simples, cercado de paredes coloridas e sons de risadas, com crianças correndo, pulando e brincando, ela reencontrou tudo o que o escritório de Rael havia roubado dela: sorrisos sinceros, abraços apertados que não exigiam nada em troca e um carinho verdadeiro que florescia sem esforço. Sentia-se em paz; uma leveza nascia em sua vida, trazendo um novo significado. As crianças possuíam uma sabedoria instintiva. Não perguntavam por que os olhos de Lana às vezes pareciam carregar uma névoa de tristeza. Apenas a acolhiam, puxando-a pela mão para uma brincadeira ou pedindo um colo que ela estava mais do que disposta a dar. Gradualmente, Lana passou a estender suas horas ali, dedicando-se com uma intensidade que a fazia perder a noção do tempo. Era o único lugar no mundo onde ela se sentia, finalmente, necessária. Chegava cedo para se juntar à tia que organizava o café das crianças, depois ajudava no banho, às vezes na cozinha, oferecendo ajuda para descascar uma batata, lavar um arroz, e colocava-as para dormir na hora da soneca da tarde. Contudo, existia um preço silencioso nessa entrega. Sem perceber, quanto mais Lana se doava àquelas crianças, mais se desvanecia da vida de Rael. O descompasso entre eles, que antes era uma rachadura, tornou-se um abismo. Ele a via cada vez menos, mas o que era mais assustador não era a distância física — era o fato de que, quando seus caminhos se cruzavam no corredor escuro da casa, ele parecia olhar para uma estranha. Lana foi se deixando distanciar. Já não se preocupava em chegar em casa e acender as luzes; muitas vezes deixava a sala no escuro ao chegar do orfanato. Passava pela porta da sala, subia as escadas e se recolhia em seu quarto. Ela estava florescendo em um jardim que não pertencia a ele, e Rael, mergulhado em seus números, sequer percebia que sua esposa estava encontrando um novo motivo para sorrir longe de seus braços. Ele já não se preocupava com o horário em que ela chegava, nem se perguntava onde ela estava. Nem se quer notava que ela tinha saído. Andava tão ocupado que não imaginava o que ela fazia durante as tardes e noites. A vida no orfanato era como se ela tivesse encontrado outro mundo dentro do mesmo plano. Lá, não havia preocupações, nem Rael, nem casamento. Era ela e as crianças. Ela gostava de sentar na salinha e, ao redor delas, contar histórias, fazer leituras. Aqueles olhinhos acompanhando sua voz aqueciam seu coração. Ela sempre atenta a cada nome das crianças, todas elas diziam parecer com os desenhos animados que eles mais gostavam. As meninas eram as princesas e os meninos os herói famosos. Lana ria da comparação, e eles perguntavam a ela quais princesa Lana seria e se tinha um príncipe, ela imaginava seu príncipe Rael, mas ele estava mais para um ogro em seu castelo sombrio. Afastava o pensamento e voltava a conversar com eles durante as histórias. Na hora do banho sentava com as meninas para desembaraçar os cabelos e se arriscava em tentar fazer uns penteados, muitas vezes ficava torto, ela ria, pois nunca teve experiência, mas era um começo bom. Coloca os bebês para dormir e aquilo era um verdadeiro encanto, balançar o bebê e cantar para ele dormir. As horas passavam e Lana não queria voltar para casa; desejava permanecer ali com as crianças, mas a ideia do retorno a corroía por dentro. Já não fazia parte daquele lar, nem daquele casamento. Estava presa a um lugar que não lhe pertencia mais, sentindo a necessidade urgente de se afastar do vazio que encontrava ao lado de Rael.






