Já era noite quando Zélia pegou o celular, abriu o aplicativo de viagens e finalizou a compra de uma passagem de avião de São Paulo direto para a Espanha. No momento em que ela concluiu o pagamento, a porta do quarto se abriu e Lucas entrou acompanhado de Juliana.
— Zélia, viemos trazer a melhor notícia de todas! A Juliana aceitou namorar comigo. Sou ou não sou um amigão por vir te contar em primeira mão? — Disse ele, levantando as mãos entrelaçadas dos dois.
Zélia olhou para as mãos unidas e confirmou com a cabeça, respondendo com uma voz monótona:
— Meus parabéns.
Juliana irradiava felicidade e deu um sorriso tímido.
— Muito obrigada. A sua mãe comentou que os seus machucados foram muito graves, você já se sente um pouco melhor? Preparei uma sopa de peixe e trouxe para você provar.
Enquanto falava, Juliana indicou a vasilha para que Lucas servisse a refeição. Ele obedeceu de pronto, pegando as coisas com carinho.
Ao ver a obediência cega dele, Zélia demorou um instante para processar a cena antes de recusar.
— Agradeço a gentileza, mas eu dispenso a sopa.
A rejeição fez a expressão de Lucas fechar na mesma hora. Ele a encarou com o rosto carregado de irritação.
— A Juliana teve o trabalho de cozinhar essa sopa com as próprias mãos. Eu nem queria dividir com você, mas ela insistiu em trazer por se preocupar com a sua saúde e eu acabei cedendo. Como você consegue ser tão ingrata?
Ignorando os limites de Zélia, ele encheu uma tigela com a sopa quente e tentou empurrá-la para as mãos dela, exigindo que tomasse tudo. Ela tentou se afastar para explicar, mas Lucas agarrou seu pulso com força. O solavanco desequilibrou a tigela, e a sopa fervente caiu direto sobre os cortes expostos.
— Ah! — Zélia soltou um grito sofrido, encolhendo os ombros enquanto o suor frio tomava conta de sua testa e deixava seu rosto sem cor.
Juliana tomou um susto enorme. Com o rosto tomado pela culpa, puxou alguns lenços de papel para tentar limpar a pele de Zélia.
Temendo que a namorada se queimasse, Lucas a puxou para trás e a escondeu com o próprio corpo.
— Deixa isso pra lá, Juliana, a culpa não foi sua. A Zélia sempre foi resistente desde criança, ela aguenta qualquer coisa. Não fique se culpando à toa.
A mão de Zélia tremeu ao segurar os lenços manchados. O peito apertou em pura sufocação. No instante seguinte, João entrou no quarto. Ao ver o sangue vazando fresco das ataduras, se desesperou e correu para chamar a enfermeira. Agatha sentiu o coração quebrar ao ver o estado da filha, mas fez um esforço colossal para manter a educação enquanto afastava os restos da comida.
— Juliana, a Zélia tem uma alergia muito grave a frutos do mar e a peixe. Reconhecemos de coração a sua boa intenção, mas ela não pode comer isso.
Lucas ficou travado no lugar, com a coloração do rosto sumindo aos poucos.
— E por que você não me avisou logo de uma vez? — Cobrou ele.
Encarando a gaze branca tingida de vermelho, Zélia engoliu o nó na garganta.
"No passado, ele lembrava de cor todas as minhas restrições", pensou ela. "Todas as vezes que saíamos para comer, ele fazia questão de reforçar com o garçom que meu prato não podia ter frutos do mar, cebola ou coentro. Agora que a Juliana tomou conta do seu mundo, essas pequenas coisas deixaram de importar. O coração humano é pequeno, abriga apenas uma pessoa por vez. Ele havia escolhido a quem abrigar."
O silêncio esmagador dominou o espaço por vários minutos, até ela reunir força suficiente para rebater com um sorriso triste:
— Você não me deu sequer um segundo para abrir a boca.
O clima ficou pesado e fúnebre. Juliana estava a ponto de desabar em lágrimas por causa do remorso. Incapaz de ver a namorada sofrer, Lucas optou por não falar mais nada. Agarrou a mão dela e a tirou dali às pressas.
Devido à infecção nas feridas, Zélia precisou ficar internada por mais três dias. Como a data da mudança de país se aproximava a passos largos, a casa da família Silva virou uma bagunça de malas e caixas por todos os cantos. Com João e Agatha atolados na organização, sobrou para Zélia levar um presente caprichado de despedida até a casa da família Neves.
Assim que ela cruzou a soleira da porta, Hélio e Lara se aproximaram e começaram a pedir desculpas sem parar.
— Zélia, nos perdoe do fundo do coração. Você e o nosso filho têm anos de amizade e, num momento tão assustador como aquele acidente, ele só pensou na Juliana e te deixou largada. Por causa dele você sofreu lesões absurdas. Estamos com a consciência pesada e te prometemos que ele vai te pedir desculpas por isso.
Zélia balançou a cabeça de forma branda e tratou de acalmar os ânimos do casal.
— A Srta. Juliana é namorada dele, é o dever dele protegê-la. Graças a Deus eu me recuperei e o pior não aconteceu. Vocês não precisam ficar remoendo esse assunto.
Notando que a jovem não guardava mágoas, Hélio e Lara se sentiram mais aliviados. Os três conversaram sobre amenidades por algum tempo, até que Zélia tocou no assunto principal da visita e revelou os planos de imigração. A notícia caiu como uma bomba, deixando os dois chocados no meio da sala.
— Mas que decisão repentina! — Hélio se espantou.
— Houve uma reestruturação na empresa do meu pai. — Explicou Zélia. — Na verdade, os preparativos começaram há mais de seis meses, mas a confirmação final chegou só agora. Meus pais fizeram questão que eu viesse me despedir em nome deles.
Perceber que perderiam a convivência dos vizinhos e amigos de longa data entristeceu Hélio e Lara. A voz da mulher carregava saudade antecipada quando perguntou:
— E vocês pretendem voltar para nos visitar algum dia?
Zélia abriu um sorriso sereno. Suas palavras ecoaram com absoluta clareza na sala silenciosa:
— Quando formos embora desta vez, não voltaremos nunca mais.
Bem naquela hora, a maçaneta girou. Lucas empurrou a porta da frente, fechou o rosto ao escutar o fim do diálogo e disparou:
— Quem é que não volta nunca mais?