Capítulo 5
Quando Hélio e Lara estavam prestes a falar, Zélia se antecipou para cortar o assunto:

— Não era ninguém, você ouviu errado.

Os mais velhos trocaram um olhar de pura perplexidade diante da resposta rápida. Alheio à reação dos pais, Lucas simplesmente pegou a mão da garota e a puxou em direção ao carro.

— Que bom que você apareceu. Já terminou de conversar e está livre, não é? Então vem comigo para um lugar.

O trajeto inteiro transcorreu em um silêncio absoluto. Quando o veículo finalmente parou, Zélia percebeu que o destino era uma butique luxuosa. Sem muita cerimônia, ele instruiu as vendedoras a trazerem uma montanha de roupas, sapatos e bolsas, exigindo que ela provasse cada um dos itens.

Com o cenho franzido e os olhos repletos de confusão, ela questionou:

— Para que eu preciso provar tudo isso?

Ele a empurrou de leve na direção do provador, dizendo com um tom de voz que não admitia recusas:

— Apenas experimente e não faça perguntas.

Antes que Zélia pudesse formular qualquer protesto, a funcionária já havia fechado a porta e começado a abrir as caixas.

A cada look que ela vestia, Lucas tirava uma foto e, logo em seguida, a mandava de volta para a cabine. Esse ciclo se repetiu inúmeras vezes. Após experimentar mais de cem peças, a exaustão tomou conta do seu corpo, e seus pés já sangravam por causa do atrito com os sapatos de salto alto.

Chegando ao limite de sua paciência, ela afastou a vendedora, caminhou na ponta dos pés até Lucas e declarou em voz baixa e firme:

— Eu não preciso que você compre essas coisas para se desculpar comigo...

— Embrulhem tudo, com exceção daquele vestido vinho, e entreguem nas mãos da senhorita Juliana, na Mansão Boa Vista.

A voz dele cortou o ar de forma abrupta, fazendo com que o restante da frase de Zélia ficasse entalado em sua garganta.

Observando a naturalidade com que ele passava o cartão de crédito, ela perguntou com a voz rouca:

— Você me fez provar todas essas coisas só para dar de presente para a sua namorada?

Lucas assentiu sem dar muita importância, com um sorriso discreto brincando nos lábios.

— Sim. Eu queria fazer uma surpresa, mas estava com medo de não acertar no gosto dela. Como vocês têm o mesmo tipo físico, não teria erro usar você como modelo. Daqui a pouco vamos dar uma volta na confeitaria, na joalheria e na loja de cosméticos do andar de cima. Quero que você prove as comidas, as bebidas e teste os produtos, porque tudo o que for para a Juliana precisa ser do bom e do melhor.

Ouvir aquela programação feita sem o menor consentimento foi a gota d'água. A raiva que se acumulava em seu peito finalmente transbordou.

— Lucas, eu não sou uma ferramenta para você agradar a sua namorada!

Ele ergueu o rosto, atônito, pois jamais a vira tão furiosa. Foi então que notou os olhos dela, vermelhos e marejados.

— Sabe de uma coisa? Eu nunca te vi como um passatempo para preencher horas vagas. Quando nos abraçamos, nos beijamos e até quando fomos para a cama... Para mim, foi tudo muito real! Você tem todo o direito de não gostar de mim, mas não tem o direito de me humilhar dessa forma! — Declarou Zélia, com uma voz embargada e trêmula, revelando toda a sua dor.

Lucas ficou paralisado, invadido por um turbilhão de sentimentos conflitantes. Ele até tentou formular uma explicação, mas Zélia já havia dado as costas e partido.

Acompanhando com o olhar aquela silhueta miúda desaparecer no meio da multidão, um brilho estranho e fugaz passou por seus olhos. No entanto, no segundo seguinte, sua expressão voltou a ser a mesma de sempre.

Assim que chegou em casa, Zélia pegou as malas e começou a arrumar suas coisas em definitivo. Durante as refeições, era inevitável ouvir João e Agatha comentando sobre os passos de Lucas.

— Ouvi dizer que o Lucas alugou um parque de diversões inteiro por três dias só para comemorar o aniversário da Juliana. As rosas vieram de avião da Espanha. Ele realmente caprichou dessa vez. — Comentou Agatha, admirada.

— Pois é, e dias atrás ele a levou para conhecer o Sr. Luiz na antiga mansão. O próprio Lucas comprou umas antiguidades raríssimas e disse que era presente da garota. O velho ficou radiante, não parava de elogiar a Juliana. — Completou João.

Toda vez que o assunto recaía sobre a família Neves, Zélia optava pelo silêncio absoluto. Embora, de vez em quando, seu coração ainda desse um pequeno solavanco, a dor aguda e cortante já não a visitava mais.

Ela se fechou em seu próprio mundo, recusando qualquer convite para festas ou jantares onde houvesse o risco de esbarrar com ele. Em algumas madrugadas, Lucas enchia a cara e, fingindo que nada havia acontecido, mandava mensagens pedindo que ela fosse buscá-lo. Ela ignorou todas as tentativas.

O pessoal do convívio deles, movido pelo álcool e pela curiosidade, volta e meia tocava no assunto.

— Lucas, cadê aquela sua amiga de infância? Por que ela não anda mais atrás de você como antes?

Ele dava de ombros, esbanjando indiferença em cada palavra.

— Está fazendo birra comigo por uma bobagem. Deixa para lá, daqui a pouco ela esquece e volta ao normal.

O tempo passou e o tal "normal" nunca retornou. Zélia continuou sem dar sinal de vida, até chegar ao ponto de não visualizar mais as mensagens.

Na véspera de seu aniversário, perdendo a pouca paciência que lhe restava, Lucas enviou um convite digital direto para o e-mail dela. Dessa vez, Zélia finalmente respondeu, enviando apenas duas palavras.

[Não vou.]
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