Juntos, outra vez...

Ares Sins

O elevador se abriu com o som metálico que sempre odiei e, por um segundo, achei que Brianna fosse desabar ali mesmo, diante de mim. Ela ainda estava apoiada contra meu peito, respirando rápido, como se o mundo inteiro pudesse engoli-la a qualquer instante.

Quando Leonard virou o corredor e sumiu de vista, senti o corpo dela perder a força, como se finalmente tivesse permissão para tremer.

— Ei… — murmurei, baixando o olhar.

As lágrimas escorriam sem que ela percebesse. Era impossível não vê-las. Caíram silenciosas, densas, carregadas, mas eu não sabia o que ela viveu e nem tudo o que eu não pude impedir.

Meu peito apertou.

Com cuidado, tirei um lenço branco do bolso interno do meu terno. Eu sempre carregava um, hábito da família Sins. Meu pai, ou melhor, o pai do Área dizia: “Um homem sempre deve estar preparado para limpar as marcas do mundo.” Hoje, eu limpava as dela.

Toquei seu rosto devagar, enxugando suas lágrimas.

Ela piscou rápido, surpresa, como se não estivesse acostumada a alguém cuidar dela. E talvez não estivesse mesmo, pelas marcas que vi em seu braço, eu tinha certeza, algum monstro devia ter a feito sofrer.

— Está tudo bem agora — eu disse, mesmo sabendo que era mentira. Nada estava bem. Nem para ela. Nem para mim.

Eu não estava preparado para vê-la. Não daquele jeito. Não com medo. Não tão quebrada como eu também estive um dia, quando acordei em meio às chamas, acreditando que tudo havia acabado.

Mas ela estava ali. Viva. E Deus sabia o quanto eu esperei por isso.

A porta do elevador voltou a abrir e eu segurei suavemente seu braço, guiando-a para fora.

— Acompanha-me? — perguntei, mesmo sem precisar. — Tenho um compromisso aqui no shopping. Não quero te deixar sozinha.

Ela hesitou, os olhos marejados, mas então assentiu com a cabeça. Talvez porque não tinha ninguém. Talvez porque estivesse cansada demais para recusar. Ou talvez porque, assim como eu, sentiu algo que nunca deixou de existir pelo Davi e agora ela acredita que eu era o melhor amigo.

Saímos caminhando lado a lado pelo corredor do shopping. O mármore brilhava sob nossos pés, e as luzes refletiam nos vidros, criando um brilho suave. Brianna parecia pequena ao meu lado, abraçando o próprio corpo como se tentasse manter seus pedaços unidos.

— Como… como você está? — ela perguntou com a voz baixa, quase insegura. — Depois do… incidente? Eu… nunca mais soube de você.

Incidente.

A palavra caiu como um peso no meu estômago.

Ela acreditava que eu, Davi, havia morrido no incêndio. E que o Ares, filho legítimo daquela família, havia sobrevivido. A ironia cruel: o mundo acreditava exatamente o contrário. E talvez fosse melhor assim.

Porque o homem que ela conhecia como Davi, seu melhor amigo, sua esperança… esse não podia mais existir. Ele tinha queimado junto com a antiga casa, com o antigo rosto, com a antiga vida.

— As coisas mudaram — respondi, desviando o olhar. — E achei que seria melhor manter distância.

— Por quê? — ela insistiu, a voz embargando. — Você era importante pra mim Ares.

Aquele “era” me atravessou como uma lâmina.

Eu quis dizer. Quis explicar que não fui eu quem escolheu. Que eu lutei para sair das chamas. Que despertei em um hospital sem rosto, sem nome, sem vida. Que os pais do Ares me acolheram, cuidaram de mim, reconstruíram o que pudera e me deram o nome do filho morto porque precisavam de alguém para amar, ou não queriam aceitar que nas chamas estava o seu filho, meu melhor amigo.

Mas quando olhei para ela, percebi que a verdade só a machucaria ainda mais.

Então engoli tudo.

— Você seguiu sua vida — falei, tentando soar firme. — E eu segui a minha, mas agora que está aqui diante de mim, posso dizer que você ainda continua sendo importante para mim, sempre será.

Ela mordeu o lábio, desviando o olhar, e vi em seus olhos a dor de quem já perdeu demais. O tipo de dor que eu conhecia bem e também uma certa timidez de quem não espera a algum tempo ser constrangida.

Chegamos ao restaurante, um dos mais renomados de Paris. Mesas elegantes, luz amarela suave, cheiro de massa fresca e vinho caro no ar.

— Escolha o que quiser — falei. — Já volto à mesa.

Ela me olhou confusa.

— Você vai me deixar aqui? Eu não sei se devo pedir nada

— Só por alguns minutos.E por favor peça, quero compartilhar uma refeição com você, precisamos conversar e também tem muito tempo que não nos vemos, apenas escolha para nós.

Antes que ela perguntasse mais, me virei e segui até outra mesa, a apenas um metro de distância dali. Minha avó, digo, avó do Ares, havia organizado mais um encontro arranjado, na esperança desesperada de que eu “assumisse uma vida normal".

Eu só sentia irritação. Especialmente agora, quando Brianna estava tão perto.

A mulher sentada à mesa era linda. Loira, olhos grandes, bem vestida, claramente ansiosa por minha chegada. Sorriu assim que me aproximei.

— Ares Sins, finalmente!— disse ela, ajeitando o cabelo.

Eu não sorri.

Sentei-me de frente para ela, mantendo a postura impecável.

— Veja — comecei direto, sem rodeios — vou ser o mais breve possível. Esse encontro foi marcado pela minha avó, mas eu não tenho interesse algum em conhecer ou sair com outras mulheres.

Ela arqueou a sobrancelha, surpresa.

— Mas… você não é casado. Então pode muito bem aproveitar um pouco.

Soltei um suspiro cansado.

— Eu tenho uma noiva.

A palavra saiu antes que eu pudesse evitar. Não era mentira. Não completamente. Desde que vi Brianna no elevador, cada fibra do meu corpo gritava que ela seria minha.

A mulher me analisou, um sorriso nascendo nos lábios.

— Uma noiva que não está aqui — ela provocou.

— Não importa onde ela esteja — respondi, firme. — Eu me mantenho fiel a ela.

O sorriso dela desapareceu. Ela cruzou os braços, desapontada, talvez irritada por ter se arrumado para nada.

Mas eu não me importava.

Me virei sutilmente e deixei meus olhos pousarem na mesa ao lado.

Brianna estava lá, sozinha, lendo o cardápio com as mãos trêmulas, como se estivesse tentando disfarçar o fato de que mal conseguia respirar.

E naquele momento, a certeza que me atravessou foi absoluta:

Eu nunca deixaria que alguém a machucasse de novo.

Nunca.

— Espero que entenda — finalizei, levantando-me. — E lamento o inconveniente.

Ela nem respondeu. Mas eu não esperava que respondesse.

Dei as costas e caminhei de volta até a mesa onde Brianna me aguardava. A cada passo, meu coração batia mais rápido, como se estivesse voltando para o lugar ao qual sempre pertenceu.

Ela ergueu o olhar, surpresa, e algo dentro de mim se acalmou.

— Você escolheu? — perguntei.

Ela assentiu devagar.

Eu puxei a cadeira, sentei-me diante dela e, por um instante, o mundo pareceu parar, só eu, ela, e tudo o que tempo e os anos buscou destruir, na ausência de um para o outro, mas não conseguiu.

Eu a reencontrei. E desta vez,eu não a perderia.

—Brianna, eu preciso que você me ajude com algo, sei que pode ser repentino, audacioso, mas em nome da nossa amizade de longa data, você aceitaria se casar comigo?

continua....

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