Gabi
A madrugada na lanchonete é uma prova que eu nunca pensei em passar. O cheiro de gordura velha, o zumbido baixo do freezer, e o silêncio. Um silêncio que deixa a cabeça falar alto demais. Tô limpando a chapa pela terceira vez, esfregando com uma força que não é só pra tirar a sujeira. É pra tentar apagar a imagem que não sai da minha cabeça: o Cayo, segurando o Zyon, aquele olhar de posse absoluta, com a patricinha lá atrás, no cantinho dela, como se fizesse parte daquela cena.
Ela nunca vai fazer parte.
Minha mão treme e eu quase derrubo o frasco de desengordurante. A raiva sobe, quente e amarga.
Não é justo. Nada disso é justo.
Eu não perdi o Cayo pra ela. Não é possível perder o que nunca foi seu de verdade, né? Mas a gente teve uma vida. Bagunçada, cheia de gritaria e portas batendo, mas tivemos. E tivemos o Zyon. O Zyon, que foi a única coisa boa e certa que a gente fez juntos. Aí ela aparece. Com aquele cabelo loiro perfeito, aquelas mãos perfeitas de quem nunca lavou uma