Sob O Mesmo Teto

A primeira noite de Natália na mansão Vartem foi silenciosa demais.

O quarto era grande, confortável, impessoal. Tons neutros. Nenhum objeto fora do lugar. Nenhuma personalidade. Era como se até o descanso precisasse seguir regras.

Ela largou a mala ao lado da cama e soltou um suspiro longo.

— Pelo menos o colchão parece decente — murmurou, falando sozinha.

Tomou um banho rápido, vestiu um pijama simples e se jogou na cama. O cansaço físico veio rápido, mas o sono… não. A imagem de Nicolas Vartem surgia insistente em sua mente: o olhar duro, as tatuagens, o jeito contido de quem parecia sempre à beira de explodir — ou quebrar.

Um barulho suave no corredor a fez se sentar na cama.

Passos pequenos.

A porta se abriu devagar.

— Natália? — a voz de Arthur saiu baixinha, quase um sussurro.

Ela se levantou num pulo.

— Ei… o que foi?

O menino segurava Thor com força, os olhos marejados.

— Não consigo dormir.

Natália se ajoelhou à frente dele.

— Pesadelo?

Ele assentiu.

— Posso ficar aqui um pouquinho?

Ela nem pensou.

— Claro que pode.

Arthur subiu na cama, se aninhando ao lado dela como se aquilo fosse natural. Natália puxou o cobertor com cuidado e começou a fazer carinho leve em seus cabelos.

— Quer que eu conte uma história?

— Quero — ele bocejou.

Ela começou a inventar uma história boba sobre um dinossauro que tinha medo do escuro. Arthur riu baixo, os olhos se fechando aos poucos.

Do lado de fora, Nicolas observava.

Ele havia seguido o filho quando o viu sair do quarto. Não pretendia entrar. Não pretendia ouvir. Mas parou ao ver a cena pela fresta da porta.

Arthur dormia tranquilo.

Em poucos minutos.

Algo que não acontecia há meses.

Nicolas sentiu o peito apertar com força.

Isso não é bom, pensou. Ela está ficando importante demais.

Quando Natália percebeu a presença na porta, ergueu o olhar.

Os olhos dela encontraram os dele no escuro.

— Ele teve um pesadelo — sussurrou. — Já está tudo bem.

Nicolas entrou devagar, fechando a porta atrás de si.

— Ele não costuma sair do quarto à noite — disse.

— Crianças mudam — respondeu ela, baixinho. — Especialmente quando se sentem seguras.

Ele observou o filho por alguns segundos, depois voltou os olhos para Natália.

— Você quebrou mais uma regra hoje.

Ela deu um meio sorriso.

— E o mundo continuou girando.

Nicolas cruzou os braços, apoiando-se na parede.

— Você deveria ter me chamado.

— Ele precisava de alguém agora — respondeu. — Não de uma reunião.

O silêncio se instalou, mas não era desconfortável. Era carregado.

— Por que aceitou esse emprego? — ele perguntou de repente.

Natália hesitou.

— Porque eu precisava — respondeu com sinceridade. — E porque crianças como Arthur não deveriam crescer com tanto silêncio.

Os olhos dele escureceram.

— Você fala como se soubesse o que é crescer assim.

Ela sustentou o olhar.

— Talvez eu saiba.

Arthur se mexeu, murmurando algo incompreensível. Nicolas se aproximou instintivamente e ajeitou o cobertor. O toque dele foi desajeitado, quase tímido.

Natália percebeu.

— O senhor pode ficar — disse, surpreendendo até a si mesma. — Ele dorme melhor quando sente presença.

Nicolas engoliu em seco.

Ficou.

Sentou-se na poltrona ao lado da cama, observando o filho dormir — e Natália, tão perto que ele conseguia sentir o perfume suave de sabonete.

— Isso não vai durar — disse ele, baixo. — Pessoas sempre vão embora.

Natália o encarou.

— Só quando não encontram motivo pra ficar.

O olhar deles se prendeu por um segundo a mais do que deveria.

Algo passou entre eles. Algo perigoso. Intenso. Silencioso.

Nicolas se levantou de repente.

— Boa noite, Natália.

— Boa noite, senhor Vartem.

Quando ele saiu, Natália soltou o ar que nem percebera estar segurando.

E Nicolas, do outro lado da porta, apoiou a mão na parede.

Porque pela primeira vez em anos…

ele teve medo de perder algo que ainda nem era seu.

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