Mundo de ficçãoIniciar sessãoLana estava em pleno processo de cura. Através do olhar puro das crianças, ela aprendeu que a vida reside na simplicidade e que a verdadeira restauração começa quando aprendemos a olhar para nós mesmos com cuidado antes de nos doarmos ao próximo. Naquela troca diária, ela percebeu que aprendia muito mais com os pequenos do que era capaz de ensinar; eles a ensinavam a estar presente, a rir do inesperado e a valorizar o agora.
Kelly, observando a entrega e o brilho que retornara aos olhos de Lana, aproximou-se com uma pergunta que fez o coração dela oscilar: perguntou se ela e o marido não tinham o desejo de adotar uma daquelas crianças. Lana sentiu o impacto da proposta. Por um instante, o sonho de dez anos atrás lampejou em sua mente, mas a realidade logo se impôs. — Eu... eu vou conversar com ele — prometeu Lana, com um sorriso contido. Por dentro, porém, ela sabia que uma conversa era a última coisa que conseguiria arrancar de Rael. Ela não queria transparecer para Kelly, nem para ninguém, que seu casamento era uma fachada, uma união que só existia no papel e no sobrenome que carregava. Lana sentia-se em um luto constante, uma "viúva de marido vivo", habitando uma casa onde o companheiro estava presente em corpo, mas ausente em alma. Ao sair do orfanato naquele dia, o peso daquela frase a acompanhou. Ela amava aquelas crianças e a ideia da adoção parecia o destino batendo à sua porta, mas como trazer uma vida para dentro de uma casa que já estava morta? Lana voltou para casa com as palavras de Kelly ecoando como um martelo em sua mente. Adotar. O que antes seria o auge de sua felicidade, agora soava como uma sentença de realidade. Como ela poderia explicar para aquela mulher tão cheia de luz que seu marido não era um parceiro, mas um estranho que habitava o escritório ao fim do corredor? Ao entrar na sala, o cenário era o mesmo de sempre: o silêncio cortante e a luz do escritório vazando por debaixo da porta. Lana não acendeu as luzes da sala. Permaneceu ali, no escuro, encarando o próprio reflexo borrado na janela. Ela percebeu que havia se tornado mestre em interpretar o papel de "esposa de um grande empresário" para o mundo lá fora, enquanto por dentro vivia o luto de um casamento que morreu sem enterrar o corpo. Criando uma coragem que nem sabia que possuía, ela caminhou até a porta do escritório e bateu. Não esperou o "entre", apenas abriu. Rael nem sequer levantou os olhos da tela do computador. O brilho azulado do monitor destacava as olheiras e o semblante endurecido pelos números. — Rael, precisamos conversar — disse ela, a voz firme, embora o coração estivesse disparado. — Agora não dá, Lana. Estou fechando o balanço do trimestre da Mérida Residence. O prazo é curto e o prejuízo que o meu tio deixou ainda nos assombra. Lana respirou fundo, tentando encontrar o tom certo para falar sobre o orfanato e sobre o vazio que os separava. Mas, antes que a primeira frase sobre "eles" pudesse ganhar forma, Rael ergueu a mão, interrompendo-a no meio do caminho. Ele sequer desviou os olhos da planilha que brilhava na tela do computador. — Lana, por favor — disse ele, com uma voz calma, porém gélida. — Agora não é o momento. Eu realmente preciso terminar isso aqui antes da reunião de amanhã. — Mas Rael, é importante... é sobre a minha vida, sobre o que eu ando fazendo... Dessa vez, ele finalmente olhou para ela, mas não havia conexão naquele olhar. Havia apenas um cansaço impaciente. Com toda a educação do mundo, aquela polidez que ele usava com clientes e investidores, ele disparou: — Eu entendo que seja importante para você, mas a Mérida Residence não pode esperar. Por favor, saia e feche a porta. Preciso de silêncio para me concentrar. O "por favor" soou como uma bofetada. Se ele tivesse gritado, haveria paixão; se ele tivesse chorado, haveria dor. Mas a educação formal era o sinal definitivo de que ela havia sido rebaixada ao status de uma estranha que batia na porta errada. Lana não insistiu. Ela apenas deu um passo para trás e, cumprindo o pedido dele, fechou a porta. Ao som do clique da fechadura, ela sentiu que algo dentro de si também se trancava. Rael queria silêncio, e era exatamente o que ele teria. Dali em diante, Lana decidiu que não ofereceria mais suas palavras, seus sonhos ou suas dores a um homem que preferia o eco dos números ao som da voz de sua esposa. Ela caminhou pelo corredor escuro, passou pelo painel de fotos que agora parecia uma galeria de fantasmas, e sentiu uma certeza estranha: o divórcio emocional já havia acontecido. Só faltava o mundo lá fora perceber.






