O silêncio da casa naquela noite era diferente de todos os outros.
Não carregava tensão, nem expectativa. Era um silêncio cheio, amadurecido, como se cada canto soubesse exatamente o que estava sendo guardado ali dentro. Júlia percebeu isso enquanto caminhava descalça pelo corredor, sentindo o chão frio sob os pés e o coração aquecido por algo que não tinha nome, mas tinha peso.
Daniel estava no escritório improvisado, sentado diante da mesa, papéis espalhados, o rosto sério demais para aquela hora. Júlia encostou na porta sem fazer barulho e o observou por alguns segundos. Ele parecia distante, mas não ausente. Pensativo, não fechado.
— Você vai furar um buraco na mesa se continuar olhando assim — ela comentou, quebrando o silêncio.
Daniel ergueu o olhar e sorriu, cansado.
— Estou tentando organizar coisas que não cabem em planilhas — respondeu.
Ela se aproximou e sentou na quina da mesa, cruzando as pernas.
— Isso costuma ser perigoso.
— É — ele concordou. — Mas inevitável.
Júlia in