Mundo de ficçãoIniciar sessão— Doutora Laura Figueiredo. — Provoco a advogada da concorrência ao sairmos da sala de audiência. Ela me lança um sorriso um tanto soberbo, enquanto se aproxima.
— Você foi audacioso lá dentro, doutor — diz, com aquele olhar altivo, que parece atravessar a minha arrogância.
— Audacioso? — rio, debochado. — Eu pus a sua defesa no chinelo.
— Ganha-se umas e perde-se outras — Dá de ombros, com aquele ar irritantemente confiante.
Aproximo-me um pouco mais, e olho nos seus olhos.
— Ultimamente, você só tem perdido, doutora. — Faço um suspiro teatral, sentindo o calor da provocação subir pelas minhas veias. — Quem sabe se você se aprofundasse mais…
Audaciosa, Laura se inclina em minha direção. Seu hálito quente alcança o meu ouvido. A voz rouca e suave reverbera dentro de mim, acelerando meu coração, deixando-o pulsando de um jeito que nem eu esperava.
— Quem sabe se você me der algumas aulas particulares? — insinua, deixando meu corpo inquieto.
Nossos olhos se encontram. Os dela, em chamas. Os meus, tentando manter a compostura.
— É só você marcar, doutora. Terei todo prazer em lhe mostrar como alguns artigos e leis que realmente funcionam.
O duplo sentido da frase a faz abrir um sorriso presunçoso. Contudo, Laura se recompõe, ajeita seu terninho elegante e se afasta um pouco.
— Foi um prazer confrontá-lo no tribunal, doutor Rocha. — Ela usa seu tom formal.
— Acredite, o prazer foi todo meu… e do meu cliente, claro.
Sorrio de forma safada e lhe dou as costas, mantendo meu corpo ereto no terno escuro e impecável. Saio do prédio, mas algo dentro de mim se recusa a se desligar daquela sensação. Dentro do carro, meu celular começa a tocar.
Rafael.
É sexta-feira e é final de tarde, o convite é óbvio: noitada, uísque e mulheres lindas. Mas algo está diferente dentro de mim. Definitivamente, não estou me reconhecendo.
— Fala, Rafael.
— Lancha, alto mar, noite estrelada e algumas garotas. Tá dentro?
Queria dizer que não. Queria dizer que tenho outros planos, mas não tenho. O fato é que eu não quero passar essa noite sozinho no meu apartamento… e, ainda assim, não sinto tesão de estar nas farras com meus amigos. Enquanto penso nisso, algo do lado de fora chama a minha atenção, quando o carro para bruscamente no sinal vermelho.
Afasto o telefone do ouvido e miro na garota atravessando na faixa de pedestre. Devo dizer que ela é simplesmente linda! Penso, observando seu olhar expressivo. O sorriso fácil, os cabelos longos e ondulados soltos ao vento. E sem lógica alguma, saio do veículo para observá-la melhor.
— Doutor Rocha? — Meu motorista chama preocupado com a minha saída repentina. — Está tudo bem? — Forço-me a virar-me para encará-lo.
— Ah… eu estou bem, Luís — murmuro, mais para mim do que para ele. Contudo, ao virar-me para admirá-la outra vez, percebo que ela desapareceu no meio de uma multidão, enfileirada na frente de um clube.
Será que isso foi uma ilusão da minha cabeça?
Porra, estou enlouquecendo!
Frustrado, volto para o banco traseiro, enquanto as buzinas reclamam atrás de nós e o carro entra em movimento. Entretanto, não consigo apagar a imagem da garota na minha mente.
— Bernardo, você está aí? — Rafael fala do outro lado da linha.
— Estou — digo, sentindo-me cansado.
— Você sumiu.
— Eu estou aqui, não estou?
— Então, você vem?
— Ok, eu vou.
Quase duas horas depois, estou dentro de uma lancha luxuosa, rodeado de mulheres exuberantes e oferecidas. O som alto se mistura às risadas, aos corpos que se esfregam, às mãos deslizando pelas belas pernas torneadas. Levanto meu copo e tento não me afogar em pensamentos. No entanto, aquele sorriso fácil volta a se desenhar bem na minha frente. Minha mão vai à nuca em uma tentativa inútil de afastar essa linda imagem da desconhecida.
Quem é você? Essa pergunta reverbera dentro de mim, mais forte que o próprio som da música.
— E aí, irmão? — Arthur surge ao meu lado, encostando-se na grade de proteção. — O que tá pegando?
Fixo o meu olhar no Pão-de-Açúcar, imponente como guardião silencioso do Rio de Janeiro.
— Nada — respondo evasivo.
— Tem certeza? — ele insiste. — Enquanto essas garotas estão cheias de amor para dar, você está aqui sozinho e com um copo quase vazio na mão.
Respiro fundo.
— Sei lá. Acho que estou quebrado, Arthur.
Meu amigo me lança um olhar meio torto.
— Que porra é essa agora? — inquire zombeteiro. — Onde está aquele garanhão que não perde tempo pensando no amanhã?
— Eu sei lá — respondo incapaz de definir o que sinto.
— É sério, cara. Você está doente?
— Me sinto confuso, meio perdido e, vazio, sabe?
Ele ri, incrédulo.
— Não fala isso para o Rafael, ele vai tirar o teu coro.
Olho para ele, sério.
— Você… já pensou em se casar algum dia, Arthur?
Arthur se engasga com a bebida.
— Como é que é?
— Casamento. Ter filhos. Estabilidade. Segurança.
Dessa vez ele me encara, atordoado.
— Você está falando sério? — Ele parece estupefato. — Bernardo, você é o pai da safadeza. Levou todos os seus amigos ao ápice do sexo com a mulherada. Deitou-se com metade das mulheres da alta sociedade carioca. E agora está falando em casamento?
Bufo audível.
— Isso são coisas da idade, não é? — retruca com diversão.
— Vai se foder, Arthur! — rebato, irritado.
— Estou falando sério, Bernardo. Você já tem quase quarenta anos.
— Trinta e sete. — O corrijo. — Não sou tão velho assim.
Respiro, esfregando meu rosto.
— Acho que estou cansado dessa superficialidade da vida. Esse sexo vazio. Os toques sem emoção. Sentimentos que não fazem meu coração bater mais forte. Eu… quero mais, Arthur.
Arthur arregala os olhos.
— Não acredito! — Meu amigo abre um sorriso incrédulo. — Isso só pode ser uma pegadinha.
Reviro os olhos.
— Ei, venham pra cá! — Bruno grita, acima da música alta. — As meninas estão se sentindo abandonadas.
E mesmo sem vontade, sigo para o meio deles, mas por dentro, meu coração continua inquieto.
Na manhã seguinte, acordo meio quebrado e largado no sofá em L. O sol entra pelas janelas de vidro e as risadas lá fora me lembram da madrugada intensa, das línguas nas bocas, dos toques ardentes… do sexo a três que, no fim, me deixou mais vazio do que qualquer coisa que já experimentei.
— Ah, a bela adormecida já acordou! — Bruno cantarola, erguendo seu copo.
— Bom dia! — murmuro, sentando-me à pequena mesa.
Uma morena provocante me oferece uma bebida direto da sua boca, que recuso sem hesitar.
— Estou indo embora — aviso de repente, atraindo a atenção de todos para mim.
— O que? — Meus amigos perguntam ao mesmo tempo.
— Por quê? — Bruno inquire curioso.
— Não gostou das minas? — Rafael se aproxima.
— É que… a Dora acabou de me ligar — minto. — Eu tenho uma emergência no escritório.
— Mas é sábado! — retruca Bruno.
— Por que não pede para um dos seus sócios resolver isso? — Rafael interpele.
— Deixem-no ir. — Arthur intervém. — Vocês sabem como Bernardo é. Ele precisa ver tudo de perto, ou não vai conseguir se divertir.
Meneio a cabeça em concordância.
Merda! Merda! Merda!
O que há de errado com você, Bernardo Rocha?
Perdido em meus próprios pensamentos confusos, dirijo direto para a minha cobertura que fica no Hotel Interplace, em Copacabana, de frente para a praia mais movimentada do Rio. E durante o trajeto, uma sequência de perguntas sem respostas me deixam ainda mais confuso. No entanto, desperto da minha confusão quando sou forçado da frear bruscamente e um par de olhos castanhos escuros me encaram possessos.
Não pode ser! Penso impactado. É a garota da calçada. Ávido, saio do veículo e vou ao seu encontro.
— Ficou maluco?! — Ela grita enfurecida, batendo no meu capô. — Não me viu na faixa de pedestre não?
Então me dou conta de que o sinal estava fechado.
— Me desculpe! — Tento dizer.
— Você quase me matou, seu idiota! — Ela volta a gritar.
E eu só consigo pensar que ela fica ainda mais bonita irritada.
Porra, e o meu coração está aos pulos!







