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Amor Sem Nome, Desejo Sem Fim

Amor Sem Nome, Desejo Sem FimPT

Cuento corto · Cuentos Cortos
Juju  Completo
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Resumen
Índice

Na 999ª vez em que dividiram um quarto de hotel, ele se mostrou tão selvagem e insaciável quanto de costume. Na manhã seguinte, Zélia Silva exibia marcas avermelhadas por toda a pele, sentindo o corpo inteiro reclamar de dor a um simples movimento. A atmosfera no ar ainda carregava uma intimidade densa quando os braços compridos de Lucas Neves a envolveram pela cintura. Aproveitando o calor da pele dela contra o próprio peito, ele comentou num tom de total descaso: — Separa uma roupa mais formal para amanhã e vem para casa comigo. Ao escutar isso, Zélia ergueu o rosto de supetão, os olhos brilhando com uma expectativa nítida. — Você, enfim, decidiu... assumir o nosso namoro para todo mundo? — Perguntou ela, a voz carregada de esperança.

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Capítulo 1

Capítulo 1

Lucas arqueou as sobrancelhas e lançou um olhar oblíquo para ela pelo canto do olho, carregado de deboche.

— Assumir o quê? Amanhã eu tenho um encontro que armaram para mim lá em casa. Quero que você vá para quebrar o gelo e não deixar a garota desconfortável.

Cada palavra atingiu os ouvidos de Zélia com o impacto de um raio. O coração dela pareceu parar de bater, e um zumbido oco tomou conta de sua mente, deixando tudo em branco.

— Um encontro? Então, o que eu sou para você? — Indagou ela, com a voz trêmula.

Ele já havia se levantado e vestia a camisa. Ao ouvir a pergunta, lançou um olhar preguiçoso para ela por cima do ombro.

— Você? Você é a minha parceira para todas as horas. Minha companhia para sair para comer, dupla de videogame e a minha amizade colorida para a gente resolver nossas necessidades na cama.

Um frio cortante subiu pela espinha de Zélia. A cor sumiu de seu rosto em questão de segundos, deixando seus lábios pálidos. Percebendo a reação da garota, o sorriso de Lucas desapareceu, e ele se inclinou na direção dela.

— Espera aí, Zélia. Você não achou que a gente fosse namorado durante todos esses anos, achou?

O tom de voz carregado de ironia perfurou o peito dela como uma lâmina. Engolindo o nó amargo que se formava na garganta, ela forçou as palavras a saírem, soando frágeis e desconexas.

— Claro... claro que não. Vou tomar um banho.

Ela se levantou num tropeço, arrastando os pés descalços até o banheiro. Assim que a porta se fechou, o resto de força que ainda lhe restava evaporou. Zélia escorregou pelos azulejos frios até desabar no chão.

O discurso dele ainda ecoava em sua cabeça de forma cruel. Olhando para as marcas que Lucas havia deixado em sua pele durante a noite, as lágrimas começaram a cair feito chuva.

Eles se conheciam há mais de vinte anos. Cresceram juntos, dividiram o mesmo copo de leite e leram as mesmas revistas em quadrinhos. Aos dezoito, impulsionados pelo álcool, acabaram transando pela primeira vez. E a primeira levou à segunda, à terceira...

Na cama, a sintonia entre os dois era inegável. Durante o dia, o comportamento deles era idêntico ao de qualquer casal apaixonado. Andavam de mãos dadas pelas ruas lotadas, trocavam beijos na virada do ano com promessas de continuarem juntos, passavam horas no telefone para manter a chama acesa...

Zélia sempre acreditou que eles já estavam num relacionamento sério, apenas esperando o momento certo para contar aos outros. E agora ele a reduzia a uma mera "amizade colorida"?

A dor era tão insuportável que ela mal conseguia respirar. Com as mãos trêmulas, abriu o registro do chuveiro na capacidade máxima, usando o barulho da água para criar coragem de soluçar em voz alta.

Depois de um tempo sem fim, quando os olhos já não tinham mais lágrimas para derramar, ela recompôs sua expressão e saiu.

Lucas já estava de banho tomado e com as roupas trocadas, sentado no sofá com o celular colado ao ouvido.

— Como teremos muita gente amanhã, reserve o maior salão do restaurante. O paladar dela é mais suave, então peça um bolo chocolate. Na decoração, quero rosas em tons de branco e rosa-claro. Assim que terminarem de arrumar tudo, tirem uma foto e me mandem para eu aprovar. Ah, e preparem uma dúzia de ternos para eu experimentar quando chegar. Todos pretos, sem exceção. A Juliana só gosta dessa cor.

Ouvir aquele nome fez o estômago de Zélia despencar. Sem conseguir resistir, ela olhou na direção dele e se deparou com um sorriso doce e apaixonado curvando os lábios do rapaz.

"Juliana? Então o encontro dele é com a Juliana Nunes?", pensou Zélia, em silêncio.

A luz que restava no olhar dela se apagou por completo. Se a garota era Juliana, tudo fazia um sentido doloroso. Na época do colégio, Lucas nutria uma paixão avassaladora por ela, repetindo esse nome dezenas de vezes por dia. O problema é que, antes mesmo de ele criar coragem para se declarar, a menina foi morar no exterior.

Desde então, ele nunca mais tocou no assunto. Quando a intimidade entre os dois começou a crescer após aquela noite inconsequente, Zélia teve certeza de que aquele amor de adolescência era águas passadas. Ela jamais imaginou que aquela paixão intocável nunca era dita, mas também nunca era esquecida.

A dor aguda que havia dado uma trégua voltou a sufocá-la, fazendo suas mãos perderem a força. O celular de Zélia escorregou e bateu no piso de madeira com um estalo seco.

Ao ouvir o barulho, Lucas virou a cabeça e abriu um sorriso descontraído.

— Já terminou? Faz o acerto do quarto lá na recepção depois para mim? Eu já paguei a diária. — Ele pegou a jaqueta e caminhou até a porta. Antes de sair, girou o tronco para encará-la com uma expressão ilegível. — Zélia, eu sempre te vi como uma grande amiga. Para com essa mania de fazer essa cara de fim de mundo perto de mim, senão vou começar a achar que você está com segundas intenções. A gente se conhece bem demais. Um simples olhar e eu já sei o que passa na sua cabeça. Você não acha que namorar assim seria chato pra caramba? Se a gente ficasse junto, a vida perderia a graça num estalo de dedos.

O som da voz dele foi sumindo pelo corredor junto com os passos, mas as palavras criaram raízes no fundo da alma de Zélia. Ela continuou sentada na beirada da cama fria. Aos poucos, um sorriso quebrado surgiu em seus lábios, transformando-se num riso fraco acompanhado de novas lágrimas.

Então era isso que ele pensava dela durante todos esses anos.

Zélia ficou sentada em silêncio até a madrugada, antes de descer para entregar as chaves. Uma chuva pesada castigava a cidade do lado de fora, mas ela parecia imune ao frio, caminhando pelas ruas encharcadas feito um fantasma até chegar em casa.

Ao vê-la pingando água da cabeça aos pés, seus pais, João e Agatha, correram para buscar toalhas secas.

— Com um temporal desses caindo lá fora, por que você não chamou um carro por aplicativo? — Perguntou a mãe, com a voz transbordando pena e preocupação.

Zélia ergueu o rosto apático para os pais, exibindo olhos opacos e respondendo com a voz rouca:

— Pai, mãe... Vocês não queriam se mudar para o exterior por causa daquela reestruturação na empresa? Eu tomei a minha decisão. Vamos embora daqui. Eu não quero voltar nunca mais.

Os dois ficaram perplexos. Depois de insistirem por mais de seis meses, ouvir aquela aprovação foi um choque inesperado.

— Você tem certeza disso? Foi aquele seu namorado que terminou com você? — Indagou o pai, cauteloso.

A lembrança do discurso de Lucas trouxe um aperto ardido ao peito. Zélia forçou um sorriso triste e balançou a cabeça em negação.

— Eu não tenho namorado. Na verdade, nunca tive. Eu inventei tudo isso só para despistar as cobranças de vocês sobre casamento.

Embora não soubessem se ela dizia a verdade ou não, João e Agatha ficaram radiantes com a novidade. Enquanto o pai já planejava a papelada da imigração, a mãe a empurrava para o quarto, apressando-a para organizar as bagagens.

Zélia murmurou uma concordância silenciosa, entrou no quarto e foi direto jogar fora tudo o que tinha qualquer ligação com Lucas. Os álbuns de fotos grossos que ela havia guardado com carinho por mais de dez anos, as joias que ele havia lhe dado, os vestidos de grife, as esculturas artesanais...

Naquele momento, tudo aquilo foi atirado sem piedade dentro da lixeira.

— Srta. Zélia, a senhora vai jogar todas essas coisas lindas fora? — Perguntou a governanta da família, com os olhos arregalados pelo desperdício.

Observando a pena no olhar da mulher, Zélia assentiu com um aceno leve, a voz soando quase como um sussurro.

— Pode jogar.

Não eram apenas os presentes. Aquela relação e a existência de Lucas Neves eram coisas que ela não queria mais em sua vida.
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