Mundo de ficçãoIniciar sessãoO escritório de Vincenzo ocupava a ala mais reservada da mansão.
As paredes revestidas em madeira escura, as estantes repletas de livros antigos e a iluminação discreta conferiam ao ambiente uma imponência silenciosa. Diante da ampla janela, era possível contemplar os jardins perfeitamente alinhados, agora banhados pela chuva fina que caía sobre Verona.
Vincenzo permaneceu imóvel.
As mãos repousavam atrás do corpo, enquanto seu olhar se perdia na escuridão da noite.
Qualquer pessoa que o visse naquele momento acreditaria que ele estava concentrado nos negócios da família Moretti, nos carregamentos que chegariam ao porto na manhã seguinte ou na reunião com os caporegimes marcada para o amanhecer.
Mas não era nisso que pensava.
Sua mente insistia em voltar para a mesma pessoa.
Laura Bianchi.
Ele fechou os olhos por um breve instante.
A imagem da jovem surgiu com uma nitidez irritante.
Os cabelos negros parcialmente soltos, o rosto banhado em lágrimas e aqueles olhos castanhos cheios de pavor, mas que, ainda assim, encontraram forças para implorar por outra pessoa.
"Minha mãe está doente..."
"Ela depende de mim..."
Vincenzo respirou lentamente.
Aquilo o incomodava.
Durante toda a sua vida, aprendera que o medo revelava a verdadeira natureza das pessoas.
Homens fortes se ajoelhavam diante da morte.
Aliados traíam décadas de lealdade para salvar a própria pele.
Pais abandonavam filhos.
Irmãos vendiam irmãos.
Na máfia, a sobrevivência sempre vinha em primeiro lugar.
Era uma regra.
Uma verdade absoluta.
Laura, porém, havia quebrado essa lógica.
Mesmo acreditando que morreria, não implorara por si.
Seu maior desespero era imaginar a mãe sozinha.
Aquilo não fazia sentido.
Ou talvez fizesse...
Seu pai costumava repetir uma frase que jamais saíra de sua memória.
— Quando encontrar alguém que não age como todo mundo... observe com atenção. Pessoas assim costumam ser mais perigosas do que qualquer inimigo.
Na juventude, Vincenzo acreditava que o velho Don se referia aos rivais.
Agora começava a enxergar outro significado naquelas palavras.
Pessoas diferentes eram imprevisíveis.
E tudo o que era imprevisível representava um risco.
Ele passou a mão pelo maxilar, incomodado consigo mesmo.
Era apenas uma testemunha.
Nada mais.
Assim que tivesse certeza de que ela não oferecia perigo para a organização, decidiria seu destino.
Sempre fora assim.
Sempre seria.
Então por que aquela decisão parecia, pela primeira vez em muitos anos, menos simples do que deveria?
Três batidas discretas interromperam seus pensamentos.
— Entre.
A porta se abriu.
Matteo entrou carregando uma pasta de couro escura.
Parou diante da mesa e fez uma breve reverência.
— Don.
Vincenzo caminhou até a poltrona atrás da escrivaninha.
Sentou-se calmamente.
Seu rosto já havia recuperado a costumeira expressão fria.
Nenhum traço da inquietação que o acompanhara nos últimos minutos permanecia visível.
— O relatório.
Matteo colocou a pasta sobre a mesa.
— Nossos homens trabalharam durante toda a noite.
Vincenzo abriu a primeira página.
No topo, uma fotografia de Laura.
Ela sorria.
Provavelmente fora tirada muito antes da doença da mãe.
Era um sorriso discreto.
Sincero.
Ele desviou os olhos da imagem e começou a ler.
— Laura Bianchi. Vinte e dois anos. Solteira. Funcionária do Hotel Bellavista há um ano e onze meses.
Matteo permaneceu em silêncio enquanto o Don analisava cada linha.
— Mora em uma casa simples nos arredores de Verona.
— Vive apenas com a mãe, Elena Bianchi.
— O pai morreu há oito anos em um acidente de trabalho.
Vincenzo virou a página.
Havia cópias de prontuários médicos.
Receitas.
Notas fiscais.
Comprovantes de pagamento.
Tudo cuidadosamente organizado.
— Confirmamos o diagnóstico da senhora Elena — informou Matteo. — Câncer de pulmão em estágio avançado.
Os olhos cinzentos de Vincenzo percorreram lentamente os documentos.
Não havia mentira alguma.
Laura realmente gastava quase todo o salário com medicamentos.
Fazia horas extras sempre que podia.
Renunciava aos próprios desejos para manter a mãe em tratamento.
Ele continuou folheando a pasta.
Não encontrou dívidas com agiotas.
Não encontrou passagens pela polícia.
Não encontrou envolvimento com drogas.
Nem qualquer ligação com organizações criminosas.
— Amigos? — perguntou sem erguer os olhos.
— Poucos.
— Algum namorado?
— Nenhum.
— Costuma sair?
— Apenas para trabalhar, fazer compras ou acompanhar a mãe às consultas médicas.
O silêncio voltou a dominar o escritório.
Quanto mais informações surgiam, mais Laura parecia exatamente o que demonstrava ser.
Uma jovem comum.
Honesta.
Trabalhadora.
Com uma vida simples e dificuldades maiores do que a própria idade deveria suportar.
Aquilo o irritava.
Seria muito mais fácil se ela escondesse algum segredo.
Se tivesse mentido.
Se houvesse qualquer motivo para condená-la.
Mas não havia.
Vincenzo fechou lentamente a pasta.
Seu olhar tornou-se distante.
Naquela noite, ao vê-la correr desesperada pelos corredores do hotel, acreditou estar diante de mais uma mulher tentando manipular sua compaixão.
Agora percebia que ela sequer havia tentado convencê-lo.
Apenas dissera a verdade.
E isso era raro.
Muito raro.
Matteo observou o chefe por alguns instantes antes de quebrar o silêncio.
— Don... quais são suas ordens?
Vincenzo ergueu lentamente os olhos.
Toda a hesitação desapareceu.
Em seu lugar, restava apenas a frieza que fazia dele um dos homens mais temidos da Itália.
— Mantenham a vigilância.
A voz saiu firme.
Controlada.
— Quero saber absolutamente tudo sobre Laura Bianchi.
Cada passo.
Cada ligação.
Cada pessoa que se aproximar dela.
Cada lugar que frequentou antes de entrar naquele hotel.
Se existe algo escondido...
Eu vou descobrir.
— Sim, Don.
Matteo recolheu a pasta e deixou o escritório.
Assim que a porta se fechou, o silêncio voltou a tomar conta do ambiente.
Vincenzo levantou-se novamente.
Caminhou até a janela.
Seu olhar percorreu a mansão até encontrar uma única luz acesa no segundo andar.
O quarto onde Teresa havia acomodado Laura.
Permaneceu observando aquela janela por longos segundos.
Sem perceber, sua curiosidade tornava-se cada vez mais intensa.
E havia uma única coisa que Vincenzo Moretti odiava acima de qualquer outra.
Perder o controle sobre os próprios pensamentos.
Ninguém pode ser tão bom, isso não existe, como poderia existir alguém assim.
Quem de fato é Laura Bianchi, e porquê ela estava o intrigando tanto.







