Capítulo 9
Ao ver Lucas acusá-la sem ao menos tentar entender a situação, a mágoa e a dor no peito de Zélia atingiram um limite insuportável. Contudo, ela se forçou a manter a calma, determinada a esclarecer os fatos.

— Foi ela quem pagou um homem para tentar abusar de mim! E essa queda da escada não passou de um teatro. Se você duvida, vá até o camarote agora mesmo. O mendigo ainda...

O pânico tomou conta de Juliana ao ouvir a acusação. Com o rosto banhado em lágrimas, ela se apressou em intervir:

— É mentira, Lucas! Ela começou a me xingar, me chamou de amante e disse que eu estava destruindo a história que vocês construíram desde a infância. Foi por isso que ela me empurrou! Eu não fiz nada contra ela, por que ela está sendo tão cruel e inventando esses absurdos?

Entre as duas, a lealdade de Lucas a Juliana era cega e inabalável. Ele a puxou para um abraço protetor, canalizando toda a sua fúria contra Zélia em um tom de voz que cortava como gelo.

— Como você tem coragem de achar que a Juliana faria algo tão sujo? Você a joga da escada sem o menor motivo e ainda tem a cara de pau de se fazer de vítima? Você viveu a vida inteira pendurada no meu pescoço, e eu só aturei essa sua obsessão em respeito à amizade das nossas famílias. Já que você gosta tanto de criar ilusões e não sabe o seu lugar, suma da minha frente!

Aquelas palavras foram o golpe de misericórdia no coração de Zélia, apagando qualquer faísca de esperança que ainda restasse. Ela cravou o olhar no rosto dele e, com uma voz firme e inabalável, declarou:

— Perfeito! Vou fazer o que você quer e cortar qualquer laço que exista entre nós!

A frieza cortante daquela resposta só jogou mais lenha na fogueira da raiva de Lucas. Ao vê-la descer os degraus com passos trêmulos e vacilantes, ele não recuou e disparou uma última ofensa:

— Faça o favor de nunca mais cruzar o meu caminho!

Zélia tinha plena consciência de que aquela era, de fato, a última vez que se veriam. Por isso, ela não hesitou por um segundo, virando as costas e caminhando para longe sem olhar para trás.

Depois de uma noite de sono agitado, Zélia acordou e arrancou a última folha do calendário pregado na parede. Enquanto arrastava sua mala em direção à garagem, as vozes de João e Agatha a fizeram parar.

— Filha, o Hélio e a Lara chamaram a gente para um almoço de despedida. — Avisou a mãe. — Deixa as suas coisas aí e vem logo para cá.

Uma onda de relutância tomou conta de Zélia. No entanto, ela sabia que a guerra travada contra Lucas não deveria envolver a amizade de décadas dos pais. Após alguns segundos de hesitação, ela assentiu com a cabeça e aceitou o convite.

Para o alívio de Zélia, Lucas não estava presente no almoço. Hélio e Lara tentavam ligar para Lucas sem parar, insistindo para que ele voltasse a tempo da refeição. Foram mais de dez tentativas frustradas, todas caindo direto na caixa postal.

Com os pratos já servidos e esfriando sobre a mesa, Zélia ponderou a situação e decidiu quebrar o silêncio com a voz mansa:

— Ele deve estar aproveitando o dia com a noiva. É só um almoço, não faz mal se ele faltar. Melhor não atrapalharmos o encontro dos dois.

Como a família precisava sair em breve para pegar o voo, o tempo era escasso. Rendidos à evidência, os anfitriões guardaram os celulares e convidaram todos a se acomodarem nas cadeiras.

O almoço foi marcado por um tom nostálgico, com os casais mais velhos relembrando as inúmeras histórias construídas ao longo dos anos. Zélia se limitou a ouvir as conversas em silêncio, concentrada na comida e sem muita vontade de interagir. Ao final da refeição, todos se reuniram no jardim para tirar uma última foto em grupo, selando a despedida.

À uma da tarde em ponto, a família Silva carregou as malas rumo ao aeroporto, escoltados por Hélio e Lara. Já no saguão de embarque, o casal fez uma nova rodada de ligações para o filho. O resultado foi o mesmo, um silêncio absoluto do outro lado da linha.

Com um suspiro cansado, os dois trocaram olhares de lamento e se voltaram para os velhos amigos.

— O Lucas tem andado com a cabeça nas nuvens por causa dos preparativos do casamento e nem percebeu que vocês estavam de partida. — Comentou Lara, carregando um tom de desculpas na voz. — Quando ele chegar em casa e vir tudo vazio, vai ficar arrasado.

Zélia fez um movimento suave com a cabeça em negação e murmurou, apática:

— Ele não vai.

A resposta pegou os quatro de surpresa. Eles viraram o rosto na direção da jovem, confusos.

— Como assim? Por que diz isso?

Naquele exato instante, os alto-falantes do aeroporto anunciaram a chamada para o embarque, salvando-a de dar mais explicações. Zélia ignorou a pergunta e apenas distribuiu abraços educados de despedida em Hélio e Lara.

João e Agatha aproveitaram a deixa para tirar um envelope de presente com um cheque generoso do bolso, entregando-o nas mãos dos compadres.

— Infelizmente, não teremos como comparecer ao casamento dos meninos. — Justificou João, emocionado. — Hélio, meu amigo, por favor, entregue isso a eles e diga que desejamos toda a felicidade do mundo nessa nova etapa.

O momento da despedida foi carregado de emoção e de olhos marejados de ambos os lados.

Um pouco mais afastada do grupo, Zélia desbloqueou a tela do celular. Com alguns toques precisos, ela bloqueou e apagou o número de Lucas, além de excluí-lo de todas as suas redes sociais.

Após apagar o último vestígio daquele passado, ela entrelaçou os braços nos dos pais, acenou uma última vez para os velhos e caminhou em direção ao portão de embarque. O passado ficou para trás, e ela não se virou para procurá-lo.
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