Helena
Mamãe respira fundo, um suspiro longo, como se precisasse reorganizar o próprio coração dentro do peito antes de conseguir pronunciar qualquer palavra, enquanto papai alterna o olhar entre mim e Desirée, e eu percebo, quase como um estalo silencioso, o momento exato em que algo dentro dele muda de lugar, seu rosto perde o susto inicial, a rigidez do impacto, e lentamente ganha algo novo, mais profundo, mais maduro, uma compreensão que não precisa ser dita para ser sentida.
Eu me ajeito melhor na cama, ajusto a posição do corpo, seguro com mais firmeza a mão de Desirée na minha e, naquele instante, faço uma escolha que já vinha sendo adiada há tempo demais, porque entendo que não existe mais espaço para meias verdades ou silêncios convenientes, hoje a verdade precisa nascer inteira, sem atalhos, sem filtros, sem proteção.
— Pai… mãe… — digo, com a voz surpreendentemente firme para alguém que sente o peito prestes a transbordar — eu preciso contar tudo.
Eles se aproximam um pouco