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Capítulo 7 — Portas Também Aparecem em Sonhos

Marco

Eu não sonho.

Ou pelo menos é isso que repito há anos, porque chamar aquilo de sonho sempre pareceu gentil demais para algo que vem em pedaços, sem lógica, sem começo nem fim, como tudo o que eu faço questão de manter fora da luz.

O que acontece comigo à noite não constrói histórias. Não tem enredo, não tem sentido. São fragmentos. Sensações. Ruídos. Como se o passado tivesse aprendido a se infiltrar nos momentos em que minha vigilância falha.

Naquela noite, veio diferente.

Acordei com o peito apertado, o coração rápido demais, o corpo tenso como se ainda estivesse em movimento. Levei alguns segundos para entender onde estava, a cama grande demais, o teto alto demais, a ausência de qualquer som humano confirmando que eu tinha realmente despertado.

O silêncio da casa era absoluto.

Sentei-me na beira da cama e passei a mão pelo rosto, sentindo a umidade fria da pele, tentando afastar imagens que insistiam em permanecer, contaminadas pelo que tinha acontecido mais cedo naquele corredor.

O som veio primeiro.

Metal se retorcendo.

Vidro se partindo.

Um impacto seco, definitivo.

No pesadelo, minhas mãos apertavam o volante com força inútil, os dedos rígidos demais, o carro não respondia, e então tudo se dividia em dois — o antes e o depois. Nunca havia rostos. Nunca havia gritos. Nunca havia sangue.

Havia portas.

Sempre portas.

Eu corria por um corredor estreito, igual ao da casa, mas interminável, o ar pesado, os passos ecoando de um jeito distorcido, e no final havia sempre uma porta branca, fechada, intacta demais para um lugar onde algo tinha acabado de se perder.

Eu chamava.

Chamava alto demais.

Chamava sem saber nomes.

Ninguém respondia.

Levantei-me e caminhei pelo quarto no escuro, sem acender as luzes, guiado por um impulso antigo demais para ser ignorado. Meus passos me levaram até o corredor antes que eu tivesse tempo de decidir, como se o corpo soubesse o caminho melhor do que a mente.

A porta estava lá.

Exatamente como sempre esteve.

Branca.

Fechada.

Silenciosa.

Parei diante dela, sentindo o frio conhecido subir pela espinha, aquela sensação antiga de estar diante de algo que nunca muda, não importa o quanto o tempo avance. Por um instante, a imagem de Luna se sobrepôs à lembrança antiga — a mão suspensa no ar, os olhos arregalados pelo susto quando ouviu minha voz, a fronteira invisível que ela quase atravessou sem saber.

Coloquei a mão sobre a superfície lisa e fechei os olhos.

— Eu tentei — murmurei, sem saber exatamente para quem.

A lembrança veio em flashes rápidos demais para organizar.

Uma discussão que não terminou bem.

Uma decisão tomada tarde demais.

Uma porta que deveria ter permanecido fechada.

Afastei a mão como se tivesse tocado algo vivo e dei um passo para trás, respirando fundo, tentando recuperar o controle que eu exigia de mim mesmo todos os dias.

Aquilo estava no passado.

Trancado.

Contido.

Sob controle.

Era o que eu repetia.

Voltei para o quarto e me sentei novamente na beira da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, o olhar perdido no escuro. A casa parecia maior àquela hora, mais vazia, como se amplificasse tudo o que eu evitava sentir quando o dia estava cheio de tarefas e decisões.

Foi ali que a constatação mais perigosa se impôs com clareza incômoda.

Não era o quarto que tinha sido ameaçado naquele dia.

Era o silêncio.

Luna não tinha tocado na porta.

Não tinha feito a pergunta errada.

Não tinha ultrapassado o limite físico.

Ainda assim, tinha chegado perto demais do que eu mantinha intacto há anos.

Não por curiosidade.

Não por desafio.

Por empatia.

Ela tinha parado quando eu pedi. Tinha respeitado sem exigir explicação. E aquilo, paradoxalmente, foi o que mais me desarmou.

Porque pessoas curiosas eu sei afastar.

Pessoas insistentes eu sei controlar.

Mas pessoas que entendem o peso do silêncio… essas são perigosas.

Passei a mão pelo cabelo e encarei o relógio no criado-mudo.

Ainda era madrugada.

Em poucas horas, a casa acordaria, Dona Teresa estaria na cozinha, e Luna circularia pelos corredores com aquela atenção silenciosa que parecia enxergar além do óbvio. E eu sabia, com uma clareza desconfortável, que precisaria ser ainda mais cuidadoso.

Não com a porta.

Com ela.

Algumas portas não se abrem com chaves.

Elas se abrem quando alguém vê o que você passou a vida inteira fingindo que não existe.

E Luna Ferreira estava começando a ver.

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