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Capítulo 4 - Sonho interrompido.

Em dez anos de casamento, Lana e Rael ainda não haviam sido abençoados com filhos. Para ela, essa não era apenas uma ausência; era uma dor carregada em silêncio, um peso que ela sentia não poder dividir com ninguém, nem mesmo com o homem que deveria ser seu parceiro.

Enquanto caminhava pelos corredores do mercado, Lana perdia-se em pensamentos amargos. Observava as prateleiras e imaginava como tudo seria diferente se Rael não tivesse permitido que a empresa devorasse o casamento. Provavelmente, estariam escolhendo cereais infantis ou lanches para a escola; ela ainda teria sua carreira, sua identidade, e a casa estaria viva com o som de passos pequenos.

Em um devaneio súbito, a imagem do passado a atingiu: viu a si mesma e Rael, anos atrás, andando de mãos dadas por aquelas mesmas prateleiras, fazendo planos e rindo de bobagens. Naquela época, o futuro era uma promessa brilhante.

Ela acreditava que, se Rael ao menos a olhasse, se estivesse verdadeiramente presente, eles teriam tido a chance de construir essa família. Talvez o sonho de ser mãe não tivesse sido interrompido pelo cansaço e pela negligência. Mas a realidade era implacável: Rael mal parava em casa e, quando o fazia, as paredes do escritório serviam como um escudo contra ela.

A residência era ampla, mas nunca parecera tão vazia. Lana olhando aquela casa que antes tinha sorrisos e trocas de carícias agora era jogada ao sombrio de um amor do passado, ela percebeu que o amor, por mais forte que fosse, também precisava de ar para sobreviver. De duas pessoas, já que estava em um casamento, e a base para se estrutura uma relação e ambas as partes estarem ligadas. E o seu coração, exausto de bater sozinho naquele vácuo, começava, enfim, a se cansar de esperar por alguém que já não sabia como voltar.

Saindo do mercado com apenas algumas frutas e legumes — afinal, as refeições em casa haviam se tornado tão escassas e solitárias que não faziam sentido grandes compras —, Lana avistou uma mulher. Ela parecia ter quase a mesma idade de sua sogra, dona Mérida, e tentava, de forma atrapalhada, equilibrar diversas sacolas enquanto se dirigia ao carro.

Sentindo um impulso de gentileza que há muito não exercitava, Lana aproximou-se.

— Deixe-me ajudá-la — ofereceu, pegando as bolsas mais pesadas enquanto a mulher abria o porta-malas.

— Oh, muito obrigada! Acabei vindo sem minha amiga e me atrapalhei toda. A propósito, sou Kelly Cristina, mas pode me chamar apenas de Kelly. Cuido de um orfanato e, nestes dias, as tarefas parecem não ter fim.

Ao ouvir a palavra "orfanato", Lana sentiu uma luz súbita atravessar sua névoa particular. Parecia um sinal, um encontro enviado para tirá-la daqueles dias cinzentos e dar um novo propósito ao seu tempo vazio. Sem hesitar, ela ofereceu-se para ajudar.

— Eu adoraria ser voluntária, caso precisem de alguém.

Kelly sorriu, mas manteve o profissionalismo:

— Claro que estamos precisando! Mas, antes, preciso fazer uma entrevista com você. Faz parte do protocolo. Sei que é uma doação, um trabalho por amor, mas quando lidamos com crianças, precisamos conhecer os antecedentes; tudo é planejado com muito rigor.

Lana concordou prontamente. Kelly estava certa, e aquele rigor dava ainda mais sentido à missão. O que faltava na vida de Lana era justamente o amor em sua forma mais pura e ativa. Se o amor dentro de casa havia se tornado um deserto, ela o encontraria naquelas crianças que, assim como ela, também buscavam por uma presença e um olhar.

A intenção de compartilhar a novidade morreu antes mesmo de a primeira palavra ser dita. Lana desbloqueou o celular por puro hábito, mas a tela era um espelho da sua realidade: as mensagens enviadas mais cedo permaneciam ali, sem resposta. Como sempre.

Ela suspirou, guardando o aparelho na bolsa. Já conhecia o roteiro daquela noite: Rael chegaria tarde, vindo de uma empresa que o devorava por inteiro, e se trancaria no escritório até que o cansaço o vencesse. Ou, se fosse para o quarto, deitaria em silêncio enquanto ela fingia dormir. Lana nem sentiria sua presença física; apenas o peso do vazio no colchão. Pela manhã, antes mesmo de o sol aquecer o quarto, a cama estaria novamente vazia, com o lençol esticado e o travesseiro frio, como se ninguém tivesse passado por ali.

Pela primeira vez em dez anos, aquela rotina de abandono não a fez chorar. O silêncio dele, que antes era uma facada, agora servia como um passaporte. Se ele não a via, se ele não respondia, ele também não saberia que, às duas da tarde do dia seguinte, ela estaria cruzando os portões de um orfanato em busca da vida que ele se recusou a construir com ela.

Lana jantou sozinha, em silêncio, olhando para o painel de fotos na parede. As imagens do passado pareciam agora personagens de um livro que ela já tinha terminado de ler. Ela lavou a louça, apagou as luzes e deitou-se, sentindo pela primeira vez que o amanhã não seria apenas mais um dia de sobrevivência.

No dia seguinte, ao abrir os olhos, o lado vizinho da cama já estava frio. Rael já havia partido, mas, pela primeira vez em anos, Lana não se abateu. Ela decidiu que não daria mais aquele poder à ausência dele. Levantou-se com uma disposição nova, cuidou da casa com leveza e até regou as poucas plantas que insistiam em sobreviver; sob seus cuidados, elas pareciam ganhar um novo fôlego.

Ao se preparar para a entrevista, escolheu uma calça social preta e uma blusa branca de mangas longas, um visual sóbrio e confiante. Diante do espelho, seus olhos pousaram nos próprios cabelos. Longos, fartos... o "véu perfeito", como Rael costumava dizer ao declarar que ela era linda. Mas aquele cabelo pertencia à Lana que esperava, à Lana que renunciava. Aquela imagem já não fazia mais sentido.

Com a respiração presa e o coração batendo forte, ela pegou a tesoura. O som das lâminas encontrando os fios foi o som da sua liberdade. Mecha por mecha, ela se desfez do passado. Se olhava no espelho e agora era uma nova mulher diante do reflexo e, para esse novo começo, o corte curto simbolizava que ela não precisava mais se esconder ou ser protegida por ninguém. Ela agora se via, não era só o cabelo, mais mudança. E ela precisava começar por dentro e por fora.

Na entrevista, Kelly foi direta e perguntou sobre filhos. Lana não hesitou na sinceridade:

— Sou casada há dez anos, mas meu marido está tão mergulhado no trabalho que não pretende ter filhos tão cedo. Mas eu... eu sempre tive o sonho de ser mãe.

Kelly sentiu a verdade naquelas palavras. Explicou que o trabalho era voluntário, sem salário, mas repleto de responsabilidades. Lana aceitou prontamente. Não era dinheiro que ela buscava; era vida.

O trabalho começou naquele mesmo instante. Ao lado de Valquíria, a auxiliar, Lana mergulhou no mundo da alfabetização. No momento da leitura, ela se desdobrava, ajudando em cada detalhe, sem limites para sua dedicação. Ao final do dia, o cansaço físico era ínfimo perto da plenitude que sentia.

Ao retornar para casa, o silêncio do corredor já não a assustava. Lana sorria sem motivo aparente para as paredes, mas, no fundo, ela sabia exatamente o porquê: agora, ela tinha um mundo onde não era invisível.

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