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O ar da Toscana era doce, perfumado com videiras e terra molhada, mas meus pulmões pareciam recusar o oxigênio. Eu estava parada diante de dois portões de ferro batido que pareciam mais a entrada de uma fortaleza do que de uma residência.
Eu não tinha escolha. Atrás de mim, estavam os fantasmas de um passado que quase me destruiu. À minha frente, o desconhecido. — Nome? — A voz grossa veio de um interfone de metal. — Bianca Conti. Vim para a entrevista com o senhor Vitale. Houve um estalo elétrico e os portões se abriram lentamente. Caminhei pela estrada de cascalho, apertando a alça da minha bolsa gasta. A propriedade era magnífica. Uma villa de pedra antiga, cercada por ciprestes altos que pareciam sentinelas. Mas, quanto mais eu me aproximava, mais o silêncio me incomodava. Era um silêncio pesado, de quem tem algo a esconder. Uma governanta de rosto severo me recebeu e me guiou por corredores de mármore frio até uma porta de carvalho maciço. — Ele detesta atrasos. Entre. — Foi tudo o que ela disse antes de me deixar sozinha. Respirei fundo, ajeitei minha saia e bati. — Entre — uma voz profunda, como o som de trovão distante, ecoou lá de dentro. Ao entrar, o contraste me atingiu. O escritório era escuro, iluminado apenas por algumas luminárias de luz quente. Atrás de uma mesa imensa, estava ele. Lorenzo Vitale. As fotos que vi não faziam justiça à presença física que ele emanava. Ele era maior, mais imponente e assustadoramente bonito. O cabelo escuro estava penteado para trás, e os olhos cinzas — cor de chumbo — estavam fixos em alguns papéis. Ele não levantou a cabeça de imediato. — Você é jovem — ele disse, finalmente olhando para mim. O impacto daquele olhar me fez perder o fôlego por um segundo. — Vinte e um anos? — Sim, senhor. Mas tenho experiência com crianças e... — Eu não preciso de uma babá que saiba apenas trocar fraldas e contar histórias de ninar, senhorita Conti — ele me interrompeu, levantando-se. Ele era alto, muito alto. O terno cinza sob medida abraçava ombros largos que pareciam carregar o peso do mundo. — Minha filha, Mia, perdeu a mãe. Ela é... difícil. Ela precisa de alguém que não quebre sob pressão. Ele caminhou em minha direção. Cada passo era predatório, como um lobo avaliando uma presa. Lorenzo parou a centímetros de mim. O cheiro dele de tabaco caro, sândalo e algo metálico que eu não soube identificar, me envolveu. — Por que uma garota brasileira, tão jovem e com um currículo tão vago, viria parar justamente na minha porta, no meio do nada? — Ele se inclinou, a voz baixando para um tom perigosamente íntimo. — De quem você está fugindo, Bianca? Meu coração disparou. Senti minhas mãos tremerem e as escondi atrás das costas. — Todos estamos fugindo de algo, senhor Vitale. Alguns de nós só querem um lugar onde o passado não nos encontre. Um brilho de interesse cruzou aqueles olhos gélidos. Por um momento, o silêncio entre nós foi preenchido apenas pelo som da minha respiração acelerada. Ele estava perto demais, e a diferença de idade e poder entre nós parecia um abismo que, estranhamente, me atraía. — Papai? Uma voz pequena e triste veio da porta. Lorenzo se afastou instantaneamente, a máscara de gelo voltando ao rosto. Uma menina de cabelos escuros e olhos grandes e melancólicos estava parada ali, abraçando um urso de pelúcia desbotado. Lorenzo olhou de Mia para mim. — O quarto dela é no final do corredor à esquerda. O seu é ao lado. Se você fizer a minha filha chorar, estará fora antes do pôr do sol. Se você me trair... — Ele não terminou a frase, mas o aviso estava gravado em cada linha de seu rosto. — Eu não vou falhar — afirmei, embora minhas pernas parecessem feitas de gelatina. — Veremos. Saí do escritório sentindo o olhar dele queimando minhas costas. Eu sabia que aquela casa era perigosa. Eu sabia que aquele homem era o próprio perigo. Mas, pela primeira vez em meses, eu não senti medo do passado. Eu senti medo do que Lorenzo Vitale poderia despertar em mim.






