Helena
O hospital tem um cheiro específico, uma mistura de antisséptico, metal e silêncio contido, como se todas as pessoas ali estivessem suspensas no mesmo estado de espera. Quando acordo completamente, esse cheiro é a primeira coisa que me envolve, seguido pela sensação estranha de ainda estar viva, de ainda existir dentro do meu próprio corpo, apesar de tudo o que poderia ter terminado de forma diferente.
Estou em uma cama branca, lençóis impecáveis demais para a bagunça que ainda pulsa dentro de mim. Meu corpo dói, não de forma aguda, mas como se cada músculo estivesse se lembrando, um por um, do que passou. Há um peso no peito que não sei se é físico ou emocional, talvez seja a soma dos dois.
Viro o rosto devagar e a vejo.
Desirée está sentada ao meu lado, com o corpo inclinado para frente, os cotovelos apoiados nas pernas, as mãos entrelaçadas como se estivesse rezando para algo que não ousa nomear. O cabelo está preso de qualquer jeito, os olhos cansados, marcados por uma noit