Mundo de ficçãoIniciar sessãoA chuva caía sobre a propriedade, cobrindo os jardins da mansão com um véu prateado.
Do lado de dentro, o silêncio era absoluto.
Vincenzo permaneceu diante da janela do escritório, segurando um copo de uísque intacto. Não havia bebido um único gole.
Seu olhar estava perdido na escuridão.
Não porque se importasse com a garota.
Mas porque odiava perguntas sem respostas.
Laura Bianchi.
Uma simples camareira.
Uma mulher comum que, por um acaso infeliz, cruzara o caminho do homem mais perigoso da Itália.
Ela deveria estar morta.
Era o procedimento.
Era a regra.
Testemunhas não sobreviviam.
Nunca.
Então por que ainda respirava?
A resposta era simples.
Porque Vincenzo ainda não havia decidido o que fazer com ela.
Enquanto existisse a menor possibilidade de aquela garota ter sido colocada em seu caminho por algum inimigo, ela permaneceria viva.
Sob vigilância.
Até que deixasse de ser útil.
Ou até que se tornasse uma ameaça.
Ele não cometia erros.
Muito menos confiava em coincidências.
Coincidências costumavam esconder traições.
E traições eram punidas com sangue.
Três batidas secas interromperam seus pensamentos.
— Entre.
Matteo entrou no escritório.
— Don.
— Fale.
— A garota foi instalada no quarto.
Vincenzo continuou olhando pela janela.
— Tentou fugir?
— Não.
— Gritou?
— Não.
— Criou problemas?
— Também não.
O silêncio durou alguns segundos.
— Está fazendo o quê?
Matteo respondeu sem hesitar.
— Sentada perto da janela.
Não falou com ninguém desde que chegou.
Vincenzo permaneceu impassível.
— Comeu?
— Recusou a comida.
— Água?
— Também não.
Seu maxilar enrijeceu discretamente.
— Então pretende morrer de fome?
— Não sei dizer, Don.
— Ela apenas pediu para telefonar para a mãe.
Vincenzo soltou um sorriso quase imperceptível.
Um sorriso frio.
Sem qualquer traço de humor.
— Ainda acredita que está em posição de fazer pedidos.
Matteo permaneceu em silêncio.
Conhecia o suficiente seu chefe para não comentar nada.
Depois de alguns segundos, Vincenzo falou novamente.
— Que continue sem telefone.
— Sim, Don.
— E aumente a vigilância.
Quero dois homens em cada corredor.
Ninguém entra.
Ninguém sai.
Matteo assentiu.
— Entendido.
Antes de sair, hesitou por um instante.
— Don... acredita que ela esteja mentindo?
Vincenzo finalmente desviou os olhos da janela.
Seu olhar era duro.
Frio.
Calculista.
— Não importa.
Matteo franziu discretamente a testa.
— Senhor?
— Verdade ou mentira produzem o mesmo resultado.
Ela viu meu rosto.
Conhece minha identidade.
Isso já basta para condená-la.
Fez-se um breve silêncio.
Então ele concluiu:
— A única razão para Laura Bianchi ainda estar viva é porque eu ainda não terminei de descobrir quem ela realmente é.
Quando Matteo deixou o escritório, Vincenzo caminhou lentamente até a mesa.
Abriu novamente a pasta com o relatório.
Observou a fotografia da jovem durante alguns segundos.
Depois fechou a pasta com força.
Aquilo já estava durando tempo demais.
Ele não gostava de assuntos inacabados.
Pegou o paletó sobre a cadeira e saiu do escritório.
Seus passos firmes ecoaram pelos corredores da mansão.
Não pretendia confortá-la.
Não pretendia tranquilizá-la.
Queria apenas olhar em seus olhos mais uma vez.
O medo costumava revelar aquilo que nenhuma investigação era capaz de encontrar.
E, se Laura estivesse escondendo alguma coisa...
Ele descobriria naquela mesma noite.
Os passos de Vincenzo ecoavam pelo longo corredor de mármore.
Firmes.
Precisos.
Nenhum empregado ousava levantar a cabeça quando ele passava.Naquela casa, todos conheciam a regra.
Olhar demais para o Don podia ser interpretado como um desafio.
Ao chegar ao segundo andar, dois homens faziam guarda diante da porta do quarto.
Assim que o viram, endireitaram a postura.
— Don.
Vincenzo apenas fez um discreto movimento com a cabeça.
— Abram.
Um dos seguranças girou lentamente a maçaneta.
O quarto era amplo.A iluminação suave deixava o ambiente aconchegante, mas Laura parecia incapaz de perceber qualquer beleza ao seu redor.
Ela permanecia sentada diante da janela. As mãos entrelaçadas sobre o colo.
O olhar perdido na chuva que caía sobre os jardins.Nem sequer percebeu quando a porta foi aberta.
Vincenzo entrou.Os seguranças permaneceram do lado de fora.
O silêncio tomou conta do quarto.Somente quando ouviu o som da porta se fechando, Laura virou lentamente o rosto.
Assim que seus olhos encontraram os dele, seu corpo inteiro enrijeceu.
Ela se levantou imediatamente.Instintivamente, deu dois passos para trás. Até que suas pernas tocaram a beirada da cama.
Não havia para onde fugir.Vincenzo caminhou sem pressa.
Parou a poucos metros dela. Seus olhos cinzentos percorreram cada detalhe de seu rosto.
As olheiras provocadas pelo choro. Os lábios trêmulos.
As mãos apertadas uma contra a outra na tentativa inútil de esconder o medo.
Ela não havia comido.Era evidente.
Mesmo assim, permanecia de pé.
Tentando demonstrar uma coragem que claramente não possuía.
— Está recusando comida. Sua voz era calma.
Controlada.Laura baixou os olhos.
— Eu... não consigo.
— Não perguntei se consegue.
Perguntei por que recusou.
Ela engoliu em seco.
— Não estou com fome.
Vincenzo permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Depois deu mais um passo.A distância entre os dois tornou-se mínima.
— Está mentindo.
Laura ergueu os olhos imediatamente.
— Eu...
— Pessoas assustadas deixam de sentir fome por algum tempo.
Mas o corpo continua precisando de alimento.
Você sabe disso.Ela permaneceu calada.
Ele continuou observando cada reação.
Cada movimento.Cada alteração em sua respiração.
Era assim que interrogava seus inimigos.
Sem elevar a voz. Sem ameaças desnecessárias.
O silêncio costumava quebrar qualquer resistência.
— Você pediu um telefone.
Laura respirou fundo.
— Minha mãe deve estar desesperada.
— Não perguntei isso.
Ela abaixou novamente a cabeça.
— Sim... eu pedi.
Vincenzo cruzou as mãos atrás do corpo.
— Diga-me uma coisa.
Ela permaneceu imóvel.
— Se eu permitir que fale com sua mãe... Seus olhos voltaram a encontrá-la.
— O que vai dizer?
Laura demorou alguns segundos para responder.
— Que estou bem.
— Apenas isso?
Ela assentiu.
— Não contaria onde está?
— Não.
— Nem diria quem a trouxe?
— Não.
Ele a encarou por longos segundos.
Seu rosto não demonstrava absolutamente nada. Era impossível saber se acreditava nela. Ou se já havia decidido sua sentença.
— Levante a cabeça. Laura obedeceu imediatamente.
— Olhe para mim. Ela respirou fundo antes de erguer completamente o rosto.
As lágrimas voltaram a encher seus olhos.Vincenzo sustentou aquele olhar.
Não encontrou desafio.
Não encontrou mentira.Encontrou apenas medo.
Um medo puro.Cru, quase sufocante.Aquilo o incomodou.
Não porque despertasse compaixão.Mas porque pessoas assim eram difíceis de prever.
Quem não tinha ambição podia tomar decisões irracionais.
E decisões irracionais representavam risco.
— Escute com atenção!
Sua voz tornou-se ainda mais fria.
— Enquanto eu não descobrir por que estava naquele corredor, sua vida pertence a mim.
Laura empalideceu.
— Cada respiração.
Cada passo.
Cada palavra que sair da sua boca dependerá da minha vontade.
Ela sentiu as pernas enfraquecerem.
Mesmo assim, permaneceu em pé.
— Se colaborar, continuará viva.
Ele fez uma breve pausa.
— Se eu descobrir uma única mentira...
Outra pausa.
Seu olhar endureceu.
— Não haverá uma segunda conversa.
Sem esperar qualquer resposta, Vincenzo deu as costas.
Já havia conseguido o que queria.
Observá-la de perto.
Medir suas reações.
Antes de abrir a porta, falou sem sequer olhar para trás.
— Coma.
Laura permaneceu imóvel.
— Isso é uma ordem.
A porta se fechou logo em seguida.
O silêncio voltou a dominar o quarto.
Laura permaneceu parada, olhando para a porta por longos segundos.
Seu coração ainda batia descompassado.
Ela compreendeu uma coisa.
Vincenzo Moretti não era um homem impulsivo.
Era muito pior.
Era paciente.
E homens pacientes eram os mais perigosos de todos.







