Mundo ficciónIniciar sesiónLana ainda tentava manter as esperanças vivas. No começo, o esperava com a mesa posta. Ela fazia questão de cozinhar para ele, a comida preferida, as receitas mais inovadoras, a sobremesa que ele gostava. Mas nem na cozinha Rael passava, no começo ele ainda elogiava o cheiro, mas passou a ir direto da sala para o corredor e no meio gritava:
— Estava em uma reunião e já tinha jantado por lá. Ele não tinha coragem nem ao menos de abrir o celular e avisar que não jantaria em casa. Logo ele, que passava o tempo todo com o aparelho no ouvido, não encontrava espaço para mandar uma simples mensagem para ela. Então, nem mesmo na agenda dele ela estava. Lana engolia em seco a total indiferença de Rael para com ela. A comida ficava para o outro dia, com esperança dele chegar mais cedo, porém se repetia a mesma cena. Ou a comida ia para o lixo, intocável como ela. A janta estava pronta, ela estava sentada à mesa acreditando que Rael chegaria e se sentaria ao seu lado. Mas ele nem a olhava passava direto para o escritório. Depois, o jantar passou a ficar esfriando sobre a mesa. Lana deixava a mesa posta caso de madrugada ele sentisse fome, ela pensava nele, tinha esse cuidado, entretanto pela manhã a mesa estava só mesmo jeito. Mais tarde, passou a ficar no fogão, dentro das panelas. Com o tempo, Rael começou a jantar sozinho no escritório, cercado por papéis, números e silêncio. Ele trazia a marmita pronta de um restaurante onde costumava fazer reunião, passava e pedia a janta para ele. Lana observava aquelas marmitas vazias e as lágrimas escorriam. Ele preferia uma comida mais rápida do que pedir a ela para levar até o prato pronto que ela preparava com tanto carinho. A atmosfera em casa era o oposto do que Lana vivenciara no orfanato. Ao cruzar o portão, ela era recebida por janelas fechadas e um escuro que parecia engolir qualquer resquício de alegria. Às vezes, ela tropeçava no sofá, por causa da escuridão, e Rael estava trancado no escritório improvisado, falando ao telefone ou em vídeo com algum cliente ou funcionário. Muitas vezes, Rael já estava lá, mas mergulhado de tal forma em sua apatia ou exaustão que nem ao menos se dava ao trabalho de acender as luzes. A casa parecia, de longe, que ninguém morava ali ou estavam em viagem. O silêncio, o vazio e a escuridão tomavam conta daquele lugar. Lana entrava e, com um toque firme, iluminava os cômodos, mas o brilho das lâmpadas apenas revelava a frieza do ambiente. Ela já não ia para a cozinha preparar jantares elaborados na esperança de atrair o marido. O silêncio da casa só era quebrado pela voz dele, vinda do fundo do escritório, sem sequer abrir a porta: — Pedi comida para mim. Não havia um "pedi para nós", nem um "quer que eu peça algo para você?". Ele simplesmente assumia que ela já teria se resolvido ou, pior, nem sequer lembrava que ela também precisava se alimentar. Lana sentia o peso daquelas palavras como uma confirmação final. Eles não eram mais um casal; não eram companheiros e, naquele ponto, sentia que já nem podiam ser chamados de amigos. Eram dois desconhecidos dividindo o mesmo teto, um pagando as contas e a outra ocupando o espaço, separados por uma porta de escritório e dez anos de promessas descumpridas. A invisibilidade dela era tão completa que, mesmo com o novo corte de cabelo e o brilho de quem finalmente encontrara um propósito, ele continuava trancado em seu mundo de números, incapaz de notar que a mulher ao seu lado estava, enfim, começando a se despedir. Lana ainda tinha esperança, por mais que ela estivesse ferida, o esperasse as noites, e durante o dia aquele vazio reinava em seu quarto, no seu peito. Ela ainda o amava, mas deixou de ser esposa de Rael fazia muito tempo. E assim, sem gritos e sem brigas, sem discussões ou despedidas a solidão foi se tornando a companhia mais presente na vida dos dois. E a mesa que antes reunia os dois para comemorar os meses de casamento, os aniversários, agora estava com os utensílios guardados e nem ocasião especial seriam utilizados.






