Capítulo 2 — Lorenzo

O sangue no lenço já começava a escurecer, um lembrete vívido de que a lealdade é a moeda mais escassa de Roma. Aquele não era o primeiro traidor da semana e, pelo andar da carruagem no Conselho, certamente não seria o último.

— Ele falou? — A voz do meu pai cortou o silêncio do terraço.

Não me virei. Continuei observando os vinhedos da Toscana, que do alto pareciam um império em paz, embora eu soubesse que as raízes estavam podres.

— Confirmou o desvio nas rotas de exportação — respondi, dobrando o lenço com uma precisão cirúrgica antes de jogá-lo sobre a mesa de pedra. — O problema não volta a acontecer. Nunca volta.

Meu pai parou ao meu lado, os olhos fixos no horizonte. Para qualquer outro homem, aquele cenário seria sinônimo de paz; para nós, era apenas o intervalo necessário entre duas decisões brutais.

— O Conselho anda inquieto, Lorenzo.

— O Conselho sempre está — retruquei, o cinismo transbordando na voz.

— Desta vez, com razão. Um líder sem esposa é instável. Um líder sem herdeiro... é descartável.

Virei o rosto lentamente, sustentando o olhar dele. Senti o cristal do copo de whisky frio contra a palma da minha mão, mas o calor vinha da irritação silenciosa. Roma estava sob meu controle, mas eu sabia que, no nosso mundo, controle sem linhagem é apenas um castelo de cartas esperando o vento certo.

— O Leste — ele soltou, finalmente chegando ao ponto.

— O Pakan aceitou?

— Aceitou.

Meu maxilar tensionou. Nada que vinha da Bratva era simples ou barato.

— O preço?

Em vez de responder, meu pai abriu o dossiê e o deslizou pela mesa. Eu esperava colunas de números, rotas de porto ou porcentagens de lucro. Em vez disso, encontrei um par de olhos que me fez parar.

Cabelos claros, um rosto calmo até demais, mas o que me incomodou foi a ausência de medo na lente da câmera. Ela não parecia submissa; parecia estar esperando por algo.

— Dezoito anos — murmurei. Jovem demais para o peso dessa mesa.

— Jovem o suficiente para ser moldada — meu pai rebateu, a voz sem um pingo de remorso.

— Ou quebrada.

Meus dedos pressionaram a borda do papel, sentindo a textura da fotografia. Eu já tinha visto dezenas de mulheres assim: treinadas, silenciosas, belas cascas vazias prontas para serem preenchidas pelo sobrenome de um marido. Mas aquela garota... ela não parecia vazia. Ela parecia consciente. E consciência, em mãos erradas, é um perigo que eu não costumo ignorar.

— Se essa garota é o preço da paz — continuei, fechando o dossiê devagar —, então o Pakan está apostando alto demais. Eu não aceito nada que não possa controlar. E tudo que eu não consigo controlar... eu quebro.

Meu pai não respondeu. Ele não precisava. Tinha conseguido o que queria: um sucessor com um motivo para se casar.

— Prepare-se, Lorenzo — ele disse, já se afastando. — Isso não é um casamento. É poder.

Fiquei sozinho. O vento quente da tarde passou pelo terraço, mas não trouxe alívio, apenas o cheiro persistente de ferro e fumo. Olhei novamente para a imagem de Anya Morozova. Se ela for exatamente o que parece, será inútil. Mas se estiver mentindo...

Um leve sorriso, frio e predatório, puxou o canto da minha boca.

— Então ela não vai sobreviver a mim.

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