Natália acordou antes do despertador.
Não por costume — mas porque aquela casa não dormia de verdade. Havia um silêncio tenso, como se as paredes estivessem sempre atentas, esperando que algo saísse do controle.
Ela se levantou devagar, vestiu uma roupa confortável e saiu para o corredor. A porta do quarto de Arthur estava entreaberta. Espiou.
Ele dormia tranquilo.
Um pequeno sorriso escapou de seus lábios.
Na cozinha, Natália começou a preparar o café da manhã. Nada sofisticado. Panquecas simples, frutas cortadas, suco. Coisas normais. Coisas que aquela casa claramente não conhecia.
— Bom dia!
Arthur surgiu sonolento, arrastando Thor pelo chão.
— Bom dia, campeão — ela disse, se abaixando. — Dormiu bem?
— Dormi! — respondeu animado. — Você ficou?
— Fiquei.
Ele sorriu como se tivesse ganhado o melhor presente do mundo.
Não percebeu o homem parado na porta da cozinha.
Nicolas observava tudo em silêncio.
Natália rindo.
Arthur falando sem parar.
A cozinha… viva.
Aquilo não fazia sentido.
— Pai! — Arthur correu até ele. — A Natália fez panquecas!
Nicolas abaixou os olhos para o filho, depois voltou o olhar para Natália.
— Ela não precisava fazer isso.
— Eu quis — respondeu ela, colocando um prato na mesa. — Comer em silêncio todos os dias não é exatamente saudável.
— Aqui funciona.
— Funcionar não é o mesmo que viver — rebateu, sem agressividade.
Arthur sentou-se à mesa e começou a comer feliz, sujando o rosto de mel.
Nicolas permaneceu em pé.
— O senhor não vai sentar? — Natália perguntou.
— Não costumo tomar café da manhã em família.
Ela inclinou a cabeça.
— Nunca é tarde para criar novos hábitos.
Os olhos dele se estreitaram. Não havia raiva ali. Havia algo mais desconfortável.
Ele se sentou.
Foi estranho. Ridiculamente estranho.
Arthur falava animado sobre dinossauros, Natália respondia, Nicolas observava… e, em silêncio, participava. Um aceno de cabeça. Um comentário curto. Um olhar atento.
Quando Arthur terminou, Natália o levou para escovar os dentes.
Nicolas ficou sozinho na cozinha.
E percebeu que estava… calmo.
Aquilo o deixou irritado.
Mais tarde, no jardim, Natália brincava com Arthur quando o celular dela tocou. Ela atendeu rindo.
— Não, você não pode me ligar a essa hora — disse, divertida. — Estou trabalhando.
Do outro lado do vidro da sala, Nicolas viu.
Viu o sorriso.
Ouviu o tom leve.
Sentiu algo que não reconheceu de imediato.
— Quem era? — perguntou, quando ela desligou.
Natália piscou, surpresa.
— Um amigo.
— Amigo — ele repetiu, seco.
— Sim. Pessoas costumam ter esses.
O maxilar dele se contraiu.
— Enquanto estiver aqui, sua atenção deve ser exclusiva ao meu filho.
Ela se aproximou, parando a poucos passos dele.
— O senhor não me contratou como prisioneira.
— Não confunda liberdade com descuido.
— Não confunda cuidado com posse — respondeu, firme.
Arthur puxou a mão dela.
— Vamos brincar, Nati?
Ela sorriu para o menino.
— Vamos.
Natália se afastou sem olhar para trás.
Nicolas ficou parado, sentindo algo arder no peito.
Ciúme.
Era ridículo.
Inapropriado.
Perigoso.
Naquela noite, ao passar pelo corredor, ele ouviu risadas vindas do quarto de Arthur. Parou outra vez.
Natália estava sentada na cama, Arthur abraçado a ela.
O mesmo cenário.
A mesma sensação.
— Senhor Vartem — ela disse ao vê-lo. — O senhor pode contar a história hoje.
Arthur olhou esperançoso.
Nicolas engoliu em seco.
— Eu… não sei.
Natália se levantou, ficou ao lado dele.
— Não precisa saber. Só precisa ficar.
Arthur sorriu.
E Nicolas percebeu, com um aperto no peito, que aquela mulher estava fazendo algo impensável:
Ela estava se tornando indispensável.
E isso…
isso era exatamente o que ele mais temia.