4. Bernardo

— Mais uma rodada, garçom! — Laís pede me estendendo seu copo vazio e passamos algumas horas até esvaziarmos uma garrafa inteira de vodca com frutas e água com gás.

No final, Olga está dormindo, largada no tapete. Laís encolhida em um sofá de dois lugares e eu, esparramada no sofá de frente. Contudo, me pego olhando para o papel de parede do meu celular. Uma foto onde Pedro e eu estamos sorrindo para a câmera, enquanto eu mostro a aliança de noivado.

Mordo meu lábio inferior, secando a lágrima que começa a se formar. No entanto, sacudo a cabeça e fecho a tela, encarando o teto em seguida.

Você está tendo uma nova chance, Pilar. Penso. Não estrague isso pensando nele.

Respiro fundo e decido pegar alguns cobertores para as meninas.

***

— Hum que cheiro maravilhoso é esse? — Olga sibila repentina, entrando na cozinha apertada.

— Fiz um suco verde pra você. Imaginei que acordaria de ressaca.

— Hum, fabuloso, amiga. Mas você sabe que não precisa fazer isso, não é? Digo, café da manhã, sucos, mesa farta…

— É o mínimo que eu posso fazer para te agradecer.

— Nada disso. Eu não te trouxe para cá para me servir, Pilar. — Ela olha para o relógio no seu pulso. — Estou atrasada. — Olga toma um gole grande do suco. — Hum! Que delícia! O que você pôs aqui?

Abro a boca para falar, mas ela continua.

— Depois você me conta. — Ela beija rapidamente a minha bochecha. — Eu preciso ir. — E ela finaliza a bebida, saindo apressada do apartamento.

Encaro a mesa farta e suspiro, levando o seu copo vazio para a pia. Contudo, a campainha começa a tocar e sorrio, indo atender a porta.

— O que você esqueceu…

Engulo minhas palavras quando encaro Pedro em pé bem na minha frente, com sua postura imponente, dentro de um terno impecável. Por um instante, pensei em fechar a porta na sua cara, mas ele simplesmente força passagem e invade a sala simples. Seu olhar soberbo percorre os quatro cantos do cômodo, até parar em mim.

Meu estômago se revira, quando seu timbre arrogante, firme, levemente autoritário reverbera dentro da sala.

— O que está fazendo aqui? — O encaro petulante.

— Eu vim te buscar.

Encolho os olhos.

— Como é que é? — Cruzo os braços.

— Já chega de drama, Pilar. — Ele dá um passo à frente. — Você teve tempo suficiente para esfriar a cabeça. Você sabe que tudo aquilo foi um erro.

— Um erro? — repito, sentindo meu sangue ferver. — Você dormiu com a minha melhor amiga. E está dizendo que foi um erro?

Pedro bufa impaciente.

— As pessoas erram, Pilar. Mas nós dois... nós somos perfeitos juntos. Você não pode jogar fora um futuro inteiro por causa de um deslize momentâneo.

— Um deslize momentâneo? — repito. Minha voz saiu trêmula. — Você me humilhou, Pedro. Na casa que eu ajudei a decorar para o nosso casamento. E com a mulher que eu confiava.

— Sério, Pilar? — Ele ajeita o paletó, assumindo um tom frio e calculista, que eu não conhecia. — Eu te tirei de uma vida medíocre. Te ofereci um lar de verdade, um futuro cheio de luxo e de glamour. E é assim que você me paga?

— Ah, então eu devo grata por você comer a minha amiga?

Rio debochada.

— Pegue as suas coisas, e vamos para casa.

— Eu estou na minha casa. E você deve ir embora. — Vou até a porta e abro.

Soberbo, ele puxa o ar.

— Você sabe que ninguém vai te oferecer o que eu ofereci, não é?

— Eu não preciso da droga do seu dinheiro! — rosno entre dentes.

— Acha mesmo que vai encontrar algo melhor? — ele olha em volta com desdém — É isso… que você quer?

Engulo o nó em minha garganta.

— Talvez eu não tenha mais a segurança, nem o status. Mas pelo menos agora eu tenho uma coisa que nunca tive com você: a liberdade.

Ele ri, debochado.

— Liberdade não paga contas, Pilar — rebate arrogante.

— Não paga — admito. — Mas me devolve a dignidade.

A expressão dele se endurece.

— Eu sei que você vai se arrepender e que você vai voltar para mim com esse seu rabo gostoso abanando pra mim.

Puta da vida, acerto uma tapa na sua cara.

— Não entendo como eu não vi como você era antes. — Olho duramente nos seus olhos. — No fundo, a sua traição serviu para abrir os meus olhos e ver o quão podre você é por dentro, senhor Guedes.

Ele me encara duramente.

— Vai embora! — sibilo entre dentes, mas ele não se mexe do seu lugar. — SAI DAQUI! — grito e o empurro, fechando a porta com força.

Dolorida, me entrego a um choro silencioso, escorregando pela porta, sentando-me no chão.

— Eu não vou desistir de você, Pilar!

— Vai se foder, Pedro! — grito furiosa.

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