Capítulo 8
Um grande alívio tomou conta de seu corpo quando o médico do pronto-socorro garantiu que os estilhaços não haviam atingido os ossos. Tratavam-se apenas de ferimentos feios na pele.

Com o braço enfaixado e medicada para a dor, a garota pegou um carro e voltou para o próprio apartamento.

O prazo de sua viagem sem volta se aproximava a passos largos, transformando a sala de estar em um depósito caótico de caixas e malas.

Após passar dois dias de repouso absoluto, ela avisou aos amigos mais leais sobre a decisão de morar no exterior. Chocados com a bomba, o grupo organizou um jantar de despedida caprichado em um bar boêmio da cidade.

O clima ao redor da mesa transbordava nostalgia. O pessoal exigia promessas de ligações constantes após a mudança de país, e a confraternização regada a álcool se estendeu até altas horas da madrugada.

Depois de colocar todos em táxis e se despedir com abraços apertados, Zélia pagou a conta final e voltou à área privativa do estabelecimento para buscar a bolsa esquecida. Ao caminhar pelo corredor deserto, ela passou por um dos camarotes e travou no lugar ao reconhecer o tom de voz vindo do interior.

— E aí, Lucas... Como é a sensação de ter fisgado a mulher da sua vida depois de tantos anos de luta? — Perguntou alguém em tom de brincadeira.

A porta de madeira estava entreaberta. Isso permitiu que a resposta presunçosa de Lucas ecoasse pelo corredor com clareza.

— Falando sério com vocês? Se eu morresse hoje, morreria como o cara mais realizado do universo.

A declaração romântica provocou uma explosão de assobios dentro da sala VIP. Logo em seguida, uma voz cheia de malícia cortou o barulho.

— Tudo muito lindo, mano. Mas e aquela sua amiguinha de infância que vivia grudada no seu pescoço?

Um silêncio constrangedor dominou o ambiente por alguns segundos intermináveis. Quando Lucas por fim abriu a boca, sua voz soou com uma indiferença gélida:

— Ela? Ah... A Zélia é ótima de cama. Só isso.

— Poxa, você tem uma parceira que vem correndo de pernas abertas toda vez que ele quer, e o melhor, sem cobrar status de namorada oficial! Você adora fazer a gente passar inveja, não é? — Brincou outro colega de copo.

Acompanhando a rodada de risadas sujas, Lucas deu de ombros, sem fazer a menor questão de defender a honra da antiga companheira.

— Brincadeiras à parte, agora que o casamento com a Juliana está marcado no cartório, como vai ficar o esquema com a Zélia?

— Somos adultos resolvidos. Cada um segue seu rumo sem dramas. O meu coração é cem por cento da Juliana. Não existe espaço para outras mulheres na minha rotina.

A convicção barata nas palavras dele rendeu uma série de elogios sobre o quanto ele era um homem romântico. Do lado de fora da porta, porém, Zélia cravava as unhas com tamanha força nas palmas das mãos que sentia a pele rasgar.

"Achei que eu não tivesse mais lágrimas para chorar por ele.", refletiu ela, com a garganta sufocada.

Ouvir aquelas atrocidades em voz alta abriu uma ferida podre em sua alma. Todo o carinho construído ao longo de vinte anos, as madrugadas inteiras gastas no telefone, os dedos entrelaçados, os beijos trocados no escuro do quarto... Tudo havia sido reduzido à humilhante categoria de diversão sexual grátis.

Mordendo o lábio inferior até sentir gosto de sangue, ela engoliu a vontade de vomitar e caminhou até a saída do bar com as pernas pesadas de decepção.

O céu noturno derramava uma chuva fina. Assim que pisou na calçada fria, notou que o caminho de volta estava bloqueado.

Juliana e um bonde de quatro garotas a cercavam como predadoras prontas para dar o bote. Ignorando a emboscada infantil, Zélia ergueu o braço intacto para chamar um carro na rua, mas sofreu um puxão violento na roupa.

— Eu sempre desconfiei que tinha algo muito podre na relação de vocês dois. Hoje as peças se encaixaram. Como você tem coragem de ser tão suja a ponto de se jogar na cama do meu namorado todo esse tempo? — Cuspiu Juliana, com a fisionomia distorcida por um ódio venenoso.

A agressividade do ataque fez o sangue fugir do rosto de Zélia. Ela abriu a boca para rebater a ofensa, mas Juliana cortou seu raciocínio com uma risada de puro escárnio.

— O que ficou no passado, passou. O problema real é que agora temos compromisso marcado. Você vai continuar vindo rastejar atrás dele nos bares afora? Gosta tanto assim de ser a amante escondida no porão?

O peito de Zélia travou de indignação. Puxando todo o oxigênio que seus pulmões doloridos aguentavam, ela manteve a cabeça erguida.

— Para o seu governo, eu não sou amante de ninguém. E não vim aqui atrás de macho nenhum...

Antes que a frase chegasse ao fim, Juliana lançou um olhar autoritário para as comparsas ao lado.

— Arrastem essa vagabunda para dentro da boate. E achem algum morador de rua drogado ali na esquina.

Compreendendo a ordem sinistra, o grupo avançou em bando contra a jovem isolada. Empurraram-na sem pena pela porta dos fundos do bar, forçando a subida a pontapés pelas escadas escuras.

— Me soltem! Estão loucas?! O que pensam que vão fazer comigo? — Gritou Zélia, entrando em pânico real ao lutar contra o sequestro.

Ela se debateu contra os braços que a prendiam, mas a força coletiva do grupo a arremessou sem cerimônias para dentro do último quartinho do corredor. Em poucos minutos, uma das meninas surgiu arrastando um andarilho de aspecto assustador pela blusa. Juliana bateu palmas em tom de celebração macabra e abriu passagem.

— Essa piranha aqui está louca por diversão e não cobra um centavo para abrir as pernas. Aproveite a noite e faça o serviço completo nela. — Instruiu Juliana.

Dito isso, ela trancou a porta blindada pelo lado de fora e girou a chave.

No espaço escuro e sem ventilação, o homem avançou com os olhos brilhando em pura luxúria animal. Zélia usou as unhas livres para arranhar o rosto do agressor, chutando e se debatendo em um instinto primitivo de sobrevivência.

Contudo, a disparidade de força física cobrou seu preço. Em um puxão brutal, o vestido delicado rasgou no ombro, expondo grandes áreas de pele nua. O criminoso encostou a boca repulsiva na vítima, empesteando o ar com um odor sufocante de esgoto misturado com suor velho.

Movida pela fúria de quem luta pela própria vida, a mão de Zélia tateou a mesa às cegas até encontrar um pesado cinzeiro de vidro. Sem hesitar por um segundo sequer, ela afundou o objeto contra o crânio do invasor. O baque surdo ecoou pelo quarto abafado, e o corpo pesado do agressor tombou desmaiado sobre o carpete sujo.

Tremendo em estado de choque, ela pegou o celular caído no chão e disparou escada abaixo em busca de fuga.

"Eu preciso sair deste inferno agora!", implorava ela a si mesma, aos prantos. Assim que atingiu o topo da escadaria principal, deu de cara com Juliana fofocando com o restante das amigas cúmplices. A expressão de vitória da noiva sofreu um apagão de raiva ao ver a rival inteira.

— Como diabo você conseguiu fugir de lá?! — Berrou Juliana, cravando as unhas no braço machucado de Zélia.

A agressora fez menção de arrastá-la de volta para o corredor dos fundos. Porém, o canto de seus olhos captou a figura de um rapaz subindo os degraus de acesso.

Em uma transição de digna de atriz de novela, a postura autoritária de Juliana sumiu no ar. Ela soltou um grito falso de pavor, jogou o próprio peso para o vazio e rolou a escadaria abaixo de forma teatral.

Atraído pela gritaria, Lucas presenciou o exato momento do impacto. O terror absoluto engoliu a sanidade dele enquanto ele descia a escada aos saltos, caindo de joelhos para amparar a noiva caída no chão.

Ao constatar os hematomas vermelhos da queda no corpo da mulher que amava, o desespero em seu olhar deu lugar à fúria de um animal selvagem. Ele ergueu o rosto para fuzilar a amiga de infância no topo da escada.

— Zélia! Qual é o seu problema?! Por que você empurrou a Juliana de propósito?!
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