Capítulo 2 — Lorenzo

O sol da Toscana costuma ser um convite ao prazer para a maioria dos homens. Para mim, era além disso, o cenário de negócios necessários. 

Eu estava no terraço da villa, observando as colinas de vinhedos que se estendiam até o horizonte, enquanto limpava metodicamente o sangue que manchava os nós dos meus dedos.

— Ele confessou? — A voz do meu pai surgiu às minhas costas. Ele carregava a autoridade de Dom, mas já sentia o peso da coroa e estava reclamando de a carregá-la.

— Confessou o que eu já sabia Dom — respondi, sem me virar enquanto tomava meu whisky. — Estava desviando fundos das rotas de exportação. O problema já foi... extirpado.

Joguei o lenço de linho, agora manchado de um carmesim viscoso, sobre a mesa de pedra. Finalmente me virei para encará-lo. Meu pai não parecia satisfeito com a minha eficiência; ele parecia exausto.

— O Conselho está inquieto, Lorenzo. Eles veem sua força, mas temem sua impulsividade. Um líder sem esposa é um homem sem sucessão. E a falta de um herdeiro é uma fraqueza que nossos inimigos em Roma não ignorarão.

Eu ri. Foi um som seco, que não alcançou meus olhos.

— Não preciso de uma esposa para manter a ordem. Preciso de soldados leais e de medo. O medo é muito mais estável que um anel no dedo.

— Não desta vez. — O temido Dom Giovanni caminhou até mim e soltou um dossiê pesado sobre a mesa, exatamente em cima do lenço ensanguentado. — A paz com a Bratva é a última peça de que precisamos para dominar o mercado do Leste. O Pakan finalmente concordou com os termos.

Senti o maxilar travar. Eu sabia onde aquela conversa terminaria, mas a menção aos russos trouxe um sabor metálico à minha boca. Eles eram bárbaros, movidos por uma violência desmedida e sem a elegância da nossa tradição.

Além disso, o Pakan escondia as duas filhas do mundo e poucas pessoas as conheciam. 

— Você quer que eu me deite com uma russa para selar um acordo de exportação? — ironizei, abrindo o dossiê com desdém.

Minha voz morreu no instante em que meus olhos encontraram a fotografia grampeada na primeira página.

Não era uma boneca de porcelana assustada. A mulher na foto tinha cabelos claros e olhos que pareciam feitos de vidro e gelo. Havia um desafio silencioso naquela expressão. Uma rigidez na postura que dizia que ela já conhecia o inferno. E linda, pelos céus como era linda.

— Anya Morozova — meu pai pronunciou o nome como se fosse uma oração. — Acabou de completar dezoitos anos, a joia do Pakan. O relatório diz que ela é silenciosa, obediente, submissa e, o mais importante para o Conselho: pura. Uma herdeira perfeita para os Moretti.

Passei o polegar pela borda da foto. Senti uma curiosidade sombria despertar onde antes só havia tédio.

— Ela parece silenciosa, pai. Mas os olhos dela estão gritando. E dezoito anos? É uma criança ainda, por Deus. 

— O noivado será em duas semanas e o casamento após quinze dias. O acordo está assinado, você sabia que iria acontecer — ele sentenciou, virando as costas e deixando a ordem pairando no ar.

Fiquei sozinho no terraço. O sol agora parecia queimar minha pele. Olhei novamente para Anya. Se o Conselho queria um casamento, eles o teriam. Se meu pai queria a paz, ela seria feita.

Mas se aquela mulher seria apenas uma peça decorativa no meu palácio. Uma garota de dezoito anos não conseguiria lidar comigo. 

Além disso, vou fazer minha própria investigação até encontrar a primeira rachadura naquele gelo. E, quando a encontrar, eu a faria dobrar os joelhos diante do seu novo Dom.

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