Capítulo dezenove

Miguel

No escritório, fico repassando o que Helena disse no café da manhã: que estamos emocionalmente distantes. Aquilo me incomodou mais do que deveria. Talvez meus casos tenham consumido demais minha atenção e ela tenha sentido essa diferença. Ou talvez ela esteja exagerando, como sempre faz quando se sente negligenciada.

Droga.

Não esperava atravessar uma crise no casamento ao mesmo tempo em que enfrento uma crise extraconjugal. Uma mulher precisa de atenção; a outra, de sumiço. E eu aqui, equilibrando dois mundos, tentando não deixar nenhum deles cair na minha cabeça. Às vezes me sinto um malabarista, mas um malabarista bom, disciplinado, que sabe exatamente até onde pode esticar cada situação.

Meu celular toca. Olho a tela: Josiel, um dos meus clientes mais antigos. Com ele funciona assim: fidelizo primeiro, roubo depois. É a ordem natural das coisas. Quanto mais confiantes, menos atentos.

Atendo.

— Bom dia, senhor Josiel, como o senhor está?

— Bom dia, doutor Miguel. Queria sabe
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