capítulo 6

Ninguém se moveu.

Era como se o tempo tivesse parado.

As palavras de Kael continuavam ecoando na minha cabeça.

"Há algo nesta alcateia que pertence ao meu reino."

Olhei discretamente ao redor.

Os guerreiros lycans permaneciam imóveis, espalhados atrás do rei. Nenhum carregava armas. Nenhum demonstrava ansiedade.

Aquilo era ainda mais assustador.

Eles não precisavam.

Ethan deu um passo à frente.

— Você entra em meu território, interrompe uma reunião do conselho e diz que veio buscar algo. Acho que me deve uma explicação.

Kael voltou lentamente o rosto para ele.

Seu olhar era tão firme que até eu senti vontade de desviar os olhos.

— Não devo.

A resposta foi calma.

Quase educada.

Mas carregava uma autoridade que fez alguns lobos baixarem a cabeça sem perceber.

Ethan cerrrou os punhos.

Seu lobo estava inquieto.

Eu conseguia sentir.

O ar parecia pesado.

Um confronto entre eles poderia transformar o pátio inteiro em um campo de batalha.

Damian se colocou entre os dois.

— Majestade... talvez possamos conversar dentro do salão.

Kael não respondeu imediatamente.

Inspirou profundamente.

Uma única vez.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

Os olhos dourados dele percorreram a multidão lentamente.

Como se estivesse seguindo um cheiro.

Meu cheiro.

Sem perceber, dei um passo para trás.

A cabeça voltou a latejar.

Outra lembrança surgiu.

Uma noite fria.

Meus pés descalços sobre a grama úmida.

Uma mão grande segurando minha cintura.

Meu coração acelerado.

Depois...

Escuridão.

Levei a mão à têmpora.

— Ayla?

Mirella segurou meu braço.

— Você está branca.

Forcei um sorriso.

— Estou bem.

Era mentira.

Meu peito doía.

Como se alguma coisa dentro de mim estivesse tentando acordar.

Kael parou de caminhar.

Seu olhar encontrou o meu.

Dessa vez, permaneceu ali por vários segundos.

Seu rosto continuava impassível.

Mas seus olhos...

Havia confusão.

Como se ele estivesse tentando entender por que não conseguia desviar de mim.

Então ele falou.

— Você.

Meu coração disparou.

Olhei para trás, imaginando que estivesse falando com outra pessoa.

Não havia ninguém.

— Qual é o seu nome?

A pergunta fez todos me encararem.

Senti dezenas de olhares sobre mim.

Engoli em seco.

— A... Ayla.

Por um instante, algo mudou na expressão dele.

Foi rápido.

Quase imperceptível.

Seu maxilar enrijeceu.

Os olhos dourados pareceram perder o foco por um segundo.

Como se aquele nome despertasse alguma lembrança distante.

Mas ela escapasse antes que pudesse alcançá-la.

Ele fechou os olhos rapidamente.

Quando voltou a abri-los, a expressão fria havia retornado.

— Ayla Valen.

Meu estômago revirou.

Eu nunca tinha dito meu sobrenome.

Nem ninguém o havia mencionado desde que ele chegara.

Um murmúrio atravessou a multidão.

Ethan percebeu o mesmo.

— Como sabe o nome dela?

Kael permaneceu em silêncio.

A pergunta parecia tê-lo surpreendido tanto quanto a todos nós.

Ele realmente sabia.

Mas parecia não entender como.

Damian deu um passo à frente.

— Majestade...

Kael ergueu uma das mãos, interrompendo-o.

Continuava olhando para mim.

— Já nos encontramos antes?

A pergunta me atingiu como um golpe.

Minha respiração falhou.

Meu coração começou a bater tão forte que parecia querer sair do peito.

As mesmas imagens voltaram.

Uma floresta.

Uma fogueira.

Um toque.

Uma voz.

"Você está segura."

Fechei os olhos com força.

Quando os abri novamente, balancei a cabeça.

— Eu... não me lembro.

Kael não respondeu.

Apenas continuou me observando.

Pela primeira vez, vi uma pequena rachadura naquela postura inabalável.

Ele também estava procurando uma resposta.

E não a encontrava.

Foi então que um dos guerreiros lycans se aproximou rapidamente.

Curvou levemente a cabeça diante do rei.

— Majestade...

Ele falou tão baixo que quase ninguém ouviu.

Mas vi quando Kael endureceu a expressão.

— Tem certeza?

O guerreiro assentiu.

Kael voltou os olhos para mim.

Depois... para minha barriga.

Seu olhar permaneceu ali por apenas um segundo.

Um único segundo.

Mas foi suficiente para fazer um arrepio percorrer minha espinha.

O silêncio que se seguiu foi tão pesado que até o vento pareceu parar.

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