Capítulo 2
Na manhã seguinte, o som incessante das notificações do celular despertou Zélia de um sono agitado. Lucas havia bombardeado seu aplicativo de mensagens com dezenas de recados, exigindo saber que horas ela chegaria.

Um gosto amargo tomou conta da sua boca enquanto ela encarava a tela iluminada.

"Lucas, se você ao menos tivesse a decência de perceber o quão cruel está sendo agora", pensou ela, sentindo o peito apertar. Com as mãos trêmulas, digitou uma resposta curta e enviou.

[Não estou me sentindo bem hoje. Não vou.]

Poucos minutos depois, batidas apressadas ecoaram na porta do quarto. João e Agatha entraram, já com expressões de reprovação estampadas no rosto.

— Zélia, mesmo que vocês dois tenham brigado, essa não é a hora para birras. — Repreendeu Agatha, cruzando os braços. — Vá se trocar logo e vamos para a casa da família Neves. Você sabe muito bem o quanto o Lucas está levando esse encontro a sério. Ele é apaixonado por essa Juliana há anos. Assim que soube que ela tinha voltado para o Brasil, implorou pro seu pai para ajeitar as coisas.

— É verdade, filha. — Concordou João, sentando-se na beira da cama. — A Juliana foi minha aluna de piano no passado. Eu precisei ir lá em pessoa para convencer a família dela a aceitar esse jantar. Preparamos tudo com o maior cuidado, desde os presentes até o cardápio, para que a noite seja impecável. Chamamos você com o propósito de quebrar o gelo. Com outra garota da mesma idade por perto, a Juliana vai ficar mais à vontade. O Lucas está louco de amores por ela. Vocês são tão amigos, como você tem coragem de virar as costas para ele logo agora?

A audácia daquele homem era um absurdo. Ao ver que ela estava resistindo, ele teve a coragem de envolver os pais dela na história.

Diante da insistência e dos olhares cheios de expectativa dos pais, Zélia engoliu seco, segurando as lágrimas que ameaçavam cair, e foi se arrumar.

As duas casas ficavam no mesmo condomínio, a uma curta distância a pé. Dez minutos depois, ela já estava parada diante da porta da família Neves. Por puro hábito, abriu a sapateira no hall de entrada, mas o espaço familiar estava vazio. Suas pantufas de coelhinho não estavam lá. Ela procurou pelas prateleiras, confusa, até que seus olhos bateram na lixeira grande do lado de fora da casa. Lá dentro, misturadas ao lixo, estavam as pantufas. E não apenas elas. Sua escova de dentes, a caneca que adorava usar, a toalha macia, um pijama velho... Todas as suas coisas haviam sido descartadas como lixo.

— Srta. Zélia, foi o Sr. Lucas quem jogou essas coisas fora mais cedo. — Avisou a governanta, aproximando-se com um olhar de pena. — Pode colocar essas proteções plásticas por cima dos sapatos por enquanto.

Encarando o fundo da lixeira, Zélia ficou estática por um longo tempo, sentindo um vazio tomar conta do seu peito.

As duas famílias eram amigas há gerações, compartilhando festas e o dia a dia. Por causa dessa intimidade, ela vivia na casa dos Neves, passando as tardes e até dormindo por lá com frequência.

Lucas sempre fez questão de manter um quarto de hóspedes exclusivo para ela, recheado com tudo o que precisava, sempre escolhendo as estampas de coelhinho que ela tanto amava. Ele costumava abraçá-la e dizer, com um sorriso largo, que aquela também era a casa dela e que não precisava de cerimônias.

Atrás das portas fechadas, longe dos olhos dos pais, eles viviam um romance ardente. Trocavam beijos na varanda, entrelaçavam os dedos por debaixo da mesa de jantar e faziam amor em segredo no escritório.

Mas os tempos haviam mudado. Com o retorno de Juliana, a garota por quem ele suspirava, o medo de ser mal interpretado falou mais alto. E a primeira providência de Lucas foi apagar qualquer sinal da presença de Zélia, jogando a intimidade dos dois no lixo.

Ela precisou de alguns instantes para respirar fundo e recuperar a postura antes de calçar as proteções de plástico e entrar. Ao pisar na sala de estar, viu Lucas sentado ao lado de Juliana, descascando uma maçã para ela enquanto os dois conversavam aos risos.

Ele vestia um terno de alfaiataria feito sob medida, com o cabelo arrumado com cuidado e exalando um perfume caro. Toda aquela produção lhe dava um ar de executivo charmoso, mas inacessível.

Na época do colégio, era comum ver as garotas comentando que Lucas ficaria lindo vestindo qualquer trapo. Se ele se arrumasse um pouco, ofuscaria os galãs da televisão. No entanto, ele sempre foi um cara despojado, que andava de bermuda e camiseta e detestava frescuras.

"Então é assim que um homem age quando quer impressionar a mulher que ama?", Zélia se indagou, em um misto de decepção e amargura.

O mesmo homem que na noite anterior a apertava contra os lençóis da cama, agora agia com distanciamento. Ele apenas lançou um olhar rápido na direção da porta e voltou toda a sua atenção para Juliana. Os dois engataram em uma conversa sem fim, pulando de interesses em comum para o clima, do trabalho para marcas de joias, até chegarem às memórias da infância e aos dias de escola.

Observando o esforço de Lucas para manter o papo vivo, Zélia baixou os olhos, soltando um riso abafado. Era duro admitir que, perante uma paixão autêntica, ele podia ser um homem tão atencioso.

— Era muito curioso na época do ensino médio. — Comentou Juliana, ajeitando uma mecha de cabelo com um sorriso. — Eu estava um ano na sua frente, nossas salas ficavam em prédios diferentes, mas a gente esbarrava um no outro o tempo todo no recreio. Acho que era o destino conspirando a nosso favor.

Ouvindo aquilo, Zélia notou as orelhas de Lucas ficarem vermelhas. Ela sorriu, mas sem qualquer pingo de alegria.

"Destino? Tudo não passava de um plano armado por ele para cruzar o seu caminho.", pensou Zélia, lembrando das inúmeras vezes em que precisou correr atrás dele pelo colégio, testemunhando todo aquele esforço desesperado para chamar a atenção da garota mais velha.

Quando Juliana se mudou para o exterior, Zélia teve a falsa ilusão de que o caminho estava livre e que teria o coração de Lucas. Mas a noite de hoje provava o contrário: quem havia vencido era Juliana.

Ela estava perdida em seus pensamentos amargos quando levou um susto ao ouvir o próprio nome.

— O pessoal da escola comentava bastante que você tinha uma vizinha que não saía do seu pé. Era você, Zélia? — Perguntou Juliana, com um tom de voz carregado de curiosidade investigativa, sem disfarçar o olhar calculista.

Pega de surpresa, Zélia ergueu a cabeça e encontrou os olhos da outra mulher. Antes de ter a chance de responder, Hélio e Lara, os pais de Lucas, entraram na sala com risadas soltas e tomaram as rédeas da conversa.

— Oh, esses dois não se desgrudavam por nada neste mundo! Brincavam na terra juntos, dividiam tudo... Nós até brincávamos de arranjar um casamento para os dois quando crescessem... — Comentou Lara, ignorando o clima pesado.

A expressão descontraída de Lucas desapareceu em um instante, dando lugar a um semblante fechado. Ele cortou a fala da mãe sem pudor:

— Pelo amor de Deus, mãe, pare de inventar histórias. Não existe a menor possibilidade de eu me interessar por ela. A Zélia é a última pessoa no mundo por quem eu me apaixonaria.

A rejeição brutal doeu. Zélia baixou a cabeça para esconder a decepção nos olhos e forçou os lábios a formarem um sorriso artificial, erguendo o rosto em seguida para encarar a roda de conversa.

— Eu digo o mesmo. — Concordou ela, mantendo o tom de voz firme. — Jamais namoraria alguém como o Lucas.

Por uma fração de segundo, o rosto de Lucas travou. Ele disfarçou o incômodo, esticou o braço e puxou Zélia para um abraço de lado, apertando o ombro dela como se fossem parceiros de bar.

— Viu só? A garota tem razão! Nossa amizade é coisa de irmão, zero romance na parada. — Disse ele, forçando uma risada.

A tensão na sala evaporou e os risos voltaram a ecoar. Zélia acompanhou as risadas dos adultos, até que sentiu o hálito de Lucas roçar no seu ouvido, em um sussurro aliviado.

— Mandou bem nessa, valeu por cobrir a minha barra com ela.

Ela não respondeu. De forma sutil, deu dois passos para trás, desvencilhando-se do toque dele e criando um espaço físico que refletia o abismo entre eles.

"Cobrir a sua barra?", pensou Zélia, deixando um suspiro triste escapar.

Ele não poderia estar mais errado. Cada palavra dita por ela era a mais pura verdade.
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