Capítulo 2

O quarto de Mia era um santuário de silêncio e sombras. Paredes em tons de lavanda, móveis caros, mas uma ausência completa de alegria. A menina estava sentada no meio da cama imensa, parecendo ainda menor do que seus oito anos sugeriam.

Aproximei-me devagar, sentindo meu coração apertar. Seus cabelos escuros eram lindos, caindo em ondas perfeitas sobre os ombros, e seus olhos, embora brilhantes, tinham uma névoa de tristeza que eu conhecia bem.

— Mia? — chamei baixinho. — Posso te contar uma história?

Ela não respondeu, mas seus olhos encontraram os meus. Não havia rejeição, apenas uma curiosidade cautelosa. Sentei-me na beirada da cama e comecei a falar sobre uma pequena estrela que se perdeu do céu e encontrou abrigo em uma floresta mágica.

Enquanto eu falava, peguei uma escova e comecei a pentear seus fios negros com delicadeza. Mia soltou um suspiro longo, o primeiro sinal de relaxamento. Aos poucos, ela foi se inclinando, até apoiar a cabeça no meu colo.

— Minha mãe também cheirava a flores — ela sussurrou, a voz tão baixa que quase se perdeu no ar.

Minha garganta deu um nó. Eu não disse nada, apenas continuei o movimento rítmico da escova. Os olhos brilhantes da pequena foram ficando pesados, lutando contra o sono, até que finalmente se fecharam. Ela dormiu ali, no meu colo, segurando a barra da minha blusa como se eu fosse sua única âncora.

Com cuidado extremo, a deitei e a cobri. Fiquei um tempo observando seu rosto sereno antes de sair, sentindo que, por aquela menina, eu enfrentaria qualquer coisa.

(...)

Mas o sentimento de paz durou pouco. De volta ao meu quarto, o silêncio da casa começou a me sufocar. Levantei-me para buscar água, tentando afastar a imagem dos olhos tristes de Mia da minha mente.

Foi quando ouvi o som. O cascalho estalando sob pneus pesados.

Aproximei-me da janela da biblioteca e o que vi gelou meu sangue. Utilitários pretos, homens armados e uma figura que parecia ter saído de um pesadelo: Lorenzo. Ele não era mais o pai distante de Mia; era uma máquina de guerra.

Vi quando arrastaram um homem amarrado para o galpão. Vi a frieza com que Lorenzo calçou as luvas de couro negro. O pânico me dominou.

Recuei, querendo apenas voltar para a segurança do meu quarto, mas o destino tinha outros planos.

Meu corpo colidiu com uma parede de músculos. Mãos grandes e fortes agarraram meus ombros, prendendo-me no lugar. O cheiro de tabaco e sândalo me atingiu antes mesmo que eu pudesse olhar para cima.

— É falta de educação espiar os negócios do seu patrão, Bianca.

A voz de Lorenzo era um sussurro rouco bem acima da minha cabeça. Ele me girou lentamente, forçando-me a encará-lo. Seus olhos estavam mais escuros do que à tarde. Não havia mais humanidade neles. Ele deslizou uma das mãos, ainda usando a luva de couro negro, pelo meu pescoço, parando o polegar bem em cima da minha pulsação acelerada.

— Você disse que estava fugindo de um monstro, piccola — ele murmurou, apertando levemente meu pescoço, o suficiente para me fazer arfar. — Mas você cometeu um erro terrível.

Ele se inclinou, seus lábios roçando a ponta do meu ouvido, enviando um calafrio de medo e um desejo proibido por toda a minha espinha.

— Você correu direto para o ninho de um deles. E agora que viu o que eu faço... eu não posso mais deixar você sair daqui.

Senti o metal frio de algo em sua cintura pressionar meu quadril enquanto ele me prensava contra a estante de livros.

— O que você vai fazer comigo? — consegui perguntar, a voz falhando.

Lorenzo sorriu, um sorriso sem dente e cheio de perigo, que fez meu ventre contrair de uma forma que eu não queria admitir.

— Vou fazer você esquecer o mundo lá fora, Bianca. Porque, a partir de hoje, seu mundo sou eu.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App