Eu aceito...
Ares Sins
Eu sempre achei que nada poderia me surpreender. Não depois de tudo que vivi, não depois de perder, de ver o mundo que eu conhecia virar pó e de aprender a sobreviver sozinho. Eu fui moldado pela dor, afiado pela perda, endurecido pelo abandono.
Mas Brianna, ela sempre foi a exceção.
Desde o momento em que a reencontrei no elevador, o mundo ao meu redor perdeu o foco e só existia ela, como se todos os anos, todas as versões minhas que sobreviveram sem ela estivessem esperando por aquele instante.
E agora, enquanto caminhávamos pelas ruas iluminadas de Paris após um jantar silencioso, eu sentia o peso do que estava prestes a perder antes mesmo de realmente ter.
Ela não me amava.
Pelo menos, não do jeito que eu a amava.
Ainda não.
E, mesmo assim, eu não conseguia deixar de acreditar que algo nela ainda me reconhecia.
Uma sombra do passado.
Um sussurro de tudo que vivemos como melhores amigos.
A luz dos postes refletia no rosto dela, fazendo seu olhar parecer ainda mais perdido. Ela abraçava o casaco com firmeza, como se estivesse tentando conter algo dentro de si mesma.
— Você realmente estava falando sério lá dentro? — ela perguntou de repente, a voz baixa, quase temendo a resposta.
Eu a encarei.
Ela parou de andar.
— Sobre o casamento? — perguntei, como se a resposta não fosse óbvia.
Ela assentiu, mordendo o lábio.
— Eu estava. Mais do que você imagina. Mais do que eu deveria admitir.
Um silêncio denso caiu entre nós.
Denso demais. Quase sufocante.
Ela respirou fundo e desviou o olhar, encarando o chão como se estivesse pedindo uma resposta que não sabia como formular.
— Ares, você é meu amigo. Meu melhor depois do Davi, um amigo do passado. Mas eu não vim procurar romance, nem um esposo, eu vim porque, eu preciso reconstruir coisas. Preciso de um trabalho, de segurança. De um lugar onde eu possa recomeçar.
Ela riu sem humor. — E casamento não está nem perto do topo da lista.
Eu dei um passo à frente.
— Brianna…— falei com calma, embora por dentro tudo estivesse um caos — Quando se quer tanto alguém, nada no mundo impede. E eu não vou desistir. Não agora que te encontrei de novo.
— Ares. — ela suspirou, cansada, como se tentasse me ensinar algo que eu não queria aprender. — E se você estiver perseguindo algo que já perdeu? Algo que não está mais aqui?
Eu senti o golpe.
E sorri.
Um sorriso carregado de dor.
De verdade.De confissão.
— E se eu tiver perdido o que queria? — perguntei, encarando o horizonte por um segundo. —E se eu não encontrar?
Ela abriu a boca para responder, mas parei ela com um gesto suave.
— É melhor que eu não procure sozinho.
Então, sem pensar duas vezes, a puxei para meus braços.
Ela ficou parada por um instante, como se não esperasse o toque.
Mas depois, relaxou.Devagar. Lentamente.
O corpo dela se encaixou no meu como se tivesse sido feito para estar ali, e eu senti uma verdade que não precisava de palavras:
Ela estava cansada.
Assustada.Carregando mais do que admitia.
Ares Sins
Minhas mãos deslizaram pela cintura dela, aquecendo-a contra o frio parisiense, e eu murmurei:
— Para mim, só importa que você seja feliz.
Ela ergueu o rosto, confusa.
Eu continuei:
— Se você não me atender quando eu te ligar, tudo bem. Se eu te procurar e não te encontrar, eu vou aceitar. Se você desmarcar algo, se não sentir o mesmo por mim… nada disso vai me ferir.
Os olhos dela brilharam.
— Por quê? — ela sussurrou. — Por que você fala como se já estivesse me perdendo?
Apertei-a mais forte.
— Porque mesmo que tudo isso aconteça, eu não vou ficar triste de verdade.
Meu coração doeu, mas era a mais pura verdade.
— Porque uma parte de mim sempre vai estar feliz, só por saber que você existe. Que você está viva. Que eu posso te encontrar.
Ela piscou forte, lutando contra algo dentro de si.
Eu senti. Eu sempre sentia.
E então — como se o vento tivesse levado nossa história inteira nas costas — ela deu um passo para trás e se afastou de mim.
— Ares…
O nome saiu da boca dela como uma ferida aberta.
— Eu… preciso te contar algo.
Meu corpo inteiro entrou em alerta. Cada músculo.Cada instinto.
Ela olhou para os lados, nervosa, como quem teme ser seguida, vigiada.
— Eu vim para Paris porque estou fugindo.
O mundo parou.
Ela continuou:
— Tem alguém atrás de mim. —Meu sangue gelou.
Eu dei um passo à frente, mas ela ergueu a mão, como se precisasse terminar antes que eu interferisse.
— Eu preciso de proteção. Preciso desaparecer legalmente. Preciso de um novo sobrenome, uma nova vida. E… a única maneira rápida de conseguir isso é...Ela fechou os olhos, afastando as lágrimas com força.
— É me casando com você.
O ar saiu dos meus pulmões.
Ela estava lutando. Desesperadamente.Em silêncio.
— Eu não queria envolver você nisso. — ela disse com a voz embargada. — Mas… eu não tenho outra opção. Não tenho ninguém.
Eu a toquei no queixo, levantando o rosto dela.
E ela finalmente me olhou como quem está à beira de um abismo.
— Brianna — murmurei — você tem a mim, nunca estará sozinha. Nunca mais.
Ela respirou fundo.As mãos tremiam.
E então…
Com a voz menor, frágil e derrotada, ela disse:
— Ares, se você ainda quiser.—Engoliu seco.— Eu aceito!
Meus dedos congelaram contra a pele dela.
— Aceita… o quê?— sussurrei, precisando ouvir das próprias palavras dela.
Ela ergueu o queixo, mesmo tremendo.
— Eu aceito me casar com você.
O mundo inteiro parou.
Nada se moveu.Nada respirou.Nada existiu além dela.
— Por proteção. — ela completou, com os olhos brilhando de medo e alívio ao mesmo tempo. — E porque… eu preciso. Preciso disso para sobreviver.
Eu fechei os olhos por um instante, absorvendo a gravidade — e a honra — do que ela tinha acabado de me dar.
Quando os abri, toquei o rosto dela com ambas as mãos e disse:
— Então é isso.
Minha voz saiu grave, firme, intensa.
— A partir de hoje, ninguém toca em você. Ninguém encosta. Ninguém machuca. Você está comigo, Brianna. E comigo… você está segura.
Ela tremia.Mas não recuou.Eu sorri de lado.
— Vamos nos casar.
Parei, aproximando minha testa na dela.
— E eu prometo que enquanto eu respirar, ninguém vai te machucar.
Ela fechou os olhos.
E pela primeira vez naquela noite… ela finalmente relaxou nos meus braços, eu a abracei com delicadeza e ao mesmo tempo sem vontade de soltá-la.
continua...