7

Sebastian desperta antes do alarme, como quase todos os dias.

O quarto ainda está escuro. Ele permanece alguns segundos deitado, já organizando mentalmente a agenda da manhã: reuniões, contratos, prazos que não esperam.

Assim que se levanta, o chão frio sob os pés descalços o puxa de vez para a realidade. No banheiro, liga o chuveiro e deixa a água cair forte sobre os ombros largos. Enquanto se lava, a mente já está longe dali, percorrendo gráficos, relatórios e decisões que só ele tinha autoridade para tomar.

O conglomerado Hale dominava setores inteiros: construção civil, imóveis de alto padrão, logística portuária, fundos de investimento e participações silenciosas em empresas de tecnologia e energia. Nada era espalhafatoso. Nada ilegal à primeira vista. Era influência sólida, antiga, construída com precisão cirúrgica ao longo de gerações.

Sebastian herdara tudo isso cedo demais. Aprendera que poder não se exibe — se administra. Cada contrato assinado, cada empresa adquirida, cada concorrente engolido fazia parte de uma engrenagem que nunca parava de girar. E ele era o centro dela.

Ele se veste com movimentos automáticos, escolhendo o terno escuro, a camisa perfeitamente passada, o relógio caro que marcava não apenas horas, mas controle.

Tudo indicava que aquela manhã seguiria o padrão impecável de sempre.

Mas algo estava diferente.

Sebastian para, a mão ainda no botão do paletó. A noite anterior, havia sido silenciosa demais. Como não acontecia há anos. Nenhuma movimentação no corredor. Nenhum chamado. Nenhuma interrupção do sono.

O maxilar de Sebastian se contrai. Ele pega o celular, confere a hora e decide que não pode sair sem verificar. Sai do quarto e segue pelo corredor, até a porta de Oliver.

Ele empurra a porta devagar e a cena o faz parar no mesmo instante.

Luna está sentada na cama, o corpo levemente torto, a cabeça inclinada de forma desconfortável, claramente vencida pelo cansaço. Os braços envolvem Oliver com cuidado absoluto.

O menino dorme aninhado contra o peito dela, o rosto relaxado de um jeito que Sebastian nunca tinha visto. Oliver dorme profundamente. Em paz.

Sebastian já perdeu as contas de quantas babás contratou para cuidar do seu filho nos últimos anos. Nenhuma passou de uma semana. Nenhuma aninhou Oliver como se fosse seu próprio filho, para fazê-lo dormir.

Há algo errado naquela imagem. Errado porque é simples demais. Errado porque funciona.

Ele dá um passo para trás, decidido a sair sem ser percebido, mas o movimento não é tão silencioso como planejou. O pé desliza levemente no tapete. O tropeço é mínimo, quase imperceptível, mas o som seco ecoa no quarto silencioso.

Luna desperta no mesmo instante.

O corpo dela se enrijece antes mesmo dos olhos abrirem. Ela levanta a cabeça rápido demais, o pescoço reclamando do ângulo, o reflexo de quem passou a noite em alerta.

Seus olhos se abrem por completo e focam na porta. E encontram Sebastian.

Por um segundo, nenhum dos dois se move.

Luna aperta Oliver instintivamente contra o peito, como se precisasse garantir que ele continuaria ali, dormindo. O menino apenas se mexe um pouco, mas não acorda.

— Senhor Hale… — ela murmura.

Sebastian endireita a postura quase por reflexo. O rosto volta à expressão controlada de sempre, mas algo no olhar permanece exposto por um segundo a mais do que deveria.

— O que aconteceu ontem à noite?

Luna inspira fundo antes de responder. Com cuidado extremo, ela se inclina e deposita Oliver de volta na cama, ajustando o travesseiro sob a cabeça dele e puxando o cobertor até o peito do menino.

Enquanto ela se levanta, Sebastian observa — contra a própria vontade. O pijama claro parece grande demais para o corpo dela. 

Ela é jovem. Mais jovem do que qualquer uma das babás que já passaram por ali.

E, ele percebe com uma irritação que não sabe nomear, também a mais bonita.

Sebastian desvia o olhar primeiro.

Luna cruza as mãos à frente do corpo, um pouco sem jeito, como se só agora se desse conta da própria aparência.

— Ele teve um pesadelo. — ela diz, se aproximando de Sebastian. — Acordou gritando. Quando tentei acalmá-lo, ele pulou para o meu colo e dormiu de novo. Fiquei com receio de que ele acordasse de novo e deixei que dormisse... em cima de mim.

Ela olha rapidamente para Oliver antes de voltar a encarar Sebastian.

— Nunca vi Oliver dormindo tão bem. — diz, mais para si mesmo do que para ela.

— Isso acontece com frequência? — Luna pergunta de repente e Sebastian volta a encará-la. — Os pesadelos.

Sebastian não responde.

Ele apenas se vira e faz um gesto curto com a cabeça, indicando a porta. Luna entende e o acompanha para fora do quarto, fechando a porta com cuidado atrás de si.

No corredor, Sebastian para.

— Você quer o emprego? — pergunta, direto.

Luna não hesita.

— Quero.

Ele a observa por um segundo a mais do que o necessário.

— Então se vista. — diz, frio. — Meu motorista vai levá-la até sua casa para buscar suas coisas.

Sebastian olha rapidamente para a porta do quarto do filho.

— Quero você de volta antes que Oliver acorde para o café da manhã.

Sem dizer mais uma palavra, Sebastian se vira e desce as escadas, deixando Luna entorpecida no corredor.

Aos pés da escada, Margaret está segurando uma bandeja com uma xicara de café fumegante. 

— Bom dia, senhor Hale.

— Onde está Martin? — pergunta, já levando o café aos lábios.

— À sua espera, como todos os dias, senhor.

Ele dá um gole curto, pensativo.

— Avise ao Martin que hoje irei para a empresa sozinho. — diz, com a naturalidade de quem altera destinos. — Ele deve levar a babá até a casa dela e ajudá-la com a mudança.

Margaret pisca, surpresa.

— A mudança, senhor?

Sebastian faz que sim com a cabeça, o olhar distante.

Há muito tempo nenhuma babá passava da primeira noite.

— Então… a senhorita Luna ficará? — pergunta, cautelosa.

Sebastian pausa por um instante, ainda descrente do que tinha visto horas antes.

— Pelo visto… sim.

Ele entrega a xícara vazia de volta à bandeja e segue em direção à porta, deixando Margaret parada, assimilando aquela resposta que, por si só, já anunciava que algo naquela casa tinha começado a mudar.

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