Mundo de ficçãoIniciar sessãoLaura não conseguiu se mover.
Seu corpo enrijeceu por completo, como se todo o calor tivesse abandonado seus membros em um único instante. O ar tornou-se pesado demais para entrar em seus pulmões, e seu coração batia com tanta força que ela podia ouvi-lo ecoando dentro do peito.
Os olhos cinzentos daquele homem permaneciam fixos nos seus.
Havia algo neles que a paralisava. Não era apenas medo. Era a certeza de que ele era capaz de decidir sobre a vida e a morte de alguém com a mesma serenidade de quem escolhia um vinho para acompanhar o jantar.
O silêncio que se instalou no corredor pareceu interminável.
Ninguém ousava respirar alto.
Então, Vincenzo inclinou levemente a cabeça e, sem alterar a expressão impassível, deu a ordem em um tom baixo, firme e inquestionável:
— Tragam a moça.
Como se já estivessem esperando por aquele comando, dois homens surgiram das sombras do corredor.
Laura despertou do estado de choque.
O instinto de sobrevivência falou mais alto.
Sem pensar, virou-se e saiu correndo.
Os saltos batiam desesperadamente contra o piso de mármore do hotel, espalhando ecos pelo corredor vazio. As lágrimas começaram a embaçar sua visão, enquanto sua respiração se tornava cada vez mais irregular.
Ela só conseguia pensar em uma pessoa.
Sua mãe.
"Preciso voltar para casa... ela está me esperando."
A saída de emergência estava a poucos metros.
Ela estendeu a mão para alcançar a maçaneta.
Mas não conseguiu.
Uma mão forte segurou seu braço com firmeza.
Laura soltou um grito, ou tentou.
Outra mão cobriu sua boca antes que qualquer som escapasse.
Desesperada, ela começou a lutar.
Debatia-se sem medir forças, acertando o cotovelo no peito de um dos homens. Em seguida, chutou sua canela com toda a força que possuía e, quando teve uma pequena oportunidade, mordeu violentamente a mão que a segurava.
— Droga! — praguejou o segurança, soltando-a por reflexo.
Foi o suficiente, Laura escapou.
Voltou a correr pelo corredor, ignorando as dores nas pernas e a falta de ar.
Talvez ainda houvesse uma chance.
Talvez conseguisse sair dali.
Mas a esperança durou apenas alguns segundos.
A dobrar o corredor, colidiu contra alguém.
O impacto fez seu corpo perder o equilíbrio.
Antes que caísse, dois braços fortes a seguraram.
Ela ergueu lentamente o rosto. Seu coração pareceu parar.
Vincenzo.
De perto, sua presença era ainda mais intimidadora.
O terno italiano perfeitamente ajustado ao corpo, a postura elegante e imponente, o perfume discreto e sofisticado... tudo nele transmitia poder.
Mas era seu olhar que realmente assustava.
Frio.
Calculista.
Impenetrável.
Como se fosse incapaz de sentir qualquer emoção.
Laura percebeu que ele a observava atentamente.
Não havia pressa.
Era como se analisasse cada detalhe dela.
Os cabelos negros haviam escapado parcialmente do coque, caindo em ondas suaves sobre seus ombros. Algumas mechas moldavam seu rosto delicado, agora banhado por lágrimas que ela sequer percebia continuar derramando.
Ela era bonita.
Não da beleza exuberante das mulheres que costumavam cercar homens como Vincenzo.
Sua beleza era diferente.
Suave.
Natural.
Delicada.
Daquelas que chamavam atenção justamente por não fazerem esforço algum para isso.
Sem desviar os olhos, Vincenzo ergueu uma das mãos e segurou delicadamente seu queixo.
Laura estremeceu.
— Olhe para mim.
Ela tentou virar o rosto.Os dedos dele apertaram levemente sua mandíbula.Não havia brutalidade no gesto.
Mas também não havia espaço para desobediência.
Ela foi obrigada a encará-lo.
— Como se chama?
Laura precisou de alguns segundos para encontrar a própria voz.
— L... Laura.
Ele continuou olhando para ela.
— Sobrenome.
— Bianchi.
Vincenzo repetiu aquele nome mentalmente.Laura Bianchi.
Um de seus homens aproximou-se discretamente.
— Don... quer que eu resolva isso?
Laura não precisou perguntar o significado daquelas palavras.
Ela compreendeu imediatamente.
Seu corpo inteiro começou a tremer.
As lágrimas voltaram a cair com ainda mais intensidade.
— Por favor... — implorou, com a voz quebrada pelo desespero. — Eu não vou contar para ninguém... eu juro.
Vincenzo permaneceu em silêncio.Seu olhar continuava fixo nela.
Depois deu um passo à frente, diminuindo ainda mais a distância entre os dois.
— Você viu demais.
— Foi sem querer...
— Ainda assim viu.
Laura fechou os olhos por um instante, tentando controlar o choro.
Quando voltou a falar, sua voz saiu quase em um sussurro.
— Eu só queria ir embora... minha mãe está doente... ela depende de mim...
Pela primeira vez, algo pareceu despertar a atenção de Vincenzo.
Ele arqueou discretamente uma sobrancelha.
— Sua mãe?
Laura assentiu rapidamente.
— Ela tem câncer... eu trabalho aqui para pagar os remédios dela. Se eu desaparecer... ela vai ficar completamente sozinha.
Sua voz falhou no final da frase.
Naquele momento, ela já não implorava por sua própria vida.
Implorava pela vida da mulher que a esperava em casa.
Vincenzo percebeu isso.
E, contra toda lógica, aquela informação despertou sua curiosidade.
No mundo em que vivia, as pessoas suplicavam por si mesmas.
Aquela garota, porém, parecia incapaz de colocar a própria vida acima da da mãe.
Ele soltou lentamente seu queixo e se afastou alguns passos.
O corredor permaneceu mergulhado em um silêncio absoluto.
Seus homens aguardavam a decisão do Don sem ousar pronunciar uma única palavra.
As regras da máfia eram claras.
Quem via demais... morria.
Sempre havia sido assim.Sempre continuaria sendo.
Quebrar aquela regra significava demonstrar fraqueza.
E fraqueza era algo que um homem como Vincenzo jamais poderia permitir.
Após alguns segundos, ele voltou a encará-la.
— Matteo.
— Sim, Don.
_ Quero tudo sobre essa garota.
Sua voz permaneceu fria e controlada.
— Onde mora. Quem frequenta sua casa. Quem são seus vizinhos. Seus amigos. Sua família. Os horários. Cada detalhe da rotina dela.
— Entendido.
Laura sentiu um vazio tomar conta do peito.Ele não pretendia deixá-la partir.
Estava transformando sua vida em uma prisão invisível.
Vincenzo caminhou até ela mais uma vez.
Parou à sua frente.Os olhos cinzentos encontraram os dela.
— Escute com atenção, Laura Bianchi.
Ela mal conseguia respirar.
— A partir deste momento, você estará sob minha vigilância.
Laura franziu a testa, completamente confusa.
— Se tentar fugir... eu a encontrarei.
Sua voz permanecia calma, assustadoramente calma.
— Se contar a alguém o que viu...
Ele fez uma breve pausa.
Quando voltou a falar, cada palavra soou como uma sentença.
— A primeira pessoa a sofrer as consequências será sua mãe.
Laura perdeu completamente as forças.
As pernas fraquejaram.
Se não fosse pelos homens ao seu redor, teria caído no chão.
As lágrimas escorriam livremente por seu rosto.
Ela acreditava em cada palavra que ouvira.
Porque não havia ódio na voz dele.
Nem fúria.
Apenas uma frieza absoluta.
A frieza de quem estava apenas anunciando um destino inevitável.
Vincenzo sustentou seu olhar por mais alguns segundos.
Então desviou os olhos e ajeitou discretamente o punho do paletó.
Sem sequer olhar para trás, deu sua decisão final.
— Levem-na.
Matteo hesitou por um instante.
— Para onde, Don?
Vincenzo continuou caminhando pelo corredor.
Sua resposta veio firme, sem qualquer emoção.
— Para a minha mansão.
Fez uma breve pausa.
E concluiu:
— Viva.
— Por enquanto.







