Capítulo 3
Ao cair da tarde, a família Neves já havia organizado o carro para levar todos ao restaurante. Os três jovens dividiam o banco de trás do veículo e, durante todo o trajeto, Lucas não poupou atenções a Juliana.

Ele ajustava a temperatura do ar-condicionado com todo o cuidado, ajeitava a manta sobre as pernas dela e até abria as garrafinhas de água para que a moça não fizesse esforço.

Acomodada no canto esquerdo, Zélia observava a conversa animada dos dois por um instante antes de virar o rosto para a paisagem lá fora, mergulhada em um profundo silêncio.

No meio do caminho, uma tempestade torrencial desabou do céu. A estrada ficou com a visibilidade muito prejudicada e, em uma descida íngreme, o motorista foi pego de surpresa pelo farol alto de um veículo que vinha na direção oposta. Cego pela claridade repentina e sem tempo para reagir, ele perdeu o controle da direção e o carro colidiu com violência contra a mureta de proteção.

No exato momento do perigo, o instinto de Lucas foi envolver Juliana em seus braços, servindo de escudo para protegê-la. Do outro lado, Zélia recebeu o pior do impacto. Os estilhaços da janela voaram em sua direção, cortando sua pele e a deixando coberta de sangue. Uma dor aguda se espalhou por cada músculo de seu corpo, dando a sensação de que todos os seus ossos haviam se partido. Com a consciência já falhando, ela percebeu a porta do lado direito se abrir.

Lucas carregou Juliana para fora do veículo com uma expressão de desespero. Enquanto telefonava para o hospital em busca de socorro, ele sussurrava palavras doces para confortar Juliana. Era como se tivesse esquecido que havia uma terceira passageira nos destroços, ignorando Zélia por completo.

Quando a ambulância finalmente chegou, a equipe médica foi categórica ao afirmar que a vítima em estado mais grave fosse transportada primeiro. No entanto, dividido entre Zélia caída em uma poça de sangue e Juliana assustada em seus braços, Lucas hesitou por apenas alguns segundos antes de escolher acompanhar Juliana até o hospital.

Ao observar as luzes do veículo sumindo na escuridão, a visão de Zélia começou a embaçar e as lágrimas escorreram pelo seu rosto sem nenhum controle.

"Vinte anos de carinho e amizade não foram capazes de superar um simples olhar dela.", pensou ela, com amargura.

O peso nas pálpebras venceu a dor agonizante, e a escuridão absoluta a engoliu antes mesmo que o segundo resgate pudesse chegar.

Zélia perdeu a noção do tempo até que o zumbido de vozes agitadas a despertou. Ao abrir os olhos com dificuldade, viu sua mãe, Agatha, com a mão no peito, respirando fundo em um misto de angústia e alívio.

— Graças a Deus você acordou, minha filha! — Exclamou a mulher, com a voz embargada. — Sorte que a ambulância te trouxe a tempo. Você perdeu tanto sangue que o estoque de sangue do hospital quase não deu conta. Eu não consigo entender como vocês três estavam no mesmo carro e a Juliana saiu apenas com um arranhão, enquanto você se machucou dessa forma.

João, seu pai, também relaxou os ombros e deu um gole em seu copo de água antes de comentar:

— Isso aconteceu porque o Lucas protegeu a menina de todo o impacto. Dizem que é nas tragédias que o amor de verdade aparece, e a jovem ficou muito emocionada com a atitude dele. Acabei de passar no quarto ao lado e vi o rapaz dando sopa na boca dela. Pelo jeito que os dois se olhavam, deu namoro na certa.

Zélia escutou o relato com o coração apertado, esperando que os pais terminassem as fofocas antes de conseguir forçar a voz rouca a sair da garganta:

— Quanto tempo eu dormi? E a papelada da nossa imigração, já saiu?

— Você ficou apagada por dois dias inteiros e quase nos matou de tanto susto! — Respondeu Agatha. — Não precisa se desgastar com a papelada agora. Em menos de um mês estará tudo pronto, então só se preocupe em se recuperar.

A notícia de que faltavam menos de trinta dias para a mudança trouxe uma sensação de liberdade e paz para Zélia.

Nos dias que se seguiram, ela ouvia as enfermeiras comentarem sobre a dedicação incansável de Lucas. Ele passava o dia e a noite no quarto de Juliana, sem arredar o pé. Bastava a moça tossir de madrugada para ele se levantar apavorado e ir atrás de água quente. O rapaz checava a temperatura de cada remédio, comprava doces para ela comer depois dos remédios e trazia todo tipo de distração para que ela não ficasse entediada.

Zélia escutava tudo em um silêncio melancólico.

Certa tarde, enquanto era levada na cadeira de rodas para fazer exames de rotina, Zélia notou uma comoção no corredor. Ao passar em frente ao quarto da vizinha, virou o rosto e se deparou com Lucas segurando um enorme buquê de rosas, declarando seu amor.

— Juliana, desde a primeira vez que te vi, oito anos atrás, eu me apaixonei. Todos aqueles nossos encontros por acaso foram desculpas que inventei para ficar perto de você. Eu sei de cor tudo o que você gosta e conheço os seus sonhos. Naquela época eu perdi a chance de me declarar, mas você aceitaria me dar uma oportunidade agora?

A voz carregada de expectativa nervosa fez Zélia relembrar o passado. Lucas havia preparado essa mesma declaração um mês antes de Juliana ir morar no exterior. Um desencontro de datas estragou os planos dele na época, mas o destino apenas havia adiado o inevitável. Quando Juliana pronunciou o tão aguardado sim, Zélia deu um sorriso discreto e pediu que continuassem o trajeto até a sala de exames.

No instante em que ela virou as costas, as pessoas ao redor bateram palmas para celebrar o casal. O barulho fez Lucas olhar para o corredor, e seus olhos capturaram a figura solitária de Zélia sumindo ao longe. O sorriso dele congelou por uma fração de segundo, dando lugar a uma pontada de incômodo no peito. Mas a culpa durou pouco, sendo engolida pela alegria de ter o amor de sua vida de volta. Com os braços abertos e cheio de orgulho, ele abraçou Juliana.
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