No meio da festa de aniversário, Lucas e Juliana anunciaram a data do casamento diante de todos os convidados. Foi apenas naquele momento que Zélia percebeu que a celebração não era apenas pelo aniversário do rapaz, mas também uma festa oficial de noivado.
O salão inteiro irrompeu em aplausos calorosos, com os amigos se apressando para parabenizar o casal. Ela, no entanto, permaneceu sentada sozinha em um canto isolado. Observava os dois trocando beijos apaixonados e radiantes de felicidade.
Seu coração estava um completo vazio, sem sentir a menor pontada de emoção diante da cena.
Durante o brinde, Juliana caminhou pelo salão de braços dados com o noivo e parou em frente à mesa da jovem.
— Senhorita Zélia, você e o Lucas sempre foram muito próximos. Gostaríamos muito que fosse uma das nossas madrinhas de casamento. O que acha da ideia? — Perguntou a noiva, levantando a taça de champanhe com um sorriso impecável no rosto.
— Peço desculpas, mas já tenho outro compromisso para esse dia. Não poderei comparecer à cerimônia. — Respondeu Zélia, com uma franqueza cortante.
Ao ouvir aquela recusa tão direta, a expressão de Lucas mudou de forma drástica. Ele a encarou de cima a baixo com um olhar gelado, deixando transparecer uma irritação contida na voz.
— Não faz diferença alguma se você vai ou não. O importante é mandar o presente para marcarmos presença. — Retrucou ele, com aspereza.
Zélia assentiu de leve, mantendo o tom de voz sereno:
— Pode ficar tranquilo. Considerando a nossa longa convivência, faço questão de enviar um presente muito generoso.
O tom de voz neutro fazia parecer que Zélia estava, de fato, desejando felicidades sinceras aos pombinhos. Uma onda de emoções confusas cruzou o olhar do homem ao recordar a conversa que havia escutado na loja dias atrás.
Sem saber como agir diante daquela postura impenetrável, ele aproveitou o início de uma melodia animada no piano para puxar a noiva em direção à pista de dança. Os holofotes acompanhavam os movimentos graciosos dos dois pelo salão. Os convidados ao redor observavam aquela cena de puro romance, sussurrando comentários cheios de fofoca.
— Eles formam um casal lindo. Parecem almas gêmeas. Mas você não acha um pouco precipitado ficarem noivos depois de namorarem por apenas um mês? — Comentou uma mulher perto dali.
— Você não entende nada dessas coisas. O Lucas é apaixonado pela Juliana há anos. Agora que ele conseguiu conquistar a garota dos sonhos, é óbvio que quis garantir logo a aliança no dedo dela para marcar território. — Explicou a outra convidada.
Encostada no estofado macio do sofá, Zélia observava a movimentação em silêncio.
"Como as coisas mudaram...", pensava ela, com uma tristeza presa na garganta.
Havia sido Lucas quem a ensinara a dançar valsa. Naquela época, os dois não tinham qualquer sintonia. Ela passava metade do tempo pisando nos sapatos dele por causa da falta de prática com os saltos altos. Longe de ficar irritado com os tropeços, ele exibia um sorriso malicioso e sussurrava em seu ouvido:
— Para cada pisão no meu pé, vou cobrar um beijo seu.
Naquele dia inesquecível, ela aprendeu a flutuar na pista. O rapaz terminou a noite com as canelas cobertas de hematomas roxos, enquanto os lábios da moça ficaram inchados de tantos beijos roubados.
Tudo aquilo a fez acreditar que os sentimentos eram recíprocos. Em sua cabeça, ela já ocupava o lugar de namorada oficial na vida dele. No entanto, o retorno da ex-paixão do rapaz trouxe a dura realidade à tona. Ao presenciar as constantes demonstrações de afeto e devoção que ele prestava à outra mulher, Zélia percebeu com amargura o quanto sua própria ilusão havia sido um erro patético.
Perdida nas próprias lembranças, ela foi surpreendida por um rapaz educado que se curvou para convidá-la para dançar. A princípio, sua vontade era recusar a oferta. Porém, a insistência gentil do desconhecido e a animação geral do evento a convenceram a não agir como a desmancha-prazeres da noite.
O casal inusitado demonstrou uma química instantânea, movendo-se com leveza ao som da melodia suave. O calor reconfortante das mãos masculinas ajudou a dissipar a tensão acumulada, permitindo que a jovem relaxasse os ombros e aproveitasse o momento.
Foi a primeira vez que o noivo viu a amiga de infância sorrir durante toda a celebração, e a expressão no rosto dele desabou na mesma hora. Os olhos escuros de Lucas, carregados de um claro aborrecimento, buscavam a figura dela na pista a todo instante. Essa distração o fez errar o ritmo da música várias vezes. Percebendo a falta de foco do parceiro, Juliana acompanhou a direção do olhar dele, mascarando o ciúme nos olhos com um sorriso falso.
Assim que a banda alterou a batida da música, os convidados realizaram a tradicional troca de parceiros de dança. Quando notou que as mãos masculinas segurando sua cintura agora pertenciam a Lucas, Zélia ficou paralisada de susto, abaixando a cabeça para evitar contato visual.
Eles mal haviam completado o primeiro giro quando o desastre aconteceu. O gigantesco lustre de cristal preso ao teto sofreu um solavanco e despencou em direção ao chão com um estrondo assustador.
Agindo por puro instinto de proteção, Lucas largou a amiga e avançou feito um raio para cobrir o corpo de Juliana, arrastando-a para longe dos estilhaços.
Deixada para trás no meio do caos, Zélia mal conseguiu firmar os pés no chão. Os pedaços afiados de vidro rasparam por seu ombro antes da colisão final, e um dos cacos abriu um corte fundo ao longo de seu braço. O sangue quente começou a escorrer sem controle, tingindo o tecido branco do vestido caro de vermelho. A dor aguda percorreu cada nervo de seu corpo, forçando um gemido abafado a escapar de seus lábios pálidos.
A poucos metros de distância, o homem abraçava a futura esposa em um gesto heroico, sussurrando palavras de conforto antes de se apressar em levá-la embora dali. Ele não olhou para trás uma única vez para checar se Zélia estava viva ou morta.