capítulo 5

O terceiro uivo fez as paredes da sala do conselho estremecerem.

Meu lobo despertou dentro de mim com um rosnado baixo.

Nunca tinha sentido aquilo.

Era medo.

Mas não apenas medo.

Era como se uma força invisível obrigasse meu corpo inteiro a prestar atenção.

Os anciãos se levantaram quase ao mesmo tempo.

Damian segurou a mesa para não perder o equilíbrio.

— Não...

sussurrou.

— Isso não deveria estar acontecendo.

Outro uivo ecoou.

Mais próximo.

Mais forte.

Os vidros das janelas vibraram.

A porta foi aberta de repente.

Um dos guardas entrou quase sem fôlego.

— Alfa...

Ele olhou para Ethan.

— Eles chegaram.

O silêncio tomou conta da sala.

Ethan caminhou até a janela.

Não consegui enxergar o que ele via, mas a tensão em seus ombros dizia tudo.

— Abram os portões.

Helena arregalou os olhos.

— Você enlouqueceu?

— Se eles vieram até aqui sem atacar, não serão os portões que vão detê-los.

Damian assentiu.

— Abram.

Assim que saímos para o pátio, encontrei praticamente toda a alcateia reunida.

Ninguém falava.

Nem as crianças.

Todos olhavam para os enormes portões de madeira.

O ranger das correntes rompeu o silêncio.

Os portões começaram a se abrir lentamente.

Do outro lado...

A floresta.

Escura.

Silenciosa.

Por um instante, achei que não havia ninguém.

Então ouvi passos.

Pesados.

Lentos.

Algo enorme saiu entre as árvores.

Meu coração disparou.

Não era um lobo.

Também não era um homem.

Era uma criatura gigantesca, andando sobre duas pernas.

Seu corpo era coberto por pelos negros que refletiam a luz da lua.

Os olhos dourados brilhavam como ouro derretido.

Garras enormes riscavam a terra a cada passo.

Atrás dele, outras figuras semelhantes surgiram da escuridão.

Uma.

Cinco.

Dez.

Mais de vinte guerreiros.

Nenhum fazia barulho.

Apenas caminhavam.

A alcateia inteira recuou instintivamente.

Alguns lobos chegaram a baixar a cabeça.

Meu próprio lobo se encolheu dentro de mim.

Não por covardia.

Por respeito.

Ou talvez por reconhecer um predador muito acima de qualquer Alfa.

O Lycan que liderava o grupo parou a poucos metros dos portões.

Seus olhos percorreram toda a alcateia.

Calmos.

Calculistas.

Então seu corpo começou a mudar.

Os pelos desapareceram lentamente.

Os ossos estalaram.

Em poucos segundos, um homem ocupava o lugar da criatura.

Alto.

Muito alto.

Os cabelos negros caíam até os ombros.

Os olhos dourados continuavam exatamente iguais.

A expressão era impossível de decifrar.

Nenhuma emoção.

Nenhuma pressa.

Nenhum medo.

Atrás dele, os outros guerreiros também assumiram a forma humana.

Todos permaneceram em silêncio.

Foi Damian quem deu um passo à frente.

Curvou levemente a cabeça.

— Seja bem-vindo... Majestade.

Nunca tinha visto o ancião demonstrar respeito daquela maneira.

Nem mesmo ao antigo Alfa.

Ethan permaneceu imóvel ao lado dele.

Os dois se encararam durante alguns segundos.

Nenhum parecia disposto a desviar os olhos.

Então o desconhecido falou.

Sua voz era grave.

Profunda.

— Sou Kael Draven.

Rei dos Lycans.

Não havia arrogância em seu tom.

Ele apenas declarou um fato.

Damian respirou fundo.

— A que devemos sua visita?

Kael permaneceu em silêncio.

Seu olhar percorreu lentamente a multidão.

Quando passou por mim...

Meu peito apertou.

O mesmo perfume.

Madeira molhada.

Chuva.

Hortelã.

Minha cabeça latejou.

Por um segundo...

Vi dedos entrelaçados aos meus.

Uma respiração quente perto do meu rosto.

Uma voz rouca dizendo:

"Você está segura."

Levei a mão à cabeça.

A lembrança desapareceu antes que eu pudesse alcançá-la.

Kael franziu a testa por um instante.

Foi quase imperceptível.

Como se também tivesse sentido alguma coisa.

Mas continuou andando.

Passou por Ethan.

Passou pelos guardas.

Passou pelos anciãos.

Sem pedir licença.

Sem esperar autorização.

A alcateia inteira abriu caminho naturalmente.

Quando chegou ao centro do pátio, ele finalmente voltou a falar.

— Há algo nesta alcateia que pertence ao meu reino.

Um murmúrio atravessou a multidão.

Damian endureceu a expressão.

— O que exatamente veio procurar?

Kael ergueu os olhos para a lua avermelhada antes de responder.

— Ainda não tenho essa resposta.

Mas vou encontrá-la.

E, pela primeira vez desde que tudo começou, tive a estranha sensação de que a chegada do Rei Lycan não tinha nada a ver com guerra.

Ela tinha a ver comigo... embora nem ele parecesse entender o motivo.

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