Mundo de ficçãoIniciar sessão
Eu soube que algo estava errado antes mesmo de tocar na maçaneta de carvalho. Não era o silêncio — a mansão sempre fora um mausoléu de mármore e segredos —, era a súbita ausência de controle. Naquele ecossistema, nada acontecia sem o aval do meu pai, e naquela manhã, o ar pesava com uma decisão que eu ainda não conhecia.
O Pakan não chamava; ele convocava. E convocações, no nosso mundo, costumavam vir acompanhadas de sangue ou sacrifício.
Atravessei o corredor sentindo o olhar pesado dos dois guardas postados à porta do escritório. Eles estavam rígidos, estátuas de terno escuro que evitavam o meu rosto. A piedade nos olhos de homens como eles era o pior dos presságios.
Empurrei a porta sem pedir permissão. O cheiro denso de couro e tabaco me atingiu como um tapa, seguido pela visão dele: meu pai, sentado atrás da mesa monumental, orquestrando o destino de todos como se o mundo fosse seu tabuleiro particular.
— Sente-se, Anya — ele disse, a voz desprovida de qualquer calor.
Eu não me movi. Meus pulmões ardiam. — Onde está a Kira?
O silêncio que se seguiu foi uma arma. Ele puxou um envelope pardo e o deslizou lentamente pela superfície da mesa. Eu não queria tocar naquela papelada, mas o instinto de proteção falava mais alto que o meu medo. Meus dedos tremeram ao puxar as fotos.
Eram três. Kira sentada em uma cama estreita; Kira com os olhos arregalados de pavor; Kira atrás de grades que pareciam esmagar sua alma pequena. Meu coração não acelerou; ele simplesmente despencou, transformando-se em uma pedra de gelo no fundo do peito.
— Você a tirou de casa — sibilei, a voz falhando.
— Eu a movi — ele corrigiu, com uma calma aterrorizante. — Segurança exige ajustes, Anya. E a segurança da sua irmã agora depende exclusivamente da sua cooperação.
— Ela tem pânico de lugares fechados, você sabe disso! — O grito morreu na minha garganta diante do seu olhar gélido.
— Então ela aprenderá a suportar. — Ele se inclinou para frente, a luz do escritório acentuando as rugas de expressão que o faziam parecer um patriarca implacável. — Você pode tirá-la de lá hoje mesmo. Mas, como tudo na vida, há um preço.
Ele deslizou uma quarta foto. Desta vez, não era minha irmã. Era um homem de traços aristocráticos e um olhar que parecia carregar o peso de mil pecados. Poder. Frio. Controle absoluto.
— Lorenzo Moretti — meu pai pronunciou o nome como se fosse uma sentença de morte. — O futuro Dom da máfia italiana. Seu futuro marido.
O ar sumiu dos meus pulmões. Um contrato. Não era um casamento; era uma transação comercial onde eu era a moeda de troca.
— Para Lorenzo, você é uma joia intacta — ele continuou, a voz baixando para um tom conspiratório que me deu náuseas. — E você continuará sendo. Inclusive na noite de núpcias. Sua função é ser o elo entre nossas famílias, uma imagem de pureza para consolidar essa aliança. A vida da Kira depende da sua capacidade de manter esse papel.
Eu olhei para a foto de Lorenzo. Ele era perigoso, talvez um monstro ainda pior que o homem à minha frente. Mas se cruzar o oceano e me entregar a um estranho era o que manteria Kira viva, eu o faria.
Enquanto o peso do meu novo destino me esmagava, uma única pergunta martelava na minha mente: Lorenzo Moretti vai me quebrar para ver o que tem dentro, ou vai me usar até eu não passar de fumaça?







