Helena
Mais um dia amanhece, e a primeira coisa que sinto é o peso do braço de Miguel sobre minha cintura. Ele dormiu abraçado comigo a noite inteira, como se eu fosse algum porto seguro prestes a evaporar. Maldita hora em que mencionei que estávamos distantes no casamento, foi a única desculpa que consegui inventar, e agora pago o preço.
Por alguns segundos, observo o rosto dele.
Miguel é um homem bonito, isso é inegável. Se eu não o conhecesse, se não soubesse exatamente o que existe por trás daquela casca polida, talvez me apaixonasse. Os cabelos negros sempre perfeitamente alinhados, o nariz reto, a mandíbula marcada… é um rosto feito para enganar.
Lembro de uma colagem que vi anos atrás: uma banana linda por fora, impecável, e ao lado, a mesma fruta descascada, murcha, podre.
Miguel é exatamente isso.
Bonito até o momento em que você descobre o que existe por dentro.
Se ele soubesse que a mulher ao lado dele o despreza a ponto de compará-lo a uma fruta estragada, certamente perde