O homem desapareceu antes que eu pudesse chamá-lo.
Pisquei algumas vezes.
A porta estava vazia.
Talvez minha cabeça ainda estivesse confusa depois do desmaio.
— Levem a garota para a sala do conselho.
A voz do Ancião Damian me trouxe de volta.
Dois guardas se aproximaram.
Por instinto, dei um passo para trás.
— Eu posso andar sozinha.
Um deles apenas fez um gesto para que eu seguisse.
Mirella caminhou ao meu lado, mas um dos guardas ergueu o braço.
— Apenas membros do conselho.
— Ela não vai sozinha.
— Mirella...
Toquei seu braço.
— Está tudo bem.
Ela olhou para mim como se soubesse que eu estava mentindo.
Porque eu estava.
Nada estava bem.
A sala do conselho era fria.
As paredes de pedra cinzenta faziam o ambiente parecer ainda menor.
No centro havia uma mesa redonda.
Os anciãos já ocupavam seus lugares.
Damian sentou-se na cadeira principal.
Ao lado dele estavam Helena Blackwood, Nolan Ashford, Tobias, a curandeira Iris e outros líderes da alcateia.
Ethan entrou por último.
Nem sequer olhou para mim.
Aquilo machucava mais do que eu gostaria de admitir.
Damian apoiou as duas mãos sobre a mesa.
— Ayla Valen...
Respirei fundo.
— Sim.
— A curandeira confirmou sua gravidez.
Assenti.
Ainda parecia impossível acreditar.
— Você sabe quem é o pai da criança?
A pergunta pairou no ar.
Fechei os olhos por um segundo.
Tentei lembrar.
Qualquer coisa.
Qualquer rosto.
Qualquer nome.
Nada.
Apenas...
Madeira.
Chuva.
Hortelã.
E aquela voz.
"Você está segura."
Abri os olhos novamente.
— Não.
Um burburinho percorreu a mesa.
Helena riu sem disfarçar.
— Que conveniente.
Ignorei.
Damian insistiu.
— Você realmente espera que acreditemos que não se lembra?
Olhei diretamente para ele.
— Eu não me lembro porque... eu realmente não sei.
Minha própria resposta parecia absurda.
Mas era a verdade.
Tobias, o curandeiro mais velho da alcateia, pigarreou.
— Talvez tenha sofrido algum tipo de magia.
Helena bateu a mão na mesa.
— Magia?
Ela apontou para mim.
— Estamos falando de uma loba adulta.
Não de uma criança.
Isso é uma desculpa ridícula.
Meu sangue ferveu.
— Eu não pedi para ninguém acreditar.
Só estou dizendo a verdade.
Ela sorriu.
— Verdade?
Você aparece grávida justamente na noite em que Ethan faria sua escolha.
O momento não poderia ser mais conveniente.
Levantei da cadeira.
— Está me chamando de mentirosa?
— Estou chamando você do que é.
Nolan levantou a voz antes que eu respondesse.
— Chega!
O Beta lançou um olhar duro para Helena.
— Ainda não sabemos toda a história.
— E nem precisamos.
Ela cruzou os braços.
— A honra desta alcateia foi manchada.
Todos voltaram a olhar para Damian.
O ancião permaneceu calado por alguns segundos.
Depois encarou Ethan.
— Como Alfa... sua opinião também será considerada.
Meu coração acelerou.
Pela primeira vez desde a rejeição, Ethan levantou os olhos para mim.
Havia conflito em seu rosto.
Como se ele estivesse lutando contra alguma coisa.
— Eu...
Ele respirou fundo.
— Não acredito que Ayla tenha inventado essa gravidez.
Meu peito se aqueceu por um instante.
Até Helena virar o rosto para ele.
— Ethan.
Ele continuou.
— Mas também sei que essa criança não é minha.
O calor desapareceu.
Outra vez.
Damian assentiu lentamente.
— Então existe apenas uma possibilidade.
Meu estômago se revirou.
— Qual?
O velho respirou fundo.
— Se a criança não pertence ao Alfa...
...não sabemos quem é o pai.
E isso representa um risco para a alcateia.
Franzi a testa.
— Um bebê representa um risco?
— Dependendo do sangue que carrega...
Sim.
Tobias completou:
— Existem antigas profecias envolvendo crianças nascidas sob a Lua Sangrenta.
Helena voltou a sorrir.
— Estão vendo?
Nem sabemos o que ela está carregando.
Meu instinto gritou para proteger meu ventre.
Cruzei os braços diante dele sem perceber.
Foi um gesto automático.
Maternal.
Aquilo me assustou.
Eu mal havia descoberto a gravidez...
E já queria proteger aquele pequeno ser de todos naquela sala.
Damian levantou-se.
— Até descobrirmos a verdade...
Você permanecerá sob custódia.
Meu corpo inteiro congelou.
— O quê?
— É uma medida de segurança.
— Isso é uma prisão.
— Chame como quiser.
Meu coração começou a disparar.
Olhei para Ethan.
— Você vai permitir isso?
Ele permaneceu imóvel.
Os dedos fechados em punhos.
Mas não disse uma palavra.
Nem uma.
Foi naquele instante que compreendi.
Eu estava completamente sozinha.
Os guardas caminharam em minha direção.
Um deles segurou meu braço.
Antes que pudesse reagir, um uivo longo e poderoso ecoou do lado de fora.
Não era um lobo da alcateia.
Era mais grave.
Mais forte.
Mais antigo.
As janelas estremeceram.
Todos na sala ficaram em silêncio.
Tobias empalideceu.
Damian levantou-se tão rápido que a cadeira caiu para trás.
— Isso...
Sua voz saiu quase em um sussurro.
— Não pode ser...
Um segundo uivo cortou a noite.
Dessa vez, muito mais perto.
E pela primeira vez vi medo no rosto de todos os anciãos.