Natália descobriu rapidamente que Nicolas Vartem não era um homem acostumado a ser contrariado.
Ele não levantou a voz.
Não fez escândalo.
Não ameaçou.
O que era pior.
— Helena — disse ele, sem tirar os olhos de Natália —, leve o Arthur para o quarto.
— Não quero — o menino protestou, apertando mais forte a mão dela.
Natália sentiu o aperto pequeno e quente dos dedos infantis, e algo dentro dela se retesou. Aquilo não era parte do contrato. Mas também não era algo que ela conseguiria ignorar.
Nicolas se agachou à frente do filho, a postura rígida suavizada apenas o suficiente para não parecer assustador.
— Arthur, obedeça — pediu, num tom firme. — Vamos conversar depois.
O menino hesitou, olhou para Natália como se pedisse permissão.
Ela sorriu de leve.
— A gente se vê já, Thor e eu — disse, piscando.
Arthur assentiu e seguiu Helena, ainda olhando para trás.
Quando a porta se fechou, o silêncio voltou a dominar o escritório.
Nicolas respirou fundo.
— Aquilo não pode se repetir — disse, direto. — Meu filho não cria vínculos com funcionários.
Natália cruzou os braços.
— Então talvez o problema não seja o vínculo… mas a falta dele.
O maxilar dele se contraiu.
— Você não sabe nada sobre minha família.
— Sei o suficiente para perceber quando uma criança está sozinha — rebateu ela, sem agressividade. — E não se preocupe, senhor Vartem. Eu sei exatamente onde estou pisando.
— Duvido.
Ele caminhou até a mesa, pegou uma pasta preta e jogou sobre o tampo.
— Regras — disse. — Leia. Decore. Siga.
Natália abriu a pasta.
Havia horários, limites, protocolos. Regras sobre alimentação, rotina, brincadeiras, silêncio. Até sobre afeto.
Evitar apego emocional excessivo.
Ela ergueu os olhos lentamente.
— O senhor já tentou abraçar seu filho?
A pergunta caiu como uma lâmina.
— Isso não é da sua conta.
— Tudo bem — ela fechou a pasta. — Então vamos esclarecer as coisas.
Nicolas arqueou uma sobrancelha.
— Estou ouvindo.
— Eu não sou robô. Não sou fria. Não sou uma extensão do seu controle — disse, mantendo a voz calma. — Sou uma babá. E cuidar de uma criança envolve afeto. Se isso for um problema, talvez eu não seja a pessoa certa.
Ele a encarou por longos segundos.
Ninguém falava assim com ele.
Ninguém ficava.
— Você foi contratada porque precisava do emprego — respondeu. — E porque meu filho precisa de estabilidade. Se não consegue separar emoção de função…
— Eu consigo — interrompeu. — O senhor é que não consegue separar medo de controle.
O silêncio se alongou de novo.
Nicolas sentiu algo desconfortável crescer dentro do peito. Aquela mulher enxergava demais. Falava demais. E, ainda assim, ele não a mandou embora.
— Seu quarto fica no corredor leste — disse, mudando de assunto. — Nada de visitas. Nada de sair com Arthur sem autorização. Nada de intimidade comigo.
Natália sorriu de canto.
— Fique tranquilo. Eu não misturo trabalho com homens emocionalmente indisponíveis.
Aquilo doeu mais do que deveria.
Ela virou para sair, mas parou na porta.
— Só mais uma coisa, senhor Vartem.
— O quê?
— Controle funciona com empresas. Com crianças… e com sentimentos… ele só cria rachaduras.
Ela saiu antes que ele respondesse.
Nicolas permaneceu parado, encarando a porta fechada, com uma sensação estranha — algo entre irritação e curiosidade.
Horas depois, do alto da escada, ele observava escondido.
Arthur ria.
Ria alto.
Natália estava sentada no tapete da sala, cercada de dinossauros, fazendo vozes ridículas, enquanto o menino gargalhava como Nicolas nunca tinha visto.
Aquilo não deveria acontecer.
E, ainda assim, aconteceu.
Quando Arthur correu para abraçá-la, Nicolas sentiu o peito apertar.
Perigo.
— Natália — chamou, a voz mais dura do que pretendia.
Ela se virou.
— Sim?
— Arthur vai dormir agora.
— Ainda faltam dez minutos — respondeu ela. — Prometi terminar a história.
O menino olhou para o pai, apreensivo.
Nicolas hesitou.
O mundo não acabou.
— Dez minutos — cedeu, por fim.
Natália sorriu, surpresa.
— Viu só? O senhor também sabe negociar regras.
Os olhos deles se encontraram.
E, naquele instante, Nicolas percebeu algo alarmante:
Ele não queria que ela fosse embora.
E Natália percebeu algo ainda mais perigoso:
Ela estava começando a gostar de provocar aquele homem.