Capítulo 6
Logo nas primeiras horas da manhã seguinte, a primeira coisa que Zélia viu ao descer as escadas foi a figura imponente de Lucas. Ele estava largado no sofá, com uma expressão fechada e um tom de voz gélido ao pronunciar seu nome.

— Zélia!

Qualquer pessoa perceberia que ele estava com os nervos à flor da pele. Mesmo assim, ela não demonstrou a menor intenção de apaziguar a situação, mantendo uma atitude fria e distante.

— Ah, bom dia. Estou de saída para um encontro com meu namorado, então não poderei te fazer companhia. Sinta-se em casa.

Aquelas palavras foram o estopim para a raiva que ele vinha engolindo há dias. Levantando-se num solavanco, ele agarrou o pulso dela com violência, com uma sombra sombria encobrindo seu olhar.

— De onde você tirou um namorado do nada?

Zélia manteve o semblante impassível, recusando-se a responder. O silêncio agiu como combustível para a fúria de Lucas, fazendo com que seu aperto se tornasse ainda mais forte sem que ele sequer percebesse.

— Perdeu a língua? Responde de uma vez!

Ela tentou se desvencilhar daquela mão pesada que já deixava marcas avermelhadas em sua pele, e rebateu sem demonstrar fraqueza:

— O que isso tem a ver com você? Acho que você está se metendo onde não foi chamado.

Quando a discussão estava prestes a sair de controle, Agatha surgiu no fim da escada e correu para intervir, separando os dois às pressas.

— Pelo amor de Deus, ela só está provocando. Com a confusão em que estamos metidos agora, onde ela arrumaria tempo para namorar? Isso é coisa para se pensar bem mais para a frente. Vocês dois cresceram juntos, não há nada que não possam resolver conversando com calma. Chega de briga, por favor.

A presença da mais velha obrigou ambos a engolirem o orgulho e o ímpeto da juventude. Eles recuaram em silêncio e se sentaram em lados opostos da sala.

Assim que Agatha saiu pela porta, a razão começou a retornar à mente de Lucas, fazendo-o reconhecer que talvez tivesse passado dos limites. Puxando pela memória, as palavras da mulher ecoaram em sua cabeça e ele franziu a testa em confusão.

A confusão em que estavam metidos? O que exatamente estava acontecendo nos bastidores? Por que romance era assunto "para mais para a frente"?

Completamente perdido, ele voltou sua atenção para Zélia em busca de respostas.

— Você estava mentindo para mim agora pouco?

Ela lançou um olhar de relance para ele e se acomodou no canto mais afastado do sofá.

— Você precisa de alguma coisa aqui?

A mudança brusca de assunto indicava que tudo não passara de uma provocação barata. Aliviado no fundo, ele decidiu focar no motivo real de sua visita matinal.

— Por que você não quer ir à minha festa de aniversário amanhã?

— Estou muito ocupada. Falta de tempo.

Aquela indiferença reacendeu o pavio curto de Lucas, elevando o volume de sua voz no mesmo instante:

— Ocupada com o quê? O que pode ser mais importante do que o meu aniversário? Nos outros anos, você era a primeira a contar os dias para comemorar ao meu lado!

Zélia tomou um gole de água, mantendo o tom monótono e sem nenhuma alteração emocional.

— As coisas mudaram e não estamos mais no passado. Você tem uma namorada agora. Essa é uma cobrança que você deveria fazer à Juliana, não a uma pessoa de fora como eu.

Uma estranha pontada de incômodo atingiu o peito de Lucas ao escutar a expressão "pessoa de fora", embora ele não soubesse explicar o motivo. Ele cruzou as pernas de forma defensiva e entrelaçou os dedos.

— Não me interessa. Este ano a sua presença é obrigatória. Lembra que há alguns anos você me prometeu realizar três desejos? O primeiro era tricotar um cachecol para mim, e o segundo era me acompanhar até as montanhas de neve. Ambos já foram pagos com sucesso. Agora eu quero cobrar o terceiro desejo. Você precisa aparecer na minha festa de aniversário.

Dessa vez, em vez de retrucar com sarcasmo, ela apenas abaixou a cabeça. Aquele silêncio pesou no ambiente, frustrando Lucas em um nível absurdo, o que deixou sua voz ainda mais cortante:

— Por acaso você esqueceu o motivo de ter me prometido isso anos atrás?

Como ela poderia esquecer um evento que marcou sua vida para sempre?

Três anos atrás, durante uma viagem ao litoral, eles foram pegos de surpresa pela maré alta. Ela sofreu uma cãibra terrível nas pernas e foi arrastada para o fundo do mar revolto. Ignorando a própria segurança, Lucas mergulhou de cabeça para resgatá-la. Ele conseguiu trazê-la de volta à areia sã e salva, mas quase perdeu a própria vida pelo esforço extremo de lutar contra a correnteza.

No hospital, ao lado do leito dele, Zélia chorou até beirar o desmaio. O desespero era tanto que os piores cenários passavam por sua cabeça em loop.

"Se ele morrer, eu também não quero continuar viva.", pensou ela na época, cogitando o impensável caso o pior acontecesse.

Quando ele finalmente despertou, limpou as lágrimas do rosto dela com uma delicadeza ímpar e brincou, com a voz embriagada de ternura:

— Chorando desse jeito e fazendo esse escândalo todo... Quem ver de fora vai achar que eu já bati as botas de vez.

— Estou aqui morrendo de preocupação com você e você ainda fica falando essas bobagens de mau gosto! — Ela brigou em prantos, dando-lhe um soquinho de leve no peito.

Entre pedidos de desculpas e risadas fracas, ele a consolou com o olhar doce.

— Está bem, me perdoe. Se você realmente quer me compensar por esse susto enorme, basta realizar três desejos meus no futuro.

Lembrar daquela época afetuosa arrancou de Zélia qualquer vontade de continuar discutindo no presente. O contraste entre o passado caloroso e a frieza de agora era devastador. O silêncio reinou na sala por um longo período até que ela finalmente cedesse contra sua vontade.

— Tudo bem. Mas assim que eu realizar esse terceiro desejo e a dívida estiver paga...

Um toque estridente de celular cortou o ar da sala. Lucas atendeu o aparelho já se levantando e caminhando a passos largos em direção à porta de saída.

— Que bom que você concordou em usar a razão. Te espero amanhã, sem falta.

Com o olhar fixo nas costas largas dele desaparecendo além da porta principal, Zélia sussurrou o restante da frase para o vazio da sala:

— Vamos cortar relações para sempre.
Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP