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Capítulo 03- Prisoneira do don

Laura sentiu o chão desaparecer sob seus pés.

As últimas palavras de Vincenzo ainda ecoavam em sua mente, viva por enquanto.

Era como se sua vida tivesse sido reduzida à vontade de um único homem.

Os seguranças se aproximaram, mas desta vez ela não tentou correr. Sabia que seria inútil.

As pernas mal conseguiam sustentá-la, e o desespero já havia consumido toda a força que restava em seu corpo.

Matteo parou diante dela.

Ao contrário dos outros homens, havia certa discrição em seu semblante.

— Venha.

Laura permaneceu imóvel.

— Eu... eu preciso voltar para casa.

Sua voz saiu quase inaudível.

— Minha mãe...

Matteo desviou o olhar por um instante.

— Não torne isso mais difícil.

Ela sentiu as lágrimas voltarem.

— Ela está sozinha...

Nenhuma resposta veio.

Dois homens abriram caminho até o elevador privativo.

Laura foi conduzida entre eles.

Quando as portas se fecharam, o silêncio tornou-se sufocante.

Ninguém dizia uma palavra.

O elevador começou a descer lentamente.Ela encarava seu reflexo nas portas de aço.

Os cabelos estavam completamente desalinhados.

A maquiagem havia sido destruída pelo choro.

As mãos tremiam tanto que ela precisou escondê-las atrás do corpo.

"Mãe... me perdoa..."

Enquanto isso...

Vincenzo caminhava calmamente pelo último andar do hotel.

Seu passo permanecia firme,controlado.

Como se nada de extraordinário tivesse acontecido.

Ao seu lado, Lorenzo o acompanhava em silêncio.

Foi ele quem rompeu o silêncio.

— Don... vai mesmo levá-la para a mansão?

Vincenzo sequer diminuiu o passo.

— Sim.

— Ela viu apenas alguns segundos.

— Alguns segundos são suficientes.

Lorenzo respirou fundo.

— Os outros chefes podem interpretar isso como fraqueza.

Vincenzo finalmente parou.

Virou-se lentamente.

Seu olhar cinzento encontrou o do homem.

— Você acredita que tomei essa decisão por pena?

Lorenzo abaixou a cabeça imediatamente.

— Não, Don.

— Ótimo.

Vincenzo voltou a caminhar.

— Ela é uma testemunha.

— Então por que não eliminá-la?

O Don permaneceu alguns segundos em silêncio.

Nem ele sabia explicar completamente.

Havia algo naquela garota.

A forma como havia implorado.

Não por si. Mas pela mãe.

Aquilo era incomum.

Quase impossível.

Em seu mundo, todos escolhiam salvar a própria pele.

Laura escolhera outra pessoa. Isso despertava perguntas.

E Vincenzo nunca ignorava perguntas.

Porque respostas podiam significar poder.

O carro preto deixou a garagem do hotel poucos minutos depois.

Laura observava a cidade através da janela.As luzes de Verona passavam rapidamente diante de seus olhos.

Ela conhecia aquelas ruas.Mas, naquela noite, tudo parecia diferente.Distante.Como se jamais voltasse a caminhar por elas.

Tentou memorizar o caminho.Talvez pudesse fugir depois.

Mas logo percebeu que era impossível.Dois carros seguiam à frente.

Outros dois atrás.Era praticamente um comboio.

Ela fechou os olhos. A única imagem que surgia em sua mente era a da mãe.

Sozinha.Esperando que a filha chegasse do trabalho.

Sem imaginar que sua vida havia mudado para sempre.

As lágrimas voltaram a escorrer. Matteo percebeu.

Pegou o celular discretamente.

— Don...

A voz de Vincenzo surgiu do outro lado da ligação.

— Fale.

— Ela está preocupada com a mãe.

Houve alguns segundos de silêncio.

— Descubram quem cuida da senhora Bianchi.

— Sim, Don.

— Se ninguém cuidar...

Outra pausa.

— Providenciem medicamentos e alimentos.

Matteo franziu discretamente a testa.Era uma ordem inesperada.

— Sem que saibam quem enviou.

— Entendido.

Laura ouviu apenas parte da conversa.Não compreendeu tudo.Mas percebeu que haviam mencionado sua mãe.

Olhou imediatamente para Matteo.

— O que vão fazer com ela?

Ele guardou o celular.

— Isso não lhe diz respeito.

— Por favor...

Nenhuma resposta.

Quase uma hora depois...

Os enormes portões de ferro começaram a se abrir lentamente.

Laura prendeu a respiração.A mansão era gigantesca.

Iluminada por dezenas de refletores.Jardins perfeitamente cuidados cercavam toda a propriedade.Fontes de mármore refletiam a luz da lua.

Era um lugar digno de reis.

Mas ela não enxergava beleza alguma.Via apenas uma prisão.

O carro parou diante da entrada principal.Antes mesmo que pudesse reagir, um dos homens abriu a porta.

— Desça.

Laura obedeceu.As pernas ainda tremiam.

Subiu lentamente os degraus de mármore.As enormes portas de madeira se abriram.

Uma mulher de aproximadamente cinquenta anos aguardava na entrada.

Vestia roupas elegantes, mas discretas.Seu semblante transmitia serenidade.

Ela fez uma leve reverência.

— Boa noite, Don.

Vincenzo entregou o paletó a um empregado.

Depois apontou discretamente para Laura.

— Teresa.

— Sim, senhor.

— Ela ficará aqui.

A mulher lançou um rápido olhar para a jovem.

Notou imediatamente os olhos inchados, o rosto pálido e o medo estampado em cada gesto.

Sentiu pena.Mas não demonstrou.

Naquela casa, ninguém questionava as ordens do Don.

Jamais.

— Prepare um quarto.

Teresa assentiu.

— Como desejar.

Vincenzo voltou a olhar para Laura.

Ela continuava parada na entrada, completamente perdida.

— Enquanto estiver nesta casa, seguirá minhas regras.

Sua voz era calma.

Fria.

— Não sairá sem minha autorização.

— Não usará telefone.

— Não fará perguntas sobre meus negócios.

— E nunca tentará fugir.

Laura reuniu coragem para falar.

— Eu... posso telefonar para minha mãe?

O silêncio tomou conta do enorme hall.

Vincenzo a observou durante alguns segundos.

Seu rosto permaneceu impassível.

Então respondeu:

— Amanhã.

Os olhos de Laura se encheram de esperança.

— Eu vou poder falar com ela?

Ele caminhou lentamente até ficar diante dela.

Baixou um pouco a cabeça.

— Se eu estiver satisfeito com seu comportamento.

A esperança desapareceu quase no mesmo instante.

Ela compreendeu.

Até ouvir a voz da própria mãe dependeria da vontade daquele homem.

Vincenzo deu as costas.

Antes de subir a escadaria principal, pronunciou apenas mais uma ordem.

— Teresa...

— Sim, Don.

— Não a deixem sozinha em nenhum momento.

Laura fechou os olhos.

Naquele instante, entendeu a verdade mais cruel de todas.

Ela não era uma convidada.

Não era uma protegida.

Era uma prisioneira.Antes de entrar em seu escritório, Vincenzo permaneceu alguns segundos imóvel diante da enorme janela da biblioteca.

A noite envolvia a propriedade em um silêncio quase absoluto.

Lá fora, a chuva começava a cair sobre os jardins da mansão.

Lentamente.

Constante.

Ele afrouxou o nó da gravata sem desviar os olhos da escuridão.

Sua mente, porém, não estava na reunião que teria dali a pouco.

Nem nos carregamentos que chegariam ao porto na manhã seguinte.

Estava em seu olhar tão inocente, algo diferente do que ele costuma vê.

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