6

Como se tivesse ficado assistindo, Margaret surge assim que Luna engole a última colher de sopa. 

— Venha comigo. — diz, já se virando em direção à escada.

Luna se levanta rápido demais, pega a bolsa por reflexo e a segue.

Tudo está muito silencioso, como se não tivesse uma pessoa sequer naquela casa. Elas sobem as escadas e andam pelo corredor, até a porta ao lado do quarto de Oliver.

O quarto é grande. Não há decoração pessoal, nem quadros, nem objetos que contem histórias. Apenas uma cama grande com roupas de cama claras, uma poltrona próxima à janela, uma porta que leva ao banheiro privativo.

— As toalhas estão no banheiro. — Margaret diz. — E em cima da cama há um pijama para você.

Ela aponta para a mesinha ao lado da cama, onde uma babá eletrônica repousa, ligada.

— A outra fica no quarto do Oliver. — completa. — Boa noite, senhorita.

Sem esperar resposta, a governanta se retira, fechando a porta com suavidade.

Luna fica parada por alguns segundos, absorvendo o espaço. Depois se aproxima da cama e passa a mão pelo lençol.

O tecido é macio de um jeito que ela nunca tinha sentido antes. Não áspero. Não fino demais. Não daqueles que arranham a pele depois de algumas lavagens. É frio sob os dedos, confortável, quase indulgente.

Ela solta um suspiro baixo antes de simplesmente se jogar sobre a cama, de costas, afundando no colchão como se o corpo inteiro finalmente tivesse permissão para descansar.

— Uau… — murmura para ninguém.

Depois de alguns segundos encarando o teto branco, Luna se levanta, pega o pijama dobrado com cuidado e segue para o banheiro.

O banheiro é tão grande quanto o quarto. Tons claros, mármore impecável, uma pia dupla, espelho amplo. À direita, uma banheira funda, de bordas largas, com metais cromados que brilham sob a luz quente. Não é uma banheira decorativa.

Luna passa os dedos pela borda lisa, quase incrédula.

Ela abre a torneira, se devagar e entra na banheira, observando a água começar a subir. Quando se acomoda, sente o corpo inteiro ceder ao calor, os ombros relaxando, a respiração ficando mais lenta.

Por alguns minutos, ela fecha os olhos. Pensa em como seria fácil se acostumar com aquela vida. Em ter alguém para limpar a casa sem que ela precise escolher entre descanso ou faxina. Em refeições prontas sem a angústia do que faltou no mercado. Em um motorista à disposição, levando-a a lugares onde normalmente ela só chegaria contando moedas ou calculando o tempo.

Após mais alguns minutos, Luna se levanta, seca o corpo e veste o pijama novo que pegou de cima da cama. O tecido é macio, confortável demais para alguém acostumada a improvisos.

Ela retorna ao quarto, apaga a luz e se enfia debaixo da coberta limpa e pesada. O colchão a envolve novamente, acolhedor, silencioso.

O cansaço vence rápido. Em poucos instantes, Luna adormece profundamente.

[...]

Luna acorda sobressaltada, o coração disparando, como se tivesse sido arrancada de um sonho à força.

— Socorro… — a voz infantil ecoa, abafada, desesperada.

Ela se senta na cama num pulo. Por um segundo, não entende de onde vem o som. O quarto ainda está mergulhado na penumbra, silencioso demais para aqueles gritos.

Luna tateia o celular sobre a mesa de cabeceira e a tela acende.

Meia-noite e meia.

Quando um outro grito vem, é que Luna percebe de onde vem o som. Da babá eletrônica.

O desespero toma conta do corpo antes mesmo do pensamento se formar. Luna salta da cama e corre para fora do quarto, descalça, o pijama leve mal acompanhando a pressa.

Ela empurra a porta ao lado sem bater.

O quarto de Oliver está iluminado apenas pela luz suave do abajur. O menino ainda dorme, mas o corpo se debate sobre o colchão, os lençóis enrolados em suas pernas.

— Não… não… — ele murmura, a voz falhando, antes de gritar novamente. — Socorro!

O rosto está contorcido, a testa franzida, lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos fechados.

Oliver não acordou. Ele estava preso em um pesadelo.

Luna se aproxima da cama com cuidado, o coração apertado com a cena.

— Oliver… — chama em voz baixa, primeiro. — Ei, está tudo bem. Oliver, acorde…

Ela se senta na beirada do colchão e toca de leve o braço do menino, depois o ombro, tentando não o assustar mais do que já está.

— Oliver, sou eu. — repete, com a voz firme e suave ao mesmo tempo. — Você está seguro. Foi só um sonho.

O corpo dele se agita de repente.

Os olhos de Oliver se abrem num sobressalto, arregalados, perdidos, cheios de pânico. Por um segundo, ele não parece enxergar o quarto, nem a cama, nem a casa.

Ele só vê o medo.

— Não! — grita, com a voz embargada.

Antes que Luna consiga dizer qualquer outra coisa, Oliver se ergue num movimento brusco e pula para frente, se jogando contra ela com força.

Os braços pequenos se agarram ao pescoço dela, as mãos fechando no tecido do pijama como se fossem a única coisa que o mantivesse fora do pesadelo.

— Não me deixa! — ele soluça, enterrando o rosto no ombro dela. — Ele vai me pegar.

O impacto a faz perder o equilíbrio por um instante, mas Luna reage rápido, envolvendo o corpo dele com os dois braços, puxando-o para perto.

— Shhh… — ela murmura, segurando-o firme. — Eu estou aqui. Não vou a lugar nenhum.

O peito de Oliver sobe e desce rápido, o corpo tremendo inteiro contra o dela. Ele aperta mais forte, como se tivesse medo de que, se soltasse, tudo voltaria.

Luna passa a mão devagar pelas costas dele, num gesto instintivo, repetitivo, tentando transmitir calma.

— Está tudo bem… — repete, baixinho. — Você está seguro. Eu estou aqui com você.

Aos poucos, o choro vira soluço. A respiração começa a desacelerar.

Mas Oliver não se afasta.

E Luna não tenta soltá-lo.

Sem perceber, ela começa a se balançar suavemente, para frente e para trás, como se estivesse ninando um bebê. O movimento é lento, constante, acompanhado do som baixo da própria respiração dela.

Oliver ainda soluça por alguns segundos, mas o aperto em torno do pescoço dela afrouxa. O peso do menino se entrega completamente aos braços de Luna.

Ele adormece ali, agarrado a ela, o rosto ainda úmido de lágrimas, mas finalmente em paz.

Com cuidado, para não acordá-lo, Luna se rasteja no colchão e encosta-se no encosto da cama. Ela ajusta a posição do corpo e mantém Oliver aninhado em seu colo, protegendo-o com os braços.

Ela não o coloca de volta na cama.

Fica ali mesmo.

Imóvel, paciente, sentindo o calor dele, ouvindo a respiração tranquila que agora substitui o choro.

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