Helena
Eu precisava respirar.
Depois de uma manhã sufocante ao lado de Miguel, escolho o restaurante que sempre serviu como meu refúgio: um bistrô pequeno, aconchegante, com luz suave e aroma de pão fresco que costuma melhorar meu humor.
Entro e sinto, por um momento, que talvez tudo fique menos pesado.
Peço uma mesa perto da janela. Tiro o casaco, apoio os cotovelos na mesa e tento me concentrar no cardápio, mas meu peito ainda dói. A imagem de Desirée ainda me ronda como uma sombra quente, insistente.
Fecho os olhos por um instante, respirando fundo.
E então sinto.
Antes de ver, eu sinto.
Um arrepio percorre cada centímetro da minha pele, como eletricidade reconhecendo uma fonte antiga. O ar muda. Minha coluna se estica sem que eu perceba. Meu coração dá uma fração de segundo de atraso, como se precisasse reorganizar batidas.
Eu levanto o olhar.
E ela está ali.
Desirée entra pela porta com o sol batendo nas tatuagens dos braços, criando sombras que parecem dançar na pele dela. O cab