8

— Eu tenho um emprego… — Luna murmura para si mesma, enquanto veste sua roupa. — Finalmente.

Ela dobra o pijama com cuidado excessivo e o deixa sobre a cama, como se aquele gesto fosse uma forma silenciosa de respeito. Depois pega a bolsa, confere se não esqueceu nada e segue até a porta.

Antes de sair, abre-a apenas o suficiente para espiar o quarto ao lado.

Oliver ainda dorme. Encolhido sob as cobertas, o rosto tranquilo, os cílios longos repousando contra a pele clara. Luna observa por alguns segundos a mais do que deveria.

— Até já… — sussurra, mesmo sabendo que ele não escuta.

Ela fecha a porta com cuidado e desce as escadas.

Margaret a espera no hall, segurando um copo térmico de café.

— Para a viagem. — diz, estendendo-o. — Martin já está aguardando.

— Obrigada. — Luna responde, sincera, aceitando o copo como se fosse um presente valioso.

Elas caminham juntas até a porta principal. Do lado de fora, o carro já está parado. Martin está ao lado do veículo e abre a porta traseira assim que as vê se aproximar.

— Bom dia, senhorita Luna.

— Bom dia. — ela responde, com um sorriso tímido.

Ela entra no carro e se acomoda no banco. Martin fecha a porta com cuidado e assume o volante.

— Para onde vamos? — ele pergunta, ajustando o retrovisor.

Luna hesita por um segundo antes de responder.

— É… fica bem longe de Chelsea. — diz, um pouco sem jeito. — No leste da cidade.

Martin apenas assente, como se distância não fosse um detalhe relevante.

O trajeto até o apartamento onde Luna mora, leva quase duas horas. Por ter dormido completamente sem jeito na última noite, preocupada com o bem-estar de Oliver, ela sequer conseguiu terminar de beber o café que Margaret preparara, dormindo quase que imediatamente.

 — Senhorita Luna… chegamos.

A voz de Martin é baixa, respeitosa. Luna desperta num sobressalto leve, piscando algumas vezes até reconhecer onde está. O carro está parado diante de um prédio simples, antigo, bem diferente da mansão em Chelsea.

— Ah… me desculpa. — ela diz, ajeitando-se rápido no banco. — Eu acabei dormindo.

Martin apenas a encara pelo retrovisor por um segundo e então abre a porta.

— Fique tranquila.

Eles descem. Luna guia o caminho até a entrada do prédio e sobe as escadas à frente, sentindo o peso estranho de estar voltando para um lugar que, de repente, já não parece mais seu.

Dentro do apartamento, tudo é pequeno. Apertado. Simples.

— Vou esperar aqui fora. — Martin diz, ficando encostado ao batente da porta aberta.

Luna assente e começa a se mover rápido, quase automática. Abre o guarda-roupa, pega cabides, dobra roupas. Uma mala. Duas. Três. Tudo o que realmente importa cabe ali: roupas, documentos, alguns livros, objetos que carregam mais memória do que valor.

Quando termina, o apartamento parece ainda mais vazio.

Ela passa o olhar pelo lugar. O sofá gasto. A mesa pequena encostada na parede. As caixas de livros empilhadas num canto, fotos antigas presas com ímã na geladeira, plantas que ela sempre esquecia de regar.

Tudo o que não cabe numa mala.

O motorista permanece em pé próximo à porta da sala, mãos cruzadas à frente do corpo, postura educada demais para aquele cenário improvisado. Ele não a observa diretamente, respeitoso, mas claramente atento ao tempo.

Luna quebra o silêncio.

— E… o resto? — pergunta em voz alta, mais para si mesma do que para ele. — O que eu faço com tudo isso?

Ela ri sem humor.

— Não é como se eu pudesse levar minha vida inteira pra uma mansão.

O homem finalmente se move um pouco.

— O senhor Hale costuma resolver esse tipo de coisa com rapidez. — diz, com um leve sotaque britânico. — Tenho o contato de um depósito. Seguro. Pode deixar tudo lá até decidir o que fazer.

Luna o encara.

— Depósito?

— Sim, senhorita Clarke. — ele responde com naturalidade. — A maioria das pessoas prefere assim quando precisa… mudar de repente.

Mudar de repente. Aquilo soa absurdo demais para ser real.

Ela olha em volta mais uma vez. Toca a lateral da estante, passa os dedos pela lombada de um livro, como se estivesse se despedindo. Não sabe por quanto tempo. Não sabe se volta.

— Tá. — diz, por fim, com a voz mais baixa. — Um depósito.

Martin assente.

O motorista pega duas malas e sai. Luna pega a outra mala, ajusta a alça no ombro e dá uma última olhada no apartamento antes de apagar a luz e seguir Martin para fora do prédio. 

— Quantas babás Oliver já teve? — ela pergunta, quando entra no carro.

Martin a olha pelo retrovisor.

— O senhor Hale falou algo sobre vinte... e... — Luna murmura, visto que ele não a respondeu. — E agora você sugeriu que eu colocasse as minhas coisas em um deposito ao invés de vender. É como se tivesse certeza de que eu não vou durar nesse emprego.

Martin mantém os olhos na estrada por alguns segundos antes de responder. O tom dele permanece educado, neutro demais para ser casual.

— Eu não falo sobre as particularidades da família Hale, senhorita Clarke.

Luna assente, sem surpresa. Aquilo parecia uma regra não dita. Talvez dita. Muitas vezes.

— Desculpa. — murmura, recostando a cabeça no banco. — Não foi uma pergunta justa.

O carro segue em silêncio por alguns quarteirões, até que Martin volta a falar, a voz baixa, quase cuidadosa.

— O depósito não é um presságio. — ele diz. — É uma opção segura. Para o caso de… a senhora sentir que está no lugar errado.

Luna solta um riso curto, sem humor.

— Então isso acontece com frequência.

Martin não confirma. Nem nega.

— Algumas pessoas preferem manter uma porta aberta. — ele completa. — Principalmente quando a decisão não foi exatamente planejada.

Ela olha pela janela, vendo Londres passar. Planejada definitivamente não era a palavra.

— E o senhor? — ela pergunta, depois de alguns segundos. — Acha que eu estou no lugar errado?

Martin encontra seus olhos pelo retrovisor. Pela primeira vez desde que se conheceram, há algo diferente ali. 

— Acho — ele diz — que poucas pessoas entram naquela casa achando que estão no lugar certo. Algumas descobrem depois. Outras não.

Ele não acrescenta mais nada.

O silêncio volta a ocupar o carro.

Luna permanece pensativa durante o restante do trajeto, com a testa apoiada no vidro frio, tentando entender em que ponto da própria vida uma decisão tão simples havia se transformado em algo que parecia definitivo demais.

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