Daniel
Eu tinha acabado de fazer trinta anos.
Trinta.
Número redondo. Número de gente resolvida. Pelo menos era isso que parecia por fora.
Minha vida na Argentina estava estável. A empresa ia bem, funcionários competentes, contratos fechando, dinheiro entrando. Eu tinha rotina, tinha respeito, tinha controle. Acordava cedo, chegava no escritório antes de todo mundo, tomava meu café forte demais e seguia o dia como se tudo estivesse exatamente onde deveria estar.
E estava.
Ou pelo menos eu achava.
Eu lembro do dia com uma clareza irritante. Era uma manhã comum. Nada de especial. Eu estava revisando uns relatórios quando o celular tocou. Olhei o número e senti um incômodo estranho no estômago.
Era do hospital.
Atendi já em pé, sem saber por quê.
A voz do outro lado era calma demais pra notícia que vinha. Disseram que minha mãe tinha passado mal, que tinha desmaiado em casa, que um vizinho chamou a ambulância. Disseram que ela estava consciente, mas em observação.
Eu não pensei. Só agi.